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O MITO DA MULHER SELVAGEM





O livro Mulheres que correm com os Lobos, da autora Clarissa Pinkola Estés, inicia, com um viés junguiano, uma reflexão acerca da mulher selvagem. Para isso, a autora já nos provoca com uma pergunta: o que acontece com a gente quando a vida “funciona”, mas por dentro algo morre? A proposta não é romantizar a dor, e sim olhar para ela como um sinal de que a natureza instintiva (criativa, intuitiva e viva) foi sendo empurrada para lugares escondidos da psique ao longo do tempo. A autora descreve como essa dimensão selvagem foi “saqueada”, reprimida e adaptada à força a ritmos artificiais e expectativas externas.

 

Já na introdução, ela aproxima a imagem da mulher da imagem do lobo, fazendo-nos perceber que ambos carregam uma reputação distorcida: vistos como “perigosos” ou “excessivos”, quando, na verdade, simbolizam percepção aguçada, resistência, intuição, coragem e vínculo. Essa comparação funciona como um espelho: talvez o problema não seja ser “demais”; talvez seja o mundo ter nos treinado para sermos “de menos”.

 

É aí que Clarissa apresenta o mito de La Loba, figura mítica que surge como um portal para compreender o processo de retorno a si. No livro, La Loba está ligada a um território “entre mundos”, um lugar simbólico onde algo antigo e essencial pode ser reencontrado. O gesto central dessa narrativa (na tradição que o livro mobiliza) é o de recolher ossos: juntar o que ficou quebrado, esquecido e espalhado. Ossos são memória dura aquilo que sobra quando a fantasia cai. E, paradoxalmente, é com essa matéria “seca” que se recomeça.

 

O ponto mais bonito do tema é perceber que recuperar a natureza instintiva não é virar outra pessoa; é voltar a caber em si. Não é performance de autocuidado. É um trabalho interno de escavação: reconhecer o que adoece, o que anestesia e o que faz negociar a própria verdade para ser aceita. A introdução sugere que histórias, mitos e contos não servem como enfeite; eles funcionam como mapas, pois mostram trilhas para retomar o “Self instintivo inato” a parte que sabe, antes mesmo de explicar.

 

No fim, a mensagem que fica é bem realista, apesar da linguagem simbólica. Quando alguém se sente desconectado, sem energia, sem voz e sem desejo, talvez não seja falta de força; pode ser falta de alma na própria rotina. E o retorno começa pequeno: reconhecer os próprios sinais, dar nome ao que foi silenciado e recolher um osso por vez um limite, uma verdade, um desejo, uma escolha.

 

Esse é o tipo de conteúdo que não promete “virar a chave” em cinco passos. Ele convida a algo mais raro: ficar do seu lado enquanto você se torna inteira. Vale a pena a leitura.


FONTE:


ESTÉS, Clarissa Pinkola. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Rio de Janeiro: Rocco, 2018

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Priscilla
há 2 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Já tive várias oportunidades para ler e não aproveitei, depois do seu texto me senti mais impelida. Muito bom seu texto.

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