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ONDE ESTARIA ENTERRADA A BOTIJA?

“Berinho, acorda, meu filho! Vamos ali desenterrar uma botija que o finado Zé Ivaldo enterrou antes de morrer. No meu sonho, ele me disse onde ela tá!”. Berinho era filho de Zelito, que o acordou, naquela noite, após ter tomado umas pingas, para convidá-lo àquela empreitada que ele jurava que seria frutífera, que faria deles milionários. Após ser acordado de supetão, abrindo os olhos assustado, sem entender nada, Berinho respondeu ao pai: “O senhor bebeu um pouco a mais, coroa! Que botija? Não tem botija nenhuma, não, pai, o senhor tá variando das ideias! Eu tava aqui sonhando com um animal para jogar no bicho, amanhã, mas o senhor interrompeu meu sono, e agora eu não lembro mais com que bicho eu sonhava...”. Após insistência vã, Zelito conforma-se com a situação e se dirige ao sofá, na sala, onde, bêbado, pega num sono profundo.


O ocorrido descrito acima aconteceu com familiares de um amigo do sertão baiano. Os nomes foram trocados para que se preserve a privacidade dos envolvidos, mas a história é verídica. Enterrar botijas com dinheiro, ouro ou joias era comum no sertão nordestino antes do estabelecimento dos bancos na região. A história ocorreu há bem menos tempo, embora há alguns anos atrás, e hoje, em pleno 2026, acho que o caso pode ser utilizado como analogia para nossa situação política nacional, mais especificamente ao universo envolvendo as pesquisas de intenção de voto. Essa analogia deve ser aplicada aos dois principais campos da política nacional atual, o petismo e bolsonarismo, mas a partir de posições diferentes, o que pretendo fazer nas próximas linhas.


No Seminário II, Lacan nos diz: “Numa análise, não intervimos unicamente na medida em que interpretamos o sonho do sujeito – se é que o interpretamos – mas como já estamos, a título de analista, na vida do sujeito, já estamos em seu sonho” (LACAN, 1975, p. 194). Trazendo esse texto lacaniano sobre a análise onírica produzido décadas atrás para a nossa sociedade brasileira atual, é tentador e talvez legítimo observarmos que a grande imprensa, os partidos políticos e seus agentes e as mais diversas camadas sociais têm recebido e olhado para a atual enxurrada de pesquisas eleitorais para presidente como quem já está vendo um candidato ou outro, das duas maiores forças políticas atuais, na presidência, em 2027.


A interpretação política dos dois lados simplesmente foi substituída pela percepção de que os dois polos hegemônicos da sociedade estão fazendo parte do sonho dos dois candidatos, não numa perspectiva ideológica ou mesmo romântica, mas como agentes de materialização das certezas dos dois grupos políticos que conduzem suas campanhas (e não me venham falar em pré-campanha, que só existe na lei!). O grupo da extrema-direita chega a tal percepção a partir de uma posição arrogante alimentada pelas chamadas forças de mercado, vocalizada pela grande imprensa e pela simpatia dos algoritmos do Zuckerberg, enquanto a campanha da centro-esquerda, a partir de uma reatividade calejada e dotada de uma força notável.


Em pesquisa realizada pela Quaest [1] entre os dias 6 e 9 de janeiro de 2022, Lula tinha cravados 45% das intenções de votos contra 23% de Jair Bolsonaro, no primeiro turno, e pontuaria 54% contra 30% do então mandatário, num segundo turno. Quando cegou a hora H, Lula venceu apertado, com 50,83% dos votos válidos contra 49,17% de Bolsonaro - 59.563.912 contra 57.675.427, uma diferença de somente 1.888.485, entre os votos em um candidato e noutro. Pegando os dados do mesmo instituto [2], temos os seguintes números, em pesquisa realizada entre os dias 9 e 13 de abril de 2026, considerando a lista de candidatos mais provável: Lula tem 37% no primeiro turno contra 32% de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, e pontua 40% ante 42% do primogênito. Faltando menos de seis meses para as eleições, mantendo-se as mesmas condições de pressão e temperatura daquela eleição de 2022, a tendência é Lula ganhar, com possibilidade de vitória no primeiro turno.


