O QUE A MARÉ ME ENSINOU SOBRE ESPERAR
- Autor(a) Convidado

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Atualizado: há 2 dias

*Helenalva Maria de Souza
Cresci aprendendo a imaginar o mar não apenas como paisagem, mas como uma espécie de linguagem. Em lugares onde o tempo não se mede apenas em horas, mas em movimentos de ida e volta, a gente aprende cedo que esperar não é ausência de ação: é leitura do mundo. É estratégia. É sobrevivência é viver como a maré que nunca se apressa e, ainda assim, nunca falha; sempre volta.
Quem não nasce rico, não tem o luxo da pressa. A vida impõe um ritmo próprio, muitas vezes mais lento do que o desejado e infinitamente mais duro do que o justo. Enquanto alguns correm em linhas retas, outros aprendem a caminhar em terrenos instáveis, desviando de pedras que não escolheram. E há uma consciência que chega cedo, antes mesmo de qualquer teoria: é preciso fazer mais. Mais esforço, mais tentativa, mais resistência. Nem todos partem do mesmo lugar. E isso não é apenas uma percepção — é uma estrutura. Como nos ajuda a compreender Bourdieu; Passeron (2014) as desigualdades, hoje sei, se reproduzem silenciosamente com a internalização das estruturas sociais, nos hábitos, nos gostos e nas expectativas de futuro que se tem; que se acha possível conseguir; difícil, mas não impossível pois, se alguns herdam caminhos prontos, outros os abrem com as próprias mãos e mesmo que isto canse, não é motivo para desistir; quando muito, recuar...
Pois a água viva ainda tá na fonte (tente outra vez)
Você tem dois pés para cruzar a ponte
Nada acabou, não, não, não (Raul Seixas, 1975)
A maré, ensina que recuar não é desistir. Quando as águas baixam, deixam à mostra o que antes estava encoberto: as pedras, os sulcos, os percursos possíveis. Há uma pedagogia no movimento da maré: ela mostra que o tempo da escassez também é tempo de aprendizado. É nesse intervalo que se desenvolvem as táticas de quem não pode contar com estruturas favoráveis.
Michel de Certeau (2014) chamaria isso de artes do cotidiano — essas pequenas invenções silenciosas que permitem viver, apesar das limitações. Improvisos que viram solução. Caminhos que não estavam dados, mas que conseguem ser trilhados, mesmo a duras penas. Estratégias que nascem da necessidade e se transformam em inteligência prática. Esperar, nesse contexto, não é passividade: é cálculo sensível, é atenção ao tempo, é resistência em forma de gesto. A ideia de seguir apesar das incertezas aproxima-se do que expressa Gilberto Gil (1982) ao cantar:
Andar com fé eu vou,
que a fé não costuma faiar (sic)
Certo ou errado até
A fé vai onde quer que eu vá
Oh, a pé ou de avião
Mas há também frases que atravessam a vida de quem nasce à margem...frases aparentemente simples, mas carregadas de destino. “Tudo com tempo, tem tempo”; muitas vezes ouvi dito popular, não para provocar desânimo; mas como estímulo para ter paciência, esperar com sabedoria, confiando que as coisas aconteceriam no tempo certo; afinal tem um trecho bíblico segundo o qual: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3:1). Aquele dito popular pode ser um convite à paciência; mas, também, soa como contenção e neste aspecto pode significar: espere o seu momento, mesmo quando o tempo nunca parece chegar.
Para quem precisa trabalhar cedo, estudar tarde, conciliar sobrevivência com sonho, o tempo não é apenas cronológico; é desigual. Alguns têm tempo para se preparar; outros precisam disputar cada minuto com a urgência da vida; assim o fiz quando tive que escolher entre continuar estudando ou garantir a subsistência. É tudo sempre muito desigual.
E há outra frase, ainda mais dura, dita às vezes em voz baixa, às vezes naturalizada: “Isto não é para todo mundo”. Ela aparecia quando o assunto era universidade...Pós-graduação; como se os níveis mais altos do conhecimento fossem territórios reservados, quase inacessíveis; como se houvesse um limite invisível, e socialmente aceito para até onde certas pessoas podem chegar. Me deparei com a difícil decisão: “você vai ter que escolher, ou trabalha, ou estuda”. Escolhi o trabalho, a subsistência; mas não desisti, apenas adiei um sonho, mas um sonho que transformei mais tarde, em realidade. Muito tarde compreendi que essas frases não são inocentes. Elas carregam a marca de uma história em que o acesso ao conhecimento foi sistematicamente negado a muitos. E é justamente contra essa lógica que a palavra de Paulo Freire (2019, 2021) se levanta: não há educação neutra, mesmo quando silencia, ela defende um lado; um que domestica, outro que liberta; que ajusta consciências ou as desperta para o mundo. Assim sendo, o saber não pode continuar a ser privilégio, como herança restrita a poucos, guardado nos cofres dos pripilégios, mas precisa ser tecido coletivamente, na partilha viva das experiências e das vozes daqueles que lutam e sobretudo para aqueles a quem, historicamente, foi negado não apenas o acesso ao conhecimento, mas o próprio direito de se reconhecerem como sujeitos do saber.
