O REINO FORA DA POLÍTICA LIBERAL
- Alan Rangel

- há 10 horas
- 3 min de leitura
O messianismo político, encarnado em homens de espírito disruptivo, merece maior atenção nas ciências sociais. Por quê? Porque revela o fracasso das sociedades modernas sob a lógica do ethos liberal.
A política é o campo do diálogo e do conflito de ideias em busca de um lugar comum. Hannah Arendt a via como o ápice da condição humana, da vida activa.[1] Esse foi o grande legado dos princípios liberais da Idade Moderna: a aposta na política, através do contrato social, contra a teocracia, monarquias absolutas, tiranias, ditaduras e totalitarismos.
O caminho da política moderna foi pavimentado pela partilha do poder: ele não pode ficar nas mãos de uma só pessoa ou de um comitê restrito. Não se confia na “natureza humana”. Além disso, no ethos liberal, a religião fica fora da vida pública - Deus torna-se um culto privado.
Por que o liberalismo político, a democracia liberal, não cumpriu suas promessas?[2] Porque não conseguiu resolver os problemas sociais - e a culpa não é sobrenatural, mas das escolhas por aqueles que gereciam o poder.
Mas quando a política falha, drasticamente, nas resoluções sociais, como reage o cidadão médio, impotente ante ao establishment? Apela ao místico, Deus, à soberania popular, a homens viris ungidos ou às Forças Armadas. A incapacidade da política – a arte do possível - deixa um grande vazio para um outro reino, uma outra via. Não há nada de novo nisso.

A política liberal atravessa uma grave fratura: suas instituições são questionadas diariamente por falharem em gerir suas mazelas sociais como pobreza e violência. Sob uma perspectiva materialista, o gargalo central é modelo econômico adotado. Sim, a política tem sido colonizada e usada pelas forças econômicas para manter o capitalismo a ferro e fogo. A tese de Marx resiste.[3] O desafio do liberalismo político e suas instituições basilares é resistir ao imenso poder do capital, que para sobreviver, precisa explorar e encontrar novos recursos. E, historicamente, precisa do Estado para isso.[4]
Na prática, os cidadãos não querem esperar o lento debate político para ver as políticas serem implementadas e terem efeitos práticos. Ou não creem mais nessa saída. Se não funciona, se não é operacional, se não atende aos interesses da maioria da população - que vota e elege representantes -, a política torna-se disfuncional e ineficaz. A solução, então, surge em outra seara.
O crescimento do iliberalismo vem acompanhado por discursos escatológicos, religiosos, autoritários e extremistas que ganham espaço em um mundo em que os políticos são colocados como corruptos e manipulados pelos endinheirados. “Só homens inspirados por uma força superior, imaculados, podem impor ordem no caos”. Eis uma concepção recorrente.
O eterno desafio do ethos liberal é combater o “espírito heroico” e viril da política; mas precisa, também, exorcizar seus próprios obstáculos materiais, seus próprios demônios, como a defesa incondicional do capitalismo cambaleante.
____________________________________
Link do vídeo: https://www.instagram.com/reels/DVgNLLQgMse/
Fonte da imagem: https://www.instagram.com/reels/DVhMYCzEbFj/
[1] Ver ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. Revisão e apresentação de Adriano Correia. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2016.
[2] Ver BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. 10. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.
[3] Ver MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. Tradução de Álvaro Pina. São Paulo: Boitempo, 2010.
[4] Ver POULANTZAS, Nicos. Poder político e classes sociais. Tradução de Maria Leonor Loureiro. São Paulo: Martins Fontes, 1977.

Comentários