O problema da lógica acima é que, entre uma eleição e outra, as condições de pressão e temperatura, insistindo nessa analogia às ciências físicas, nunca são as mesmas, e, entre 2022 e 2026, popularizou-se algo que pode fazer a diferença, isto é, a inteligência artificial. Some-se a isto o fato de que dois ministros fortemente bolsonaristas estarão à frente do TSE nas eleições de outubro próximo, o “terrivelmente evangélico” André Mendonça e o católico reacionário Nunes Marques. Por fim, podemos acrescentar, no bolo, dois escândalos que, ao que tudo indica, estão mais ligados à extrema-direita, mas que, na era da pós-verdade das redes sociais, redes que, diga-se de passagem, além de receberem uma injeção de dinheiro do empresariado financiador da extrema-direita, tendem a contar com uma ajudinha do há alguns anos convertido ao reacionarismo trumpista, Mark Zukembergue, dono do Whatsapp, Instagram e Facebook, no impulsionamento dos algoritmos em favor do representante do clã Bolsonaro na corrida ao Palácio do Planalto.


Em seu favor, e, mesmo considerando o poder da extrema-direita nas redes sociais, isso não deve ser desprezado, Lula tem a máquina estatal. Ainda é cedo para sabermos se o presidente conseguirá fazer o congresso votar o fim da escala 6 por 1 antes das eleições, bem como para mensurarmos os efeitos da isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco mil reais por mês e desconto para quem ganha até 7 mil e, sobretudo, se o governo terá força para quebrar as barreiras dos algoritmos e fixar na cabeça e coração das massas que estas são medidas de Lula. Além destes fatores, não nos esqueçamos de que vivemos em um mundo em que Donald Trump e sua instabilidade calculada está à frente da maior potência econômica e militar do mundo, e que, mesmo em aparente decadência hegemônica, ainda é capaz de fazer as regras do jogo mudarem nos quatro cantos do planeta.


E, enquanto escrevo estes parágrafos, leio a notícia de que o Irã fechou novamente o Estreito de Ormuz, em resposta ao bloqueio de seus petroleiros pela administração trumpista. Isso, obviamente, pode impactar nos preços da gasolina e do óleo diesel em nosso país. Ou seja, numa economia altamente globalizada, mesmo que Trump não interfira diretamente nas nossas eleições (sim, porque ele pode não interferir, já que o cara é imprevisível!), uma convulsão na economia global pode favorecer o candidato mais forte contra o governo.


E o adversário de Lula? Ah, Flávio Bolsonaro, que as más línguas apelidam de Flávio Rachadinha, tem um telhado de vidro de proporções colossais: das chamadas rachadinhas, cujo inquérito para apurá-las foi arquivado a mando do judiciário do Rio de Janeiro por conta de o órgão ter entendido que qualquer processo a respeito do tema não seria de sua, passando pelos relatos de lavagem de dinheiro com uma franquia de chocolates, pelos investimentos suspeitos em dinheiro vivo no ramo imobiliário e, por fim, às suas estranhas ligações com diversos milicianos, o dito Zero Um é um alvo muito fácil para uma boa equipe de campanha adversária. Para além disso, se Lula buscar levar a disputa para o campo do discurso econômico, por mais influência que as ideias toscas do anarcocapitalismo do presidente argentino Javier Milei façam sucesso entre jovens brasileiros que nunca leram sequer orelha de livros de economia e que são doutrinados por canais de outros analfabetos funcionais que se apegam a essa modinha para viverem das redes, o Bolsonaro filho será esmagado, pois este defende abertamente o programa econômico do fanfarrão argentino que tem levado à miséria parte da população do país vizinho e que tem feito jovens portenhos migrarem para o nosso país em números recordes, em busca de oportunidades de trabalho.


Por mais que existam muitos bolsonaristas da classe trabalhadora que, em nome de sua doença ideológica, aceitem trabalhar quase sem direito trabalhista algum, até na maior parte dos anti-petistas o regime de trabalho argentino implantado por Milei causa arrepios. Certamente, em a campanha lulista sabendo trabalhar, estes votariam em Lula, mesmo sem se identificarem com ele, pelo mais puro medo.


