O PAÍS DOS MINEIRINHOS ATACA NOVAMENTE – O QUE A MORTE DE THAWANNA SALMÁZIO REVELA SOBRE NÓS, ENQUANTO SOCIEDADE
- Miguel Pereira Filho

- 12 de abr.
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Há duas semanas, mais precisamente no dia 03 de abril de 2026, Thawanna da Silva Salmázio foi assassinada pela soldado da polícia militar de São Paulo, Yasmin Cursino Ferreira. A sua morte não se deveu por confronto armado, auto de resistência, ou mesmo perseguição de suspeitos, mas uma discussão que se iniciou, porque o retrovisor da viatura em que a soldado e seu companheiro de patrulha, Weden Silva, estavam, bateu no braço de Luciano Gonçalves dos Santos, namorado de Thawanna, que presenciara minutos antes a soldado atingir com um chute a genitália de sua namorada.[1]
Para além do motivo absurdo, enredo que parece ter saído de uma obra escrita por Albert Camus, a tragédia ocorrida naquela madrugada no bairro de Cidade Tiradentes, zona leste de São Paulo, está longe de ser uma mera fatalidade decorrente de uma policial há apenas três meses de serviço, que sequer possuía câmera corporal. Seria até mais fácil inserir tal evento no discurso burocrático acerca das consequências imprevistas do despreparo de uma pm recém-formada e sem experiência de rua. Quando visto sob uma perspectiva mais abrangente, ainda quando consideramos os casos de letalidade policial, a morte de Thawanna deixa de ser a exceção, mas o sintoma de uma perversão do conceito de segurança pública e reiteração da ruptura do pacto civilizatório a que todos nós, pertencentes ao Ocidente, estamos vinculados, ainda que sejamos um “outro” Ocidente, como bem assinalou José Guilherme Merquior.
Aliás, antes de prosseguir, fica uma pergunta: se fosse um policial do sexo masculino no lugar da pm Yasmin que tivesse chutado as partes íntimas de uma mulher e depois de ter atirado nela, como esse caso seria lido? Não pretendo — de modo algum — me juntar aos que utilizam de casos pontuais para deslegitimar uma luta absolutamente justa pelo fim da violência contra a mulher.
Minha indagação decorre da necessidade de que entendamos como o aparelho do poder coercitivo do Estado anula a identidade do indivíduo em favor de uma performance de força. Ao chutar a genitália de outra mulher, simbolicamente, a soldado Yasmin não atua como sujeito dotado de gênero, mas como braço de um dispositivo que exige a reafirmação constante da virilidade institucional, traço absolutamente marcante de nossa sociedade de características patriarcais. Ou seja, nesse caso, não importa quem está o com o dedo no gatilho, o fardamento opera uma transubstanciação: a mulher Yasmin é dissolvida na figura da soldado, evidenciando que a violência em nossa sociedade, incluindo a policial, é uma patologia estrutural que coopta corpos e organiza discursos, independentemente de quem os habita ou emite.
A abordagem ao casal — fora de qualquer parâmetro operacional — e a consequente morte de Thawanna são derivativos da maneira como indivíduos pretos de tão pobres e pobres de tão pretos são sistematicamente tratados nesse país. Nesse caso, pouco importa o gênero ou cor de quem morreu ou quem matou, a lógica é a mesma que fez com que 80 tiros fossem disparados contra o músico Evaldo Rosa, em 2019, ou mesmo a médica Andrea Marins Dias, de 61 anos. No país dos Mineirinhos , ninguém está imune.[2]
Como muito bem explicou José Murilo de Carvalho no seu clássico Cidadania no Brasil: o longo caminho, o processo de construção da cidadania nesse país possui a falha atávica de manter os direitos civis em permanente estado de incompletude, alienado de seu real significado. E, a despeito do arcabouço constitucional da Carta de 88, os “de baixo” continuam, no dia-a-dia, tendo a sua cidadania posta em xeque, quando agentes do Estado, sob o paradigma weberiano do exercício legitimo da força, transbordam de suas ações basilares. O monopólio da violência, prerrogativa do Estado, perde sua efetividade simbólica ao se deslegitimar diante do texto constitucional, a partir de cada caso de violência cometido.
