top of page

O REINO FORA DA POLÍTICA LIBERAL



O messianismo político, encarnado em homens de espírito disruptivo, merece maior atenção nas ciências sociais. Por quê? Porque revela o fracasso das sociedades modernas sob a lógica do ethos liberal.


A política é o campo do diálogo e do conflito de ideias em busca de um lugar comum. Hannah Arendt a via como o ápice da condição humana, da vida activa.[1] Esse foi o grande legado dos princípios liberais da Idade Moderna: a aposta na política, através do contrato social, contra a teocracia, monarquias absolutas, tiranias, ditaduras e totalitarismos.


O caminho da política moderna foi pavimentado pela partilha do poder: ele não pode ficar nas mãos de uma só pessoa ou de um comitê restrito. Não se confia na “natureza humana”. Além disso, no ethos liberal, a religião fica fora da vida pública - Deus torna-se um culto privado.


Por que o liberalismo político, a democracia liberal, não cumpriu suas promessas?[2] Porque não conseguiu resolver os problemas sociais - e a culpa não é sobrenatural, mas das escolhas por aqueles que gereciam o poder.


Mas quando a política falha, drasticamente, nas resoluções sociais, como reage o cidadão médio, impotente ante ao establishment? Apela ao místico, Deus, à soberania popular, a homens viris ungidos ou às Forças Armadas. A incapacidade da política – a arte do possível - deixa um grande vazio para um outro reino, uma outra via. Não há nada de novo nisso.


Donald Trump sendo ungido no salão oval da Casa Branca.
Donald Trump sendo ungido no salão oval da Casa Branca.


A política liberal atravessa uma grave fratura: suas instituições são questionadas diariamente por falharem em gerir suas mazelas sociais como pobreza e violência. Sob uma perspectiva materialista, o gargalo central é modelo econômico adotado. Sim, a política tem sido colonizada e usada pelas forças econômicas para manter o capitalismo a ferro e fogo.  A tese de Marx resiste.[3] O desafio do liberalismo político e suas instituições basilares é resistir ao imenso poder do capital, que para sobreviver, precisa explorar e encontrar novos recursos. E, historicamente, precisa do Estado para isso.[4]


Na prática, os cidadãos não querem esperar o lento debate político para ver as políticas serem implementadas e terem efeitos práticos. Ou não creem mais nessa saída. Se não funciona, se não é operacional, se não atende aos interesses da maioria da população - que vota e elege representantes -, a política torna-se disfuncional e ineficaz. A solução, então, surge em outra seara.


O crescimento do iliberalismo vem acompanhado por discursos escatológicos, religiosos, autoritários e extremistas que ganham espaço em um mundo em que os políticos são colocados como corruptos e manipulados pelos endinheirados. “Só homens inspirados por uma força superior, imaculados, podem impor ordem no caos”. Eis uma concepção recorrente.


O eterno desafio do ethos liberal é combater o “espírito heroico” e viril da política; mas precisa, também, exorcizar seus próprios obstáculos materiais, seus próprios demônios, como a defesa incondicional do capitalismo cambaleante.


____________________________________



[1] Ver ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. Revisão e apresentação de Adriano Correia. 13. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2016.

[2] Ver BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia: uma defesa das regras do jogo. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. 10. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000.

[3] Ver MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. Tradução de Álvaro Pina. São Paulo: Boitempo, 2010.

[4] Ver POULANTZAS, Nicos. Poder político e classes sociais. Tradução de Maria Leonor Loureiro. São Paulo: Martins Fontes, 1977.

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page