Considerando todas as variáveis até aqui expostas, e considerando que, dadas as dificuldades no congresso e diante da força da extrema-direita interna e internacional, Lula tem feito um governo com entregas, um governo muito bom, diante do que é possível fazer, podemos dizer que a eleição está aberta. São pouco mais de cinco meses para Lula virar o jogo e se reeleger com certa folga diante de Flávio Bolsonaro, pois, mesmo com todos os obstáculos que ele tende a enfrentar (e já vem enfrentando), o Filho do Brasil é resiliente e um símbolo internacional de superação de situação política e pessoal extremamente desfavorável, tendo saído de uma prisão injusta armada por tentáculos nos órgão de justiça dessa mesma extrema-direita que agora combate para ser presidente do Brasil pela quarta e última vez. Não se deve desconsiderar, em hipótese alguma, a força de um líder político como o nosso presidente.


No Brasil atual, apesar de toda a complexidade da disputa política, a esquerda confunde essa força ora com um grito desesperado contra os perigos de um novo governo dos Bolsonaros, ora como se já tivesse vencido a guerra, com a maior parte de seus analistas sem a capacidade mínima de ler o cenário com frieza para que venham a saber agir na dose e com a estratégia certa. A extrema-direita, por seu turno, age com a arrogância de quem está sendo apoiada pelas forças de mercado e pela grande imprensa, com seus agentes se dando ao luxo de travarem batalhas homéricas entre si, com sua máquina implacável de assassinato de reputações, e isso pode ser sua ruína em outubro de 2026.


Em resumo, parece que estamos falando aqui de campanhas que estão entre o sonho (no caso, a extrema-direita, de voltar ao poder e implantar uma autocracia) e a embriaguez (a centro-esquerda e sua incapacidade de ler o cenário e agir na medida e na dose adequada). Voltando à história de Berinho e seu pai, Zelito, podemos localizar a vontade embriagante, portanto descoordenada, de chegar à botija, isto é, a mais quatro anos de governo, no PT e nas forças progressistas, e o desejo arrogante em forma de sonho reacionário de se apoderar das riquezas nacionais através das eleição e posterior tentação de aplicar um golpe de Estado nas forças reacionárias (Flávio Bolsonaro já disse que, se o STF não respeitar a decisão da anistia do congresso, através dos militares ele vai fazer valer a decisão legislativa – decisão inconstitucional, na prática, diga-se de passagem).


E o que nos cabe, a nós que não queremos a volta da família Bolsonaro ao poder, por mais que alguns dos nossos não sejam muito fãs de Lula – o que não é meu caso, admirador confessor dessa grande liderança política nacional e mundial? Obviamente, nos resta lutar nas redes sociais, nos nossos ambientes de convívio, nas ruas, enfim, onde for possível, para que os extremistas de direita não retomem o poder e reinstalem o caos em nossa pátria, como foi no governo de Boslonaro pai, bem como concentrarmos toda a nossa fé, seja ela laica ou espiritualista, na capacidade de Zelito, revivido politicamente nas forças progressistas, mesmo embriagado, interromper o sonho de Berinho, como anos atrás, para que este não acerte no bicho, no caso, para que Flávio Bolsonaro não ganhe de Lula nas urnas.


Que deixemos de estar nos sonhos de Lula, neste primeiro momento, longe da embriaguez de sua campanha, embriaguez que equivale a sonhar acordado, num determinado nível de efeito etílico, para que possamos fazer essa campanha ficar sóbria e, assim, expurgar de vez o sonho extremista e autocrático da direita tosca e reacionária que domina boa parte de nosso cenário política nacional. Ah, e não nos esqueçamos de lutar para que nosso próximo congresso seja melhor que a balbúrdia que se tornou nos últimos anos, para que Lula possa governar em seu último tango com mais força e eficácia que atualmente. Só assim podemos nos dar ao luxo de sonhar, enfim.


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REFERÊNCIA:


[1] A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral com o número BR-00075/2022.


[2] A pesquisa está registrada no TSE (Tribunal Superior Eleitoral) sob o protocolo BR-09285/2026.


LACAN, J. O Seminário, livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-55). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1975.

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Tiago
há 14 horas
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A batalha de Homero 2026 será mais árdua do que a Odisseia… oremos e lutemos

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