Nessa direção, Saviani (2011) nos lembra que o acesso ao conhecimento científico, filosófico e cultural é condição fundamental para a emancipação humana. Negar esse acesso ou naturalizar sua restrição, é manter estruturas de desigualdade sob a aparência de normalidade. O acesso ao conhecimento, para muitos, nunca foi um direito garantido, foi uma travessia. Estudar exigiu-me mais do que presença: exigiu permanência, insistência, enfrentamento, atravessar distâncias físicas e simbólicas; não aceitar a naturalização da desigualdade e, sobretudo, não acreditar nas frases que tentavam limitar o meu horizonte, lutando constantemente contra essa desigualdade. Ou seja, nada disso aconteceu sem sacrifício.
A resiliência, tão celebrada em discursos fáceis, aqui tem outro nome: necessidade. Não se trata de escolha, mas de difícil decisão... “você vai ter que escolher”. A resiliência está no recomeço, depois da exaustão, na persistência diante da negativa, na coragem de continuar mesmo sem garantias. Está naqueles que aprendem a ler o mundo antes mesmo de ler as palavras, que constroem saberes na experiência, que transformam ausência em criação. E, é nesse movimento que aprender se converte em possibilidade de emancipação (Freire, 2021).
Esperei. E esperar, então, ganhou outro sentido. Não foi imobilidade; foi preparação, escuta; foi saber que há forças que não se controlam, mas há movimentos que se podem compreender. Como a maré, a vida também recua e avança e nem sempre no tempo que desejamos e esperamos..., mas há um saber em permanecer atento, em não desistir no intervalo, em não confundir demora com impossibilidade; isto nunca fez parte do meu imaginário, de minha vida.
A maré sempre volta. E quando voltou, não encontrou a mesma pessoa que ficou. Encontrou alguém atravessado pelo tempo, moldado pelas ausências, fortalecido pelas pequenas conquistas invisíveis, conseguidas com a contribuição de muitas mãos... Mãos e vozes que não me deixaram desistir, que disseram algo que me soou como uma música, “que era mais ou menos assim” (Raul Seixas, 1975)
Veja
Não diga que a canção está perdida
Tenha fé em Deus, tenha fé na vida
Tente outra vez
A maré, quando voltou encontrou alguém que aprendeu que, mesmo quando dizem “tudo com tempo... tem tempo”, é preciso também disputar o próprio tempo. E que, mesmo quando insistem que “isto não é para todo mundo”, há quem transforme essa frase em impulso e não em limite; impulsiona e me faz continuar ouvindo
Tente (tente)
E não diga que a vitória está perdida
Se é de batalhas que se vive a vida
Tente outra vez (Seixas, 1975)
Talvez seja isso que a maré mais ensina: que há dignidade em quem insiste, potência em quem resiste e inteligência em quem aprende a viver com o que falta, sem deixar de buscar o que merece. Porque, no fundo, esperar nunca foi sobre ficar; foi sempre sobre não desistir, mesmo quando tudo parecia ensinar o contrário.
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*Helenalva Maria de Souza (@avlan2018) é Especialista em Metodologia do Ensino Superior, graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado da Bahia onde atua como Professora Auxiliar. Atuou como Diretora de Departamento, Coordenadora do Colegiado de Pedagogia da UNEB - Campus XV - Valença; Coordenadora Local do Curso de Pedagogia da Plataforma Freire; Professora Formadora dos Programas Especiais da UNEB-BA. Têm experiência na área de formação de professores, especialmente nas disciplinas de formação pedagógica e de preparo à pesquisa. Atualmente Coordena o Núcleo de Pesquisa e extensão do Campus XV; Atua no grupo de pesquisa GPEARA. Mestranda do Programa de Pós Graduação em Estudos Africanos e Representações da África- PPGEARA / UNEB.
Referências Bibliográficas:
BOURDIEU, Pierre; PASSERON, Jean-Claude. A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino. 7. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer. 23. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 67. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2019. _____________. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 56. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2021.
Gilberto Gil. Andar com Fé. In: GILBERTO GIL. Um Banda Um. Rio de Janeiro: Warner Music. Brasil, 1982. Faixa musical.
SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia. 45. ed. Campinas: Autores Associados, 2024.
SAVIANI, Dermeval. Pedagogia histórico-crítica: primeiras aproximações. 11. ed. rev. Campinas, SP: Autores Associados, 2011. (Coleção Educação Contemporânea)
SEIXAS, Raul; COELHO, Paulo; MOTTA, Marcelo. Tente outra vez. Intérprete: Raul Seixas. In: SEIXAS, Raul. Novo Aeon. Rio de Janeiro: Philips Records, 1975. 1 LP.
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Texto com profindidade e sentimento! Lindo e necessário!
Esse texto mexe com nossas emoções e nos traz lembranças da nossa própria história.
Excelente texto!
Que coisa linda e potente de se ler!
Muito orgulho 🩶
Um show de texto
Parabéns dobrado!