O mercado das vidas negras

*Por Priscilla Sobral


No dia da consciência negra assistimos a mais um absurdo, um lixamento violento de um corpo negro assistido passivamente por brancos em Porto Alegre. No entanto, o que viraliza são os comentários nos jornais e nas redes sociais sobre as manifestações contra o racismo que, segundo os internautas, parecem ter sido mais violentas e atrozes do que o terrível ocorrido.


“Que povo mal educado! Precisa depredar as coisas? Não sabem fazer manifestação! Que absurdo! Um bando de animais."


O que realmente acontece para frases de indignação do ataque a um supermercado valer mais que um ser humano sendo morto? Seria diferente se fosse um corpo branco? Melhor dizendo, um corpo branco teria sido assassinado diante de um público passivo? Qual o motivo tão justificável que faz com que o segurança do mercado e o policial lixe aquele homem tão violentamente diante de olhos tão tranquilos? Conformidade, aceitabilidade ou justificação?


“Ele deve ter agredido, se comportado mal, então mereceu!.”


A cena de horror nos lembra bem da morte de muitos negros durante a escravidão, vista diante do público, feita de espetáculo. Por qual motivo? Anos se passaram, avançamos em tecnologia, mas a consciência humana está pausada.


A perversidade é humana. O ato de matar um homem e de ser omisso à um assassinato é um ato de perversão. A que ponto nos deslocamos de nossa humanidade? Qual a razão pela qual nosso débil e frágil ser busca incessantemente a extinção da própria espécie e usa a sua capacidade intelectual para a justificação de sua crueldade?


A partir do momento que retira-se do outro seu caráter humano, dissocia-se dele e permite-se matá-lo.

“Um corpo negro, não apenas um corpo.”


Sangraria ele azul? Tem três pernas, duas cabeças? Tornando-o não humano legitimamos assassinatos. O que mais me assusta é nossa permissividade, aceitar o ocorrido passivamente e nos incomodarmos com as manifestações.


Quantas horcruxes estamos criando dividindo nossas almas e as colocando em objetos? Não deveríamos ter vergonha de como agimos e de como pensamos?


Nossas mãos estão sujas de sangue, não simplesmente por matar, excluir, discriminar, mas sobretudo por vermos e não fazermos nada. Há quanto tempo ficaremos sentados em plateias observando nossa vida ser movida como marionetes por uma sociedade doentia que afasta o humano de sua humanidade?


Negar a existência da violência, do racismo, da doença, da nossa perversidade, não a faz desaparecer. Ignorar não nos torna isentos de possuí-la, apenas nos faz ignorantes.


Por quanto tempo vamos continuar nos cegando por preguiça ou medo da mudança? Quantas vezes mais vamos dividir as nossas almas? Sabemos o quão seco e vão era Voldemort, o doente vilão de Harry Potter, mas ele não nasceu assim, foram suas escolhas que o tornaram aquele ser. Quais estão sendo nossas escolhas? Estamos escolhendo a vida humana ou mercados? Estamos optando pela passividade perversa ou pelo protesto agressivo em um apelo desesperado pela vida?


O mercado negro, a vida como mercado, por quantos reais estamos nos vendendo?


Fica aqui uma reflexão sobre nós, pois enquanto continuarmos passivos, nos omitindo, nada poderá ser transformado e continuaremos vivendo “tempos sombrios".



*Graduada em Letras/Frânces (UFBA). Doutoranda em Linguistica Aplicada (UFBA). Autora do livro Eu, Ele e minha melhor amiga.



Link da imagem: https://domtotal.com/noticia/1484347/2020/11/morte-de-negro-no-carrefour-mercado-nao-enxerga-relevancia-no-crime-e-acoes-da-fecham-em-alta/

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