Números ajudam a dar concretude ao meu argumento. Em 2024, as mortes provocadas por policiais, considerando apenas o estado de São Paulo, representaram 22% do total de mortes violentas no estado de São Paulo — um aumento de 91% em relação a 2022. Quando consideramos apenas a pm paulista, ela sozinha foi responsável por 760 mortes no mesmo ano, alta de 65,2% em relação ao ano anterior.[3] Não obstante, enquanto São Paulo registrou esse crescimento acelerado nesse tipo de ocorrência, o país registrou queda de 4% nos casos de letalidade policial no mesmo período.[4] E, como não poderia deixar de ser, essa sanha de violência tem um progenitor.
Em 2024, após denúncia à Organização das Nações Unidas (ONU) contra a Operação Verão — que resultou em 56 mortes —, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse que “nós temos muita tranquilidade com o que está sendo feito. E aí o pessoal pode ir na ONU, pode ir na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí”.[5] Cinco dias depois, a PM ainda mataria mais quatorze pessoas.
E antes que as bandeiras vermelhas sejam desfraldas para tremular em superioridade moral pelos progressistas, que ninguém se esqueça do que é a PM da Bahia e Ceará. Em fevereiro de 2015, após 12 pessoas mortas pela polícia no Cabula, em Salvador, o então governador Rui Costa comparou policiais com “artilheiro em frente ao gol”.⁵ A perícia dos corpos demonstrou a frieza dos atacantes diante do “goal” e a posterior absolvição dos envolvidos é bem elucidativa sobre as regras do campeonato da morte que a Bahia vem jogando a décadas.[6] Nesse sentido, a morte de Thawanna está circunscrita a um fenômeno datado e conectado a escolhas políticas concretas.
Casos como os de Thawanna revelam de maneira assustadora aquilo que o filósofo camaronês Achille Mbembe conceituou de necropolítica, soberania que se exerce pela definição de quais populações podem ser expostas à morte, sem que isso constitua um escândalo político.
Nesse sentido, embora conceito mbembeano tenha sido urdido para descrever contextos coloniais e pós-coloniais, nosso passado escravista permite que esse conceito se estenda às periferias das grandes metrópoles brasileiras: zonas em que a gestão do risco de morte funciona como instrumento de governo, e em que a vida de determinados sujeitos é, estruturalmente, mais exposta à exceção. Ou seja, o CEP importa. Thawanna era moradora de Cidade Tiradentes, zona leste, periferia da mais rica cidade da América latina. o retrovisor de uma viatura jamais bateria no braço de um morador do Morumbi, muito menos alguém que vivesse em Itaim Bibi ouviria da polícia algo como “a rua é lugar para você estar andando, caralho?”. Aparentemente, só em bairros nobres as pessoas têm direito ao espaço público.
A normalidade de mortes assim pode ser exemplificada pela hierarquia de prioridades que organiza o debate público. Enquanto o Estado brasileiro assiste à execução de Thawannas e Evaldos, o esforço legislativo se volta, com agilidade cosmopolita, para temas que, embora pertinentes — como o Projeto de Lei 1424/2026 apresentado pela deputada federal por São Paulo, Tábata Amaral, sobre o antissemitismo —, parecem ocupar um lugar de privilégio na ‘gramática da dor’ nacional. O problema não reside na pauta em si, mas na assimetria: a mesma elite política que se mobiliza contra preconceitos históricos distantes silencia diante da ‘limpeza’ cotidiana em Cidade Tiradentes. Esse silêncio não é omissão; é o endosso tácito de que certas vidas são ‘choráveis’ e outras são meros resíduos estatísticos.”
Combater o preconceito aos judeus é uma pauta pertinente, sem sombra de dúvidas. O morticínio causado pelo governo Netanyahu, que por sinal já comentei alhures, tem sido usado como túnel por onde o antissemitismo tem escoado arreganhadamente. Com efeito, o cosmopolitismo da indefectível parlamentar parece ser a sua nêmesis e questões comezinhas, como a explosão da violência, seja no país, seja em seu próprio estado de origem, parece ser algo de pequena monta, algo absolutamente irrelevante,visto que não houve sequer uma manifestação em rede social. Com efeito, talvez seja eu que esteja exigindo demais, ao querer que a gramática da segurança pública se torne algo inescapável no debate público. Não se trata de equiparar violências, mas se trata de deixar claro aquilo que é prioridade para o país.
