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O MEU AMIGO ESTUPRADOR



Esse texto quer contemplar alguém que pouco falamos nas discussões feministas: o amigo do estuprador/abusador. Enquanto responsabilizamos homens que cometem crimes, devemos observar como ficam as pessoas que estavam conectadas a eles. Sejam homens ou mulheres, muitas delas tendem a não conseguir associar a figura do estuprador/abusador a seu ente querido, ainda que haja, em alguns casos, provas contundentes do crime. Essa desassociação se deve, geralmente, ao que essas pessoas acham que deveria aparentar e performar alguém com tendências a cometer crimes contra mulheres, especialmente de cunho sexual.


Eu trago essa discussão depois de sair na mídia o caso do ator Danny Masterson, famoso pelo sitcom "That '70s Show", que foi condenado a 30 anos de prisão por estuprar duas mulheres nos anos 90. A maior repercussão não foi apenas a condenação, mas o vazamento de duas cartas a favor dele, escritas por seus amigos e colegas de trabalho da mesma série, o ator Ashton Kutcher e a atriz Mila Kunis. Estas cartas são procedimentos utilizados em alguns processos criminais na tentativa de fazer o juiz amenizar o tempo de prisão ou o tipo de condenação.


Mais de cinquenta cartas foram enviadas nesse caso, porém, as escritas pelo casal de atores foram as que mais repercutiram. Em um dos trechos, Kutcher diz:


"Embora eu esteja ciente de que o julgamento foi considerado culpado em duas acusações de estupro e as vítimas têm um grande desejo por justiça, espero que meu testemunho sobre seu caráter seja levado em consideração na sentença.”


“Não acredito que ele seja um dano contínuo à sociedade e ter sua filha criada sem um pai presente seria uma injustiça por si só. Obrigado por separar um tempo para ler isso."


Na carta da Mila, ela escreve:


"Atesto de todo o coração o caráter excepcional de Danny Masterson e a tremenda influência positiva que ele teve sobre mim e sobre as pessoas ao seu redor. Sua dedicação em levar uma vida livre de drogas e o cuidado genuíno que ele dedica aos outros fazem dele um excelente modelo e amigo."


Perceba que o casal de atores está ciente que seu amigo foi condenado, ou seja, que foi atestado o crime cometido. Segundo descrição das vítimas, elas o conheceram dentro da Igreja de Cientologia (que quando soube do caso, pediu que elas não acionassem a polícia) e, para cometer o crime, Masterson dopava as mulheres e as estuprava (uma delas chegou a comentar que ele enfiou um travesseiro em seu rosto enquanto praticava o ato…). Apesar dele ter sido condenado por essas duas mulheres, uma terceira também fez parte do processo, sua ex-namorada, que não teve seu caso considerado um crime por estar com ele na época que o estupro aconteceu (um completo absurdo!).


Minha cabeça guardou as palavras desta carta. Passei dias dedicada a pensar como o casal de atores aceitou fazer algo para minimizar a condenação comprovada de dois crimes tão cruéis e ainda fizeram questão de descrever no material como o caráter do amigo era idôneo ao ponto deles confiarem suas vidas e de suas filhas a ele e o quão importante era que o pai não fosse separado da filha por tantos anos. Que amor fraternal é esse que os inspiraram a colocar tanta fé em uma pessoa que teve seu ato ilícito devidamente comprovado?


A resposta a qual cheguei é a que apontei no início do texto. Eles não conseguem relacionar o amigo à figura do estuprador. Para eles, ao longo de mais de vinte anos de amizade, seria possível perceber algum sinal nele de morbidez, loucura, crueldade e vários outros “sintomas” relacionados a alguém que planeja e executa um crime como um estupro contra mulheres drogadas e indefesas. Se nada disso se mostrou na convivência tão íntima com esse colega e, pelo contrário, ele sempre foi bondoso, solícito, companheiro e eticamente correto, parece impossível considerar que ele seja o criminoso descrito pelas vítimas. Ou seja, a justiça não foi correta com ele pois, não levou em conta esse parâmetros de integridade moral que ele apresentou na convivência em sociedade.


Eis o erro! O estupro não é uma prática exclusiva de serial killers, psicopatas, pessoas mórbidas ou intelectualmente incapacitadas. Somente no Brasil, em 2022, foram registrados quase 75 mil casos de estupros, o maior número da história (61,4% das vítimas tinham no máximo 13 anos de idade), segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023. O índice é de registros, imagine aqueles que não foram registrados! Muitas mulheres vítimas se sentem constrangidas de denunciar o crime e ainda há aquelas que sofrem o estupro marital, o qual acontece no casamento pela violência do marido em obrigar a esposa ao intercurso sexual, mesmo que ela não queira.


Diante desses números, podemos enumerar que todos eles eram psicopatas? Loucos? Descontrolados? Estupradores são pessoas comuns, pois a prática é perpetuada pela lógica de poder sobre os corpos. Estuprar é uma cultura entranhada nas relações sociais e que se apresenta sutilmente em vários campos até se concretizar como um crime. Lembremos dos estudantes de medicina que, em resposta a uma provocação da torcida rival, exibiram seus falos em um jogo de vôlei e performaram um “punhetaço” sem qualquer pudor e ainda alegaram que o feito não teria tamanha gravidade. Esses homens ficariam nus aleatoriamente? Provavelmente, não. A segurança interna para eles fazerem essa exibição sexual se alicerça no senso de proteção que a cultura machista oferece aos homens - especialmente em bandos…


Outro pormenor precisa ficar claro: estupro não é sobre sexo! Como o ato envolve a participação das partes íntimas de duas a mais pessoas, se prescreve que tenha alguma relação com o ato sexual. Porém, se um assassino lança uma faca na genitália de alguém, você veria isso como sexo? Automaticamente a situação é lida como violência. Um pênis, um dedo, ou qualquer outro objeto inserido a uma vagina de uma pessoa que não consentiu o ato é uma invasão àquele corpo e, logo, uma violência. O estuprador não possui uma grande excitação que o faz ultrapassar os limites do respeito à vontade alheia. É uma relação de poder que pode ser imposta um segundo após um beijo consentido.


Para se ter uma ideia, a castração química, que é usada em alguns países para “controlar” estupradores de repetirem o crime, não possui consenso dos especialistas ou evidências concretas sobre sua eficiência. As drogas hormonais inseridas no corpo do criminoso podem causar dificuldades para que haja e sejam mantidas as ereções e reduzem o estímulo interno relacionado a fantasias sexuais, porém: "com base em provas científicas, a castração química não garante a perda ou a redução do desejo e potencial comportamento sexual violento".


Enfim, fecho esse assunto me dirigindo diretamente ao Ashton Kutcher e a Mila Kunis para argumentar que ser um estuprador não é sobre boas ou más qualidades, ter ou não valores. O amigo de anos que sempre se mostrou bondoso, leal e responsável possui um entranhamento cultural que dita que ele pode deter poder sobre os corpos femininos. Todo homem tem isso e, cabe ao tal, dar ou não abertura para essa cultura abjeta nas suas interações, amparado no puro privilégio de se sentir protegido pelos seus.



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