ONDE EU ESTARIA SE MINHA MATERNIDADE NÃO FOSSE SOLO?
- Karla Fontoura

- há 7 horas
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Essa pergunta talvez seja uma das mais difíceis para quem vive nessa realidade. Toda mãe solo já se questionou quais caminhos estaria trançando sem o peso da maternidade desequilibrada e injusta que a maioria de nós vive. Imagine ter que visitar as possibilidades da vida ao estar amplamente afetada por uma parentalidade solitária? Só de escrever isso, sinto quase uma dor física, como se eu estivesse olhando um mundo lá fora acontecendo e todos os meus talentos e capacidades trancados na caixinha da vida doméstica.
Antes de mergulharmos nas respostas para essa pergunta, é importante esclarecer que a maternidade solo é atravessada pela pluralidade. Ao explicar a importância de reconhecer a legitimidade das famílias monoparentais, a pesquisadora Maria Márcia Pereira de Moura (2022) expande a pluralidade de condições que faz uma mulher assumir sozinha os filhos, tornando-se mãe solo. Ela pode existir a partir da decisão de ter filhos de forma independente; por investir em um processo de inseminação artificial de um doador anônimo; ao engravidar e saber que estará sozinha no momento em que optar por ter o bebê; ao adotar uma criança e se ocupar de toda a responsabilidade sem a presença de um companheiro(a); ao engravidar e o companheiro não assumir a criança e/ou não criar ou se esforçar para ter laços familiares com ela ou abandoná-la quando nasce; ao se tornar mãe “acidentalmente”.
Então, cientes de que muitas mulheres podem ocupar esse lugar da maternidade solo, podemos seguir para o que nos faz cogitar essa questão de onde estaríamos se não fosse essa maternidade. Imaginar o cenário fora dessa condição, implica que a própria é impelida de limitações e opressões comuns e maiores do que já entendemos da maternidade dentro da estrutura patriarcal. Ser mãe solo é não conseguir acessar todos os espaços públicos; é perder oportunidades de emprego; é defasar seu próprio bem-estar físico, mental e emocional pela sobrevivência do filho ou filhos e ter oportunidades limitadas de avanço na carreira profissional.
Para deixar bem claro, essa condição absurdamente injusta da maternidade solo não invalida a relação criada com o filho ou filha. Acho que meus textos deixam bem claro que odeio a maternidade, mas amo meu filho. A construção de afeto segue firme e forte, apesar do sofrimento psíquico, emocional e até material (dinheiro curto, saúde afetada e muitas outras condições). Quando se vive uma relação amorosa e feliz com o filho, isso não isenta as faltas que a condição materna solo nos coloca. Queremos correr para cuidar do nosso filho doente e vê-lo saudável após os cuidados, mas também choramos de aflição porque não vamos conseguir entregar uma atividade da faculdade no prazo porque fomos cuidar da criança doente…
Eu sei bem meu lugar se não estivesse encarcerada na maternidade solo. Estaria dedicada a minha carreira de escritora e teria lançado muitos livros. Tenho sete projetos de livros, todos em ritmo lento e/ou pausados porque a minha rotina de mãe e provedora da casa toma grande parte do meu tempo, energia e criatividade. Com certeza, estaria fazendo meu mestrado! Ou até já teria terminado e estaria cogitando o doutorado fora do Brasil dentro dos estudos sobre gênero, feminismo e maternidade. Participei por 3 anos de um grupo de estudos do Núcleo Materna da UFRJ. Li muitos materiais e escrevi bastante, mas sempre em um rendimento baixo pelas demandas domésticas e de cuidados com meu filho. Já tentei me inscrever nos cursos de mestrado, mas quando vejo os dias e horários, percebo que não consigo conciliar meu filho, trabalho, casa e estudos na minha rotina. Ainda se conseguir, sei que será à custa de muito cansaço mental, que me leva a ficar doente - se eu ficar de cama, quem cuida da criança que está comigo?
Esse dilema sobre como seria a vida sem a maternidade solo, ou até qualquer tipo de maternidade sem apoio e suporte, atravessou a vida de milhares de mulheres ao longo da história. Ainda que conquistassem os espaços públicos, carreiras, direito a voto ou posses, as mulheres, quando se tornam mães, se veem entre a cruz e a espada para fazer grandes escolhas em sua vida. Se não houver o suporte necessário, um curso importante ou o trabalho dos sonhos provavelmente ficarão para trás. O outro caminho é deixar a própria maternidade para ver se a vida caminha pela vertente das ambições da mulher em questão. Algumas delas ousaram grandemente essa segunda opção e foram registradas no livro “As abandonadoras: Histórias sobre maternidade, criação e culpa” da autora espanhola Begoña Gómez Urzaiz.
A obra apresenta diferentes mulheres de sucesso, especialmente escritoras (algo que me pegou particularmente), que lidam com a maternidade diferentemente do que era esperado na sua condição social e cultural. Algumas delas simplesmente não queriam ser mães e, por pressão da família ou das circunstâncias, se casaram e engravidaram. Porém, quando uma oportunidade significativa da carreira chegou, elas abriram mão da maternidade, deixando a criança com o marido, ou com familiares, assumindo pouco contato com o filho ou filha e, por vezes, mandando dinheiro regularmente. Outras, se arrependeram grandemente de serem mães e fizeram arranjos em certos momentos da vida, colocando-se acima da prole, passando temporadas em outros países, por exemplo. Já outras viveram maternidades turbulentas, com idas e vindas na convivência com os filhos e sem a esperada tolerância pelas amarras que condição lhes imputam.
