O que aprendemos com o banimento de Trump do Twitter?



Há uma discussão muito importante e histórica ocorrendo. Um debate colossal, eu diria. O presidente dos EUA foi escorraçado, para sempre, do Twitter.


O artigo, escrito por Mateus Camillo, intitulado “Ao Banir Trump Big techs encurralam extremistas mas podem virar absolutistas” [1], aponta para a consequência do banimento, em definitivo, de Donald Trump, já em fim de mandato. A empresa se viu pressionada a dar um basta a uma pessoa – uma personalidade pública importantíssima - por incitar o extremismo. Bloquear a conta era pouco. As palavras de Trump são perigosas para a Democracia. As palavras de Trump rebaixam os valores democráticos e incita a barbárie, apelando para criar desconfiança nas instituições. A consequência da semana passada (06 de janeiro de 2020) foi sem precedentes: pessoas e grupos sentiram-se respaldadas pelo líder político para invadir o Capitólio.


As big techs (facebook, twitter, google, apple, amazon) são locais virtuais visitadas, desde sempre, para abrigar extremistas e lunáticos de todos os tipos. Propagam todo tipo de fake e opinion news, reproduzindo ideias antidemocráticas. Apelos autoritários aos montes. E todo tipo de esgoto que ainda não temos real dimensão. Toneladas de lixo moral. Sim! meus caros e caras, não existe só pessoas legais e tolerantes nas redes! E, pelo menos desde as eleições de 2016, há vários debates e medidas que tentam impor mais fiscalização às empresas responsáveis por permitir a inoculação de ovos de várias serpentes. Muita coisa ainda está engatinhando. Há muito trabalho a ser feito.


A consequência, que o autor do artigo levanta, é o que está implícita: as empresas podem transformar-se em figuras institucionais com poderes absolutistas, a fim de banir qualquer coisa que seja contrária aos chamados valores democráticos. Isso já vem acontecendo, mas ainda com bloqueios, de charges, memes e pessoas por tempo determinado. Ou seja, o objetivo é manter na rede quem pensa igual; quem adere à democracia liberal; quem não conspira a favor do autoritarismo e suas variantes. Mas há um risco, qual seja: de grupos adentrarem, de vez, em espaços não verificáveis na web. Espaços obscuros. As bolhas, os inimigos da democracia, podem criar seus grupos na invisibilidade da legalidade. Fora, portanto, das grandes mídias de massa como Twitter, Facebook ou Instagram. Ainda assim, o autor cita que para os extremistas é uma perda enorme não ter espaço nas grandes plataformas de massa. É mais difícil caçar apoiadores fora do mainstream virtual.


O ideal seria repactualizar o uso das redes. O que pode ou não ser permitido num novo contrato social. Isso nunca foi feito, pois a suposição inicial era que a convivência virtual partia de um humano abstrato, condicionado a priori, com elevados valores morais civilizados numa grande ágora virtual democrática. Fomos ingênuos!


A verdade é que uma pessoa chega no Facebook, cria um grupo neonazista e tudo está permitido. Ou cria um grupo como a Qanon - que conspira a existência de uma pedofilia internacional emplacada por líderes políticos e econômicos e um culto satânico global - e pouco é feito. Ou alguém cria um canal no YouTube apoiando uma Teocracia, inoculando massivamente seus ideais.


Mas o ponto é que a liberdade individual, conquista da sociedade moderna ocidental, não pode ser absoluta; não pode ser contrária a determinados valores considerados democráticos, afinal vivemos numa sociedade democrática e não num regime fascista, teocrático, ditatorial, nazista ou comunista.


Talvez o preço a pagar pela perseguição a todo tipo de ideia extremista é aceitar uma espécie de absolutismo democrático. Em termos práticos: ou a gente assume a defesa incondicional, uma carapuça indestrutível da democracia, ou vamos viver para sempre num relativismo sem fim, numa desconfiança eterna. Ou a gente aceita a tese de que a própria democracia precisa ser vivenciada e defendida como um valor universal, ou vamos deixar sempre uma margem de desconfiança e manobra para futuros movimentos e regimes políticos - com ideias e práticas perigosas - que colocam em xeque o direito e a moral democrática, e todos os valores e instituições liberais atualmente aceitáveis.


Se aceitamos que a democracia é um regime em constante aperfeiçoamento, mudança, afinal nossas demandas por inclusividade e direitos são infindáveis, devemos também aceitar, em essência, que suas bases fundacionais, morais, são intocáveis, indiscutíveis. E assim perseguir todos os detratores e conspiradores, o que equivaleria a não aceitar qualquer tipo de discurso. Ou, ao contrário, deixamos espaços abertos para propagar a restauração de ideias e projetos do passado para o mundo atual, claramente anti democráticos.


Mas, por outro lado, todavia, e aqui está uma armadilha, corremos um sério risco de impedir a construção de novos engenhos e ideias de uma sociedade nunca antes experienciada. Algum tipo de sociedade pós - democrática que seja mais justa. Por quê não?


Qual risco devemos correr? Aceitar ou não a tese do absolutismo democrático. Qual a opinião de vocês?


Até breve.

[1] https://www1.folha.uol.com.br/tec/2021/01/ao-banir-trump-big-techs-encurralam-extremistas-mas-podem-virar-absolutistas.shtml


Link da imagem: https://olhardigital.com.br/2020/08/24/noticias/donald-trump-e-notificado-por-infringir-regras-de-uso-do-twitter/

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