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ODIAR É PRECISO, TORCER NÃO É PRECISO?



A bola já tinha rolado fazia tempo, mas aquilo me tirou atenção totalmente a ponto de me fazer refletir no que eu nem queria naquele exato momento.


Um pouco mais cedo adiantei minhas obrigações e responsabilidades dentro de casa, tomei meu banho, vesti a camisa do meu time, escondi meu documento, cartão coloquei num bolso interno e o dinheiro do "migué" no bolso mais visível e fui assistir à final do campeonato baiano de futebol de 2023.


Um dia ensolarado e lindo em Salvador. Na entrada do metrô, enquanto eu comprava minha passagem fui, como sempre, arrumando um argumento para papear (prosear pra fazer lembrar do Soteroprosa! rs) com alguém e de pronto fisguei um confrade que, assim como eu, questionava o time que até aquele momento estava no plantel do esquadrão de aço.


Conversamos um tanto até nos perdermos dentro da multidão que cantava o hino do clube com tamanha empolgação e gritava constantemente uma frase que viralizou desde a chegada dos novos investidores do clube (o grupo City): O Bahia é o mundo!


Naquele instante, enquanto subia as escadarias da estação de metrô do Campo da Pólvora, lembrei rapidamente da primeira vez que tive contato com a sensação de torcedor dentro do meu coração. Foi em 1988 quando, no jogo Bahia x Fluminense com o estádio tão cheio como nunca mais eu presenciei, que meu pai me levou pela primeira vez para assistir um jogo do tricolor baiano. Uma partida duríssima que nos levaria para a final do nacional daquele ano contra o Internacional de Porto Alegre e consequentemente ao segundo título nacional do clube. Depois de virarmos o placar em 2 x 1 com gols de Bobô no primeiro tempo e Gil no segundo, o maior público registrado na Fonte Nova até hoje (oficialmente 110 mil pessoas) saiu cantando em couro o hino do clube que afirma em sua letra que "Ninguém nos vence em vibração!". Como um minúsculo ponto no meio daquele mar de gente eu estava no cangote do meu pai que cantava emocionado e me fazendo (eu uma criança de 8 anos de idade) emocionar com toda aquela mágica que conhecemos desde sempre. Ali nasceu o torcedor que hoje sou. Mas não é disso que eu quero tratar. Não foi isso que me intrigou num dia em que deveríamos vibrar em um só pensamento: vencer! Porque no esporte, no caso aqui o futebol, é, quem sabe, uma das únicas vezes em que podemos vibrar desprendidamente para “vencermos na vida’. Ali no campo são todos os nossos medos, anseios, problemas, juntos com todas as nossas habilidades, crenças, forças e até poderes no intuito único de vencermos, de sermos campeões. Lá na arquibancada nós viramos doutores, mestres, técnicos, psicólogos, estrategistas, reis da folia e até grandes chorões.

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A bola realmente já tinha rolado, contudo a maior e mais vibrante torcida organizada do Bahia entoava cânticos que tinham como principal objetivo desqualificar, ofender, diminuir e ironizar o time e a torcida do rival que sequer estava jogando aquela final e que não deveria, a meu ver, ser lembrado ou mesmo ser ofendido num momento tão importante e representativo, inclusive histórico, para o tricolor da boa terra. Estávamos prestes a conquistar o quinquagésimo título estadual jogando contra uma organizada e muito boa equipe da Jacuipense e, pense, ninguém parecia lembrar quem era o adversário.


Tenho em mim que esfriar o ataque, desprezar o adversário e desmerecê-lo enquanto se disputa contra ele é uma forma de se diminuir e se colocar em uma condição nada admirável, menor diante do oponente.


O que estava sendo ecoado naquela festa popular durante um jogo estudado e muito tenso pregava violência e esse discurso, comum hoje em dia, muitas vezes precisamos tentar entender de onde vem e como faz suas raízes para contrapor com inteligência. Assistindo a meu time do coração com tamanha emoção e empolgação precisei calar quando refleti no que estava cantando e ao mesmo tempo parei para questionar se realmente aquele público, essa torcida, tinha admiração pelo clube ou apenas via no seu torcer uma forma de expressar o que de mais tenebroso e obscuro levam dentro de si. Observando com mais cuidado percebi que praticamente 90% dos cânticos continham em suas letras alusão ao adversário regional com palavras que expressavam o puro ódio.


Essa coisa de “garrar ódio” como se fala aqui na Bahia nunca foi coisa de gente equilibrada. Sempre foi visto como algo de quem não aguenta a “onda”. Mas que “onda” estava sendo feita se o adversário mencionado já tinha deixado todas as competições regionais do ano humilhado por sua incompetência? Seriam os torcedores daquela torcida tricolor verdadeiros torcedores ou apenas uma espécie de haters imbuídos em propagar rivalidade fora das quatros linhas do campo? Fiquei pensando que essa mesma torcida em fevereiro de 2022 promoveu um ato de violência contra o próprio time do Bahia explodindo uma bomba dentro do ônibus que levava os atletas para o jogo contra o Sampaio Correia pela copa do Nordeste. O goleiro Danilo Fernandes foi o atleta mais afetado ficando com o seu rosto tomado de feridas. Lembrei rapidamente também de uma entrevista concedida pelo atual Ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania, Silvio Almeida, ao Mano Brown no seu podcast Mano a Mano, que falava da destruição da arquibancada à canalização do ódio.


Confesso que essa é uma questão mais complexa e permeia por vários estudos das ciências humanas, mas eu entrei numa de pensar que até perdi alguns lances da partida. Se durante minha vida de torcedor eu me confrontei com preocupações que eram desde “cadê o vendedor de limonada”, “será que meu Bahia broca hoje” até “cuidado com o mijo voador” agora me aprece essa: é torcida ou é hater nessa porra?


FONTE:



https://www.redebrasilatual.com.br/politica/mano-brown-silvio-almeida-destruicao-arquibancada-canalizacao-odio/


https://www.lance.com.br/bahia/onibus-do-bahia-e-atacado-pela-torcida-na-fonte-nova.html#:~:text=O%20%C3%B4nibus%20que%20levava%20a,foi%20atacado%20pela%20pr%C3%B3pria%20torcida.

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2 comentarios

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carlosobsbahia
carlosobsbahia
21 abr 2023

Torcedor é uma viagem! Isso deve ser novo,é arte desses

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Contestando a

Está ficando cada vez mais comum. Tenho certeza que essa percepção existe inclusive dente os torcedores menos odiosos do time adversário.

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