Para além de vivências biográficas, o livro também apresenta a produção literária ou musical dessas mães que foi influenciada por essas experiências delicadas e difíceis sobre a maternidade. Dessa forma, vemos no campo criativo dessas mulheres os sentimentos mais ácidos e ardilosos que muitas mães já pensaram um dia, mas tiveram poucos espaços seguros para dividir. A autora explica que, por vezes, esse era um caminho que muitas delas escolhiam para deixar escapar desde a angústia de tomar a decisão de abandonar as suas maternidades a terrível solidão que lhes assola por escolher uma maternidade pouco tradicional e inesperada pela família e pela sociedade.
No livro, a autora aborda de forma simples e sem julgamentos, as histórias que coletou sobre essa mulheres, deixando claro que o fato delas “abandonarem” a maternidade não é o cerne da questão, mas como, na história, as pessoas lidaram de diferentes formas com a responsabilidades de viver a parentalidade, especialmente quando falamos sobre homens e mulheres. Begoña diz:
“Em geral, se um pai não está criando seu filho, nem que seja meio a meio ou até um quarto, é porque ele não quer. Já uma mãe, é porque não pode.” (p. 264)
Com essa perspectiva colocada, a autora estabelece que
“Este livro está cheio de histórias de mulheres reais e inventadas que em algum momento pensaram que, talvez, pelos filhos, nem tudo e nem sempre.”(p. 265)
A própria autora disse que dificilmente faria o que as personagens vivas do seu livro fizeram. Deixar os filhos com um parente e se mudar para um outro país com algum dinheiro e uma chance de crescer na vida profissional nunca foi algo que passou pela mente dela. E nem na minha. Mas mesmo que essa possibilidade não tenha ocorrido em nossos pensamentos, podemos concordar, cada uma dentro da sua realidade, que saboreamos olhar o mundo sobre aquelas que tiveram a audácia de fazer algo do tipo. Nem comento isso para dar a ideia de que foi a melhor escolha ou que as consequências foram grandemente positivas. Muitas delas tiveram dificuldades posteriores na relação com seus filhos e outros parentes importantes.
Acho que a curiosidade é inevitável ao ver que muitas delas alcançaram o reconhecimento de seus talentos e passaram anos vivendo do que amavam. Por isso, eu preciso falar que é preciso investigar onde cada mulher estaria se não fosse a maternidade solo. Assim como precisamos ver onde estariam os homens se eles fossem submetidos às limitações da maternidade solo. Um exercício que faço sempre é de analisar o que está por trás de todo homem bem sucedido. Observo se tem filhos. Caso positivo, vejo quem estava amparando–os enquanto ele alçava voo para seu sucesso profissional. Trazendo um exemplo bem real: o diretor dos filmes de Wicked, Jon Chu, afirmou em uma entrevista que passou 3 anos da sua vida fazendo as películas e que, nesse mesmo período, sua esposa teve três filhos! Você acha possível ele ter tamanho sucesso tendo 3 filhos, um seguido do outro? Com certeza, o cuidado e a atenção dele às crianças foram negligenciados pelo projeto maior. E sua esposa deixou de lado 3 anos de sua vida para amparar essas crianças…
Por outro lado, lembro do exemplo da Beyoncé que teve gêmeos e, em pleno puerpério, aceitou ensaiar para o Coachella, um dos maiores festivais de música do mundo. No documentário Homecoming vemos a cantora se submeter a uma rotina estrita e exaustiva de exercícios físicos, dieta e ensaios de dança e voz, enquanto amamentava os dois! Fica claro nos bastidores dessa empreitada a quantidade de pessoas envolvidas para que ela desse conta dessa performance, que se tornaria tão memorável na história da música pop. Beyoncé aceitou esse desafio e encontrou o suporte financeiro, familiar, emocional e material para realizar seu sonho. Isso sinaliza qual seria o caminho que queremos traçar quando puxamos a pergunta de onde estaríamos se não fossemos mãe solo.
Nesse ponto, a discussão sobre o tema é a esperança de que não façamos esse tipo de questionamento por conta de sonhos que ficaram para trás e desejos que foram abandonados. A ideia é que tragamos uma afirmação clara e simples de que
“mesmo sendo mãe solo, eu quero realizar (acrescente aqui o desejo, vontade, sonho da mulher-mãe) e para isso eu preciso (acrescente aqui a estrutura necessária para tal)”.
Tem um velho ditado que diz que o lugar onde você mais encontra sonhos não realizados é no cemitério. Ouso dizer que nem todos estão lá. Muitos deles estão em volta de quatro paredes de um casa onde uma mãe sozinha cuida da alimentação, higiene, educação, saúde de uma criança e abafa seus desejos e sonhos porque sabe que eles não poderão ser realizados enquanto a sociedade não compreender a mãe como um ser digno de participar da vida pública na fase de vida que ela desejar.
FONTE:
MOURA, Maria Márcia Pereira de. Mães solo e o seu florescer através das políticas públicas de assistência social. 2022. 65 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Serviço Social) - Instituto de Humanidades e Saúde, Universidade Federal Fluminense, