O NEOBOLSONARISMO

O neobolsonarismo é um projeto de poder centrado no ecossistema da família Bolsonaro, com o objetivo de se perpetuar no Estado brasileiro e alterar o status quo do quadro político e institucional. Ele difere do bolsonarismo tradicional por ter mais capilaridade, ser mais orgânico e prescindir da atuação direta de Bolsonaro pai. Ganhou força considerável nas eleições de 2026 e pode ainda alcançar o Executivo Federal, contando com o apoio de uma parcela significativa da população brasileira. Essa parcela, que não pode ser vista como homogênea, mas que compartilha certas ideias e valores, considera que a política está apodrecida, que o “sistema” está corrompido e que, portanto, a saída é o "novo".
O neobolsonarismo também possui uma dimensão identitária. Ancora-se na dogmática cristã, sobretudo na ala evangélica conservadora, e defende valores tradicionais, como família, pátria, liberdade e meritocracia divina. Investe, ainda, em uma batalha espiritual e na não separação entre política e religião. Além disso, há uma idolatria que remete a Jair Messias Bolsonaro.
Como parte da população enxerga tudo isso? Como uma luz no horizonte ante as descrenças da vida individual e social. O neobolsonarismo e as demais as lideranças de direita na América Latina aproveitam-se das fragildades do capitalismo no Sul Global, exemplicadas pela violência das facções (atuando como um Estado paralelo), a extrema concentração de renda, a elevada tributação e a realidade crônica do subdesenvolvimento.
Quem vota na família Bolsonaro e aliados políticos é bolsonarista? Não. A realidade é mais complexa: há eleitores motivados por interesses pessoais, outros que não enxergam alternativas políticas viáveis, alguns que se apoiam no antipetismo ou antilulismo, e outros que votam por motivos pouco consistentes.
O neobolsonarismo é visto por seus adeptos mais fervorosos como a única e verdadeira direita no Brasil. Foi capaz de controlar e mobilizar o Partido Liberal como nenhum outro partido conseguira antes, angariando a maior bancada no Senado — 28 cadeiras a partir de 2027, desde a promulgação da Constituição de 1988. E mais, elegeu cinco governadores no primeiro turno, com chances de eleger mais dois. Além de estarem infiltrados em partidos de direita e centro direita.
A direita hoje é dominada pelo neobolsonarismo. Não há mais uma direita liberal ou fisiológica capaz de fazer frente ao poderio ideológico em torno da máquina bolsonarista. A direita democrática, mais “civilizada”, sempre esteve atravessada pelo fisiologismo e nunca conseguiu construir uma identidade sólida no Brasil, mantendo-se excessivamente atrelada ao centrão. Por isso, é muito difícil conquistar almas e corações sem uma ideologia, e esta, sim, é capaz de afetar os anseios do povo.
Em relação à esquerda, faltam atitudes mais radicais, ação e discurso, e um descolamento dos políticos mais tradicionais e fisiológicos. Ao compactuar com as velhas elites políticas e econômicas, ela abandonou qualquer projeto de grandes transformações sociais.
A social-democracia avançou em pontos importantes, sobretudo nos direitos sociais, como a redução da pobreza e promoção da inclusão. Porém, isso não foi suficiente para construir uma identidade ideológica consistente. Promoveu a ascensão social por meio do consumo dentro do capitalismo, mas isso não formou uma identidade política sustentável.
A realidade dos últimos anos tem mostrado, aqui e acolá, que, mesmo quando a economia apresenta saldo positivo — como crescimento do PIB e queda no desemprego -, ela não é capaz, por si só, por convencer a população de que tudo está caminhando bem. Por isso, um projeto de poder transformador requer uma hegemonia política, cultural e ideológica, mas também um projeto de antissistema capaz de promover transformação das condições materiais.
O neobolsonarismo teve uma ascensão notável, construída, em parte, pelo uso estratégico do ambiente digital. Esse trabalho orgânico vem sendo desenvolvido há anos no Brasil. Como disse a jovem deputada federal eleita pelo PT de Minas Gerais, Ana Elisa: “Quem está nas ruas está nas redes. E muitas vezes, quem está nas redes não está nas ruas” .[1] Ou seja, dividir o mundo digitais da vida offline é um erro que a esquerda ainda não conseguiu superar. O quadro do maior partido de esquerda do Brasil permanece, em grande parte, analógico, enquanto o neobolsonarismo e seu projeto de desestabilização do Estado de Direito continuam a dominar as redes sociais.
Assim como o bolsonarismo tradicional, o neobolsonarismo ascendeu por meio das brechas da democracia liberal. Ela permite que candidatos usem artifícios falaciosos, negacionismo científico e histórico, discursos extremistas contra minorias e contra o establishment para angariar apoio político e ideológico. A pauta antissistema, para um mundo em que você está profundamente incomodado, é uma luz no fim do túnel para aqueles que acreditam em utopias. E toda utopia tem a capacidade de mobilizar sentimentos intensos.
Contudo, chegar no governo com ideias revolucionárias ou mirabolantes não é o mesmo que implementá-las na prática. A realidade tende a se impor. E ela costuma ser dura.
Leitores(as) o que vocês acham? É possível uma virada de chave contra o neobolsonarismo no poder? Veio para ficar ou é apenas uma onda? Opinem por aqui.
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Imagem: Uso de Germini


É possível uma virada de chave com a participação dos jovens. A Educação. Atreves dela, com conhecimentos, podemos sim mudar esse quadro triste.