Por fim, há outro aspecto da morte de Thawanna que chama atenção. Ao registrar a ocorrência, a pm Yasmin e seu companheiro de patrulha, Weden Silva, o fizeram como morte decorrente de resistência. Com efeito, momentos antes, ao ouvir o disparo, Weden questiona a colega dos motivos para ela ter atirado.[7] A surpresa do soldado é confissão silenciosa de uma verdade insofismável: nem mesmo para ele, o tiro em Thawanna não era autoevidente. E ainda assim, o registro foi feito como “resistência”.
Registrar o brutal assassinato de Thawanna como auto de resistência se inscreve na gramática política de diversas operações policiais, em que a violência simbólica se recodifica a partir da linguagem, travestindo-se de ato previsto nos protocolos administrativos e operacionais, realizando a captura da vítima pela categoria de agressor. Sem direito a comemorar seu aniversário que seria no dia oito do mesmo mês, Thawanna foi morta duplamente: fisicamente, na Rua Edimundo Audran e outra, moralmente, pelo boletim registrado.
A teoria jusnaturalista, pacto político firmado no Ocidente, cuja gênese simbólica remonta a Thomas Hobbes, pressupõe que ninguém deva ser morto pelo poder público sem que isso exija justificação explícita e responsabilização efetiva. O próprio amadurecimento do sistema judicial tornou possível que a figura absolutista do monarca, que tudo podia, desse lugar à figura do juiz como representante do devido processo legal.
Contudo, se é verdadeiro o vaticínio de Werneck Vianna de que o Brasil não marcha em linha reta, mas por elipses e zigue-zagues, a tragédia de Thawanna é o ponto onde a curva da nossa história retorna ao seu marco mais arcaico: a violência que circunda nossa existência civilizacional, atemporalizada pelos tribunais de rua que acusam, julgam e matam. Nesses zigue-zagues, a modernidade das câmeras corporais, como a que só o policial Weden carregava, convive com a barbárie do ‘auto de resistência fabricado’. Enquanto o debate público ignorar que a cidadania está sendo corroída, continuaremos presos a essa elipse trágica, onde o Estado só se faz presente para certificar que, na periferia, a vida continua sendo um bem jurídico de segunda classe, vitimando inúmeras Thawannas e Andreas, além de incontáveis Evaldos.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CAMARGO, Bianca. “Pode ir na ONU, pode ir na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí”, diz Tarcísio sobre denúncias contra ações no litoral. CNN Brasil, São Paulo, 8 mar. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/pode-ir-na-onu-pode-ir-na-liga-da-justica-no-raio-que-o-parta-que-eu-nao-to-nem-ai-diz-tarcisio-sobre-denuncias-contra-acoes-no-litoral/. Acesso em: 12 abr. 2026.
CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001.
CNN BRASIL. Mapa da Violência: mortes por letalidade policial crescem 61% em SP. CNN Brasil, São Paulo, 11 jun. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/mapa-da-violencia-mortes-por-letalidade-policial-crescem-61-em-sp/. Acesso em: 12 abr. 2026.
CNN BRASIL. São Paulo registra 760 mortes por policiais militares em 2024, aponta MP. CNN Brasil, São Paulo, 11 jan. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/sao-paulo-registra-760-mortes-por-policiais-militares-em-2024-aponta-mp/. Acesso em: 12 abr. 2026.
G1. Câmera corporal mostra que mulher morta por PM caminhava quando soldado deu ré e disse “rua é lugar para você estar andando?”. G1, São Paulo, 9 abr. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/04/09/camera-corporal-mostra-que-mulher-morta-por-pm-caminhava-quando-soldado-deu-re-e-disse-rua-e-lugar-para-voce-estar-andando.ghtml. Acesso em: 12 abr. 2026.
G1 BAHIA. Policiais envolvidos em ação com 12 mortes no Cabula são absolvidos. G1, Bahia, 25 jul. 2015. Disponível em: https://g1.globo.com/bahia/noticia/2015/07/policiais-envolvidos-em-acao-com-12-mortes-no-cabula-sao-absolvidos.html. Acesso em: 12 abr. 2026.
MBEMBE, Achille. Necropolítica. Tradução de Renata Santini. São Paulo: n-1 edições, 2018.
NÚCLEO DE ESTUDOS DA VIOLÊNCIA — NEV/USP. Mortes decorrentes de intervenção policial crescem 60% em São Paulo. São Paulo: NEV-USP, 2025. Disponível em: https://nev.prp.usp.br/noticias/mortes-decorrentes-de-intervencao-policial-crescem-60-em-sao-paulo/. Acesso em: 12 abr. 2026.
