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O QUE QUEREM OS HOMENS?

24 de ago.
3 min de leitura

Atualizado: 25 de ago.

Em uma típica manhã da Viena de 1900, Sigmund Freud (1856-1939) atendia Ida Bauer (1882-1945). A jovem de 15 anos sofria com tosses nervosas e afonia. Após algumas sessões, a ausência de proteção do pai da moça e a importunação sexual de um amigo da família, foram interpretados por Freud como as causas dos sintomas: Ida, inconscientemente, desejava o agressor e ao mesmo tempo rejeitava desejá-lo. No entanto, Bauer repeliu a leitura freudiana, deixou a terapia e confrontou o genitor. Resultado: os sintomas desapareceram. Ante o desfecho, Freud perguntou: “afinal, o que quer uma mulher?” Estavam lançadas as bases para um dos textos clássicos da psicanálise: Fragmento da Análise de um Caso de Histeria ou O Caso Dora. Estava também lançada a indagação jamais respondida pelo criador da teoria psicanalítica: Freud revolucionou o entendimento da psique humana, contudo, mesmo após 30 anos de estudo, não encontrou meios de responder sobre o desejo das mulheres. Para ele, elas sempre foram “o continente negro”.


Talvez Freud chegaria a um resultado diferente, caso trocasse correspondência com Simone de Beauvoir (1908-1986). Em O Segundo Sexo, a filósofa existencialista e feminista escreveu: “não se nasce mulher, torna-se mulher”. A partir disso, ampliou a discussão sobre o papel social das mulheres, contribuindo sobremaneira para a compreensão de suas particularidades. Décadas depois, Lacan diria em seu Seminário, Livro 20: Mais, Ainda: “A Mulher não existe”, colocando de lado o modelo universal d’A Mulher, para ressaltar a existência e individualidade das mulheres, “uma a uma”, conforme suas próprias palavras. Dialogando criticamente com estas produções, a filósofa pós-estruturalista Judith Butler, em Problemas de Gênero: Feminismo e Subversão da Identidade, aponta para a mulher enquanto categoria construída no interior da sociedade; as suas lutas, devem, portanto, desnaturalizar sexo, gênero e desejo e denunciar as imposições sociais, pautadas em determinismos biológicos. Nessa perspectiva, os movimentos feministas têm conquistado direitos para as diversas possibilidades de ser mulher. Em pouco mais de meio século, mudanças nos planos jurídico, social e cultural ocorreram a partir das ações das mulheres contra o patriarcado.

Atingindo o coração de um modelo em estado terminal, lutando contra um padrão anti- civilizatório – pautado na normatização do estupro e em múltiplas modalidades de violência – e confrontando homens desprovidos de qualquer bom senso, elas respondem, todos os dias, a questão freudiana: viver em paz, ser livres, e, sobretudo, respeitadas.


Por outro lado, muitos homens querem seguir na contramão desse processo. Reunidos em ecossistemas digitais, eles apelam às subculturas masculinistas para turbinar o debilitado patriarcado. Sobem montes em busca da recuperação de uma suposta energia masculina e criam escalas de masculinidade: homens alfa, beta e sigma. A proposta, no entanto, é a mesma de quando, há 6 mil anos, o patriarcado se consolidou no planeta: subjugar as mulheres. A despeito de algumas dentre elas reproduzir os discursos da machosfera, tal ordenamento demonstra decadência ante a conquista do voto feminino, das oportunidades de emprego e do acesso à educação formal. Gerar o próprio capital financeiro tornou a disputa pelo acesso aos mesmos direitos menos desequilibrada. As mulheres entendem cada vez melhor os flancos mais frágeis do patriarcado: (1) o trabalho, antes, uma instância ocupada apenas por homens, tem nas últimas quatro décadas, assistido a ascensão de mulheres a posições de comando; mesmo com salários até 30% menores, mais da metade dos lares brasileiros tem chefia feminina; e (2) a sexualidade deixou de ser domínio masculino, como resultado das quatro ondas feministas; nelas, as mulheres libertaram seus próprios corpos.


As mulheres transformaram revoluções sociais em revoluções sociossexuais. Infelizmente, parcela considerável dos homens está desnorteada frente a essa realidade. Não entenderam e pelo visto, persistem se recusando a ler o atual cenário: ante a liderança das mulheres, determinados homens, do “alto” da sua masculinidade hegemônica, tendem a ser um quantitativo menor na população masculina, ao passo que homens parceiros, responsáveis e independentes tem a oportunidade de desenvolver autoestima, uma vida com maior independência, significado, autorregulação emocional e abandono da pressão sociocultural de serem sempre os únicos responsáveis em trazer dinheiro para casa.


O futuro tem suas incertezas. Estamos em plena corrida eleitoral e às voltas com uma geopolítica caracterizada pelo maior número de confrontos armados, desde a Segunda Guerra

Mundial. Não há como prever um retorno ao matriarcado ou se o patriarcado seguirá adiante. No entanto, o mundo conforme a extrema direita, ávida e truculenta, pretende reconstruir, não tem qualquer possibilidade de se sustentar, até porque, entre tantos fatores, as travestis e mulheres trans consolidaram as lutas feministas, contribuindo na construção de novos olhares sobre as mulheres. Aos homens, cabe escolher se querem encontrar a felicidade através do investimento da própria libido na onda neoconservadora ou contribuir para uma conjuntura de livre cooperação com as mulheres. Neste respeito, Freud pontuou: “a felicidade é um problema individual; aqui, não há conselho que valha. Cada um deve procurar, por si, tornar-se feliz”.


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Fonte Imagem:

https://www.magnific.com/br/psd-gratuitas/fita-de-cancer realista_65104531.htm#fromView=keyword&page=1&position=1&uuid=a3a94f64-1234-485c-86f2-bc2bd68c14d0&track=ais_hybrid&query=Laco+lilas


2 comentários

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Denilson
26 de ago.
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Muito interessante esta visão.

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Januário
24 de ago.
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Gratidão!

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