O PÊNDULO PARA A EXTREMA DIREITA

O resultado do primeiro turno apontou o caminho no qual os brasileiros estão apostando. Esse caminho leva diretamente à direita iliberal e nos seus valores extremos. Mas, para o eleitor, a divisão entre direita liberal e iliberal é irrelevante — e isso é preocupante. Na prática, a direita liberal desapareceu no debate programático, enquanto a esquerda encolheu, perdida em pautas que não alcançam o cotidiano das pessoas por exigirem um alto grau de racionalidade. Nesse cenário, a própria democracia liberal começa a transforma-se.
Vamos aos fatos. No Senado, o PL, partido mais identificado com a visão de mundo da extrema direita e sem coligar para formar uma federação, ocupa agora 28 cadeiras, seguido por PT e MDB, com 9. No caso dos deputados federais, 121 cadeiras são ocupadas pelo PL, seguido pela federação do PCdoB, PT e PV, com 88 cadeiras, e pela Federação União Progressista (PP e União Brasil), com 87. Essa composição é amplamente favorável ao PL, na pauta de impeachment de ministro do STF (o que seria inédito na história do país), na escolha dos novos ministros, nas presidências do Senado e da Câmara e em projetos de lei, além das presidências de várias comissões e relatorias.
Os dados mostram como o Partido Liberal avançou enormemente na política brasileira. Na campanha, a agenda anti- Supremo e a da segurança pública foram as que mais sustentaram as narrativas - vide Sérgio Moro, Deltan Dallagnol, Guilherme Derrite e companhia, para diferentes cargos. Em relação ao Fundo Eleitoral, a legenda recebeu R$ 888 milhões, valor aproximadamente 43% maior do que o do segundo colocado, o PT, com R$ 615 milhões. A variável "gasto de campanha" deve ser estudada com mais afinco.
Outro dado que é importante situar aqui é o antipetismo, atrelado à figura de Lula da Silva. O Datafolha, pouco antes das eleições, apontou 45% de rejeição ao atual presidente.[1] Isso pode indicar a escolha por candidatos que estão "do outro lado do rio". Parte da nova classe trabalhadora, consideráveis extratos da classe média e a elite econômica estão incluidos nesse grupo.
Mas não é só isso. Essa nova direita — talvez nem tão nova assim — tem um discurso mais virulento, discurso esse que atinge mais o âmbito emocional. E apostou no pânico moral, no abuso de impostos do Estado, na descrença e suspeição em relação às instituições: universidade, escola, ciência, Judiciário, “política tradicional”. Isso também se manifesta na perseguição a uma cultura política de esquerda, associada a pautas progressistas e à defesa dos direitos humanos. As campanhas de jovens candidatos(as) focaram no antissistema. Nomes como Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Carol de Toni, Michelle Bolsonaro e Eduarda Campopiano (segunda deputada estadual mais votada da história de São Paulo[2]) expressaram esse sentimento de revolta contra o establishment.
Ao fim e ao cabo, os apelos de campanha deram maior ênfase aos valores tradicionais da família, à vontade do povo por mudança, à ideia de novo – seja lá que isso signifique - e à fé cristã. Expressaram também um desencantamento com as instituições liberais e com o racionalismo científico e filosófico, além de uma defesa de crenças e valores ultraconservadores e religiosos. O movimento ganhou muita força nos últimos anos com as redes sociais, com bolhas digitais que promovem machismo (red pill,incels) antifeminismo, racismo (inclusive flertando com ideias neonazistas), lgbtfobia. Há uma onda reacionária, que tem uma agenda que oscila entre conservadorismo e ultraliberalismo, que não está restrita ao Brasil, mas se manifesta também em vários lugares do mundo.
Em relação à disputa entre Flávio e Lula, chama a atenção o peso do sobrenome Bolsonaro. Mesmo com o trágico governo de seu pai, Flávio conseguiu encampar as pautas antissistema e extremistas, um caldo importante da sociedade brasileira. Minha intuição é a de que Lula e sua campanha deveriam ter dominado mais as redes sociais. Devem considerar como uma trincheira importante. Uma segunda intuição é a de que faltou mais embate político contra seu adversário, entrando na pauta moral e focando menos no próprio passado, o que não acolhe tanto assim os jovens.
A democracia hoje parece pender, cada vez mais, para a direta, que têm demostrado maior capacidade de mobilizar emoções e sentimentos no campo político, o que converge com a necessidade de uma nova agenda de pesquisa nas ciências sociais: a neuropolítica. Logo, parece improdutivo recorrer a termos como “pobres de direita”, “evangélicos ignorantes” ou “preto não vota na direita”, para compreender as escolhas e comportamentos desses grupos.
Por fim, em relação à campanha para a presidência, se Lula ainda quer ter alguma chance de vencer esta eleição, terá que mudar radicalmente o seu discurso. E mudança significa investir no apelo emocional e ideológico, com promessas radicais e embate moral, penetrando diferentes bolhas, em torno do passado de Flávio e sua família, com foco nos indecisos e nos absentencionistas (33 milhões de brasileiros não votaram).
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[1] [1] https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/datafolha-flavio-e-lula-seguem-sendo-os-mais-rejeitados-com-45-cada.shtml
[2] https://www.estadao.com.br/politica/eleicoes/aos-23-anos-eduarda-campopiano-e-2-deputada-estadual-mais-votada-da-historia-de-sp/


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