WEBER, Max. Ensaios de sociologia. Organização e introdução de H. H. Gerth e C. Wright Mills. 5. ed. Rio de Janeiro: LTC, 1982.
Fonte da imagem: REVISTA FÓRUM. PM mata mulher e não presta socorro em São Paulo; caso revolta moradores. Disponível em: https://revistaforum.com.br/noticias/thawanna-pm-mata-nao-socorre/. Acesso em: 12 abr. 2026.
[1] As imagens da câmera corporal do soldado Weden Silva Soares mostram o início da abordagem, com o retrovisor atingindo o braço de Luciano e o subsequente confronto verbal. O relato do chute nas partes íntimas de Thawanna é de testemunha ocular ouvida pela imprensa, não captado diretamente pelas câmeras. G1. Câmera corporal mostra que mulher morta por PM caminhava quando soldado deu ré e disse “rua é lugar para você estar andando?”. G1, São Paulo, 9 abr. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/04/09/camera-corporal-mostra-que-mulher-morta-por-pm-caminhava-quando-soldado-deu-re-e-disse-rua-e-lugar-para-voce-estar-andando.ghtml. Acesso em: 12 abr. 2026.
[2] O termo "mineirinho" faz referência ao emblemático conto Mineirinho, de Clarice Lispector, publicado originalmente em 1962. Na obra, a autora medita sobre a execução de um criminoso homónimo pela polícia, utilizando o episódio para questionar a eficácia da justiça institucional e a nossa própria "humanidade" diante da violência de Estado. Lispector argumenta que a morte de Mineirinho denuncia uma falha no pacto social, onde a segurança é comprada ao custo da aniquilação do outro. Para uma análise aprofundada sobre a persistência desta lógica na contemporaneidade e o conceito de "país dos mineirinhos", consulte: https://www.soteroprosa.com/single-post/2019/04/15/o-pa%C3%ADs-dos-mineirinhos.
[3] CNN BRASIL. São Paulo registra 760 mortes por policiais militares em 2024, aponta MP. CNN Brasil, São Paulo, 11 jan. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/sao-paulo-registra-760-mortes-por-policiais-militares-em-2024-aponta-mp/. Acesso em: 12 abr. 2026.; NÚCLEO DE ESTUDOS DA VIOLÊNCIA — NEV/USP. Mortes decorrentes de intervenção policial crescem 60% em São Paulo. São Paulo: NEV-USP, 2025. Disponível em: https://nev.prp.usp.br/noticias/mortes-decorrentes-de-intervencao-policial-crescem-60-em-sao-paulo/. Acesso em: 12 abr. 2026.
[4]CNN BRASIL. Mapa da Violência: mortes por letalidade policial crescem 61% em SP. CNN Brasil, São Paulo, 11 jun. 2025. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/mapa-da-violencia-mortes-por-letalidade-policial-crescem-61-em-sp/. Acesso em: 12 abr. 2026.
[5] CAMARGO, Bianca. “Pode ir na ONU, pode ir na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí”, diz Tarcísio sobre denúncias contra ações no litoral. CNN Brasil, São Paulo, 8 mar. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/pode-ir-na-onu-pode-ir-na-liga-da-justica-no-raio-que-o-parta-que-eu-nao-to-nem-ai-diz-tarcisio-sobre-denuncias-contra-acoes-no-litoral/. Acesso em: 12 abr. 2026.
[6] G1 BAHIA. Policiais envolvidos em ação com 12 mortes no Cabula são absolvidos. G1, Bahia, 25 jul. 2015. Disponível em: https://g1.globo.com/bahia/noticia/2015/07/policiais-envolvidos-em-acao-com-12-mortes-no-cabula-sao-absolvidos.html. Acesso em: 12 abr. 2026.
[7] G1. Câmera corporal mostra que mulher morta por PM caminhava quando soldado deu ré e disse “rua é lugar para você estar andando?”. G1, São Paulo, 9 abr. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/04/09/camera-corporal-mostra-que-mulher-morta-por-pm-caminhava-quando-soldado-deu-re-e-disse-rua-e-lugar-para-voce-estar-andando.ghtml. Acesso em: 12 abr. 2026.

Não coloco a culpa totalmente na policial,mas no modus operandi da PM,no treinamento,no trato histórico com genteda periferia,e principalmente no modo como a população deseja que a polícia seja:truculentatruculenta,repressiva,uma máquina de matar,letal, agressiva,e destemida. Muito policial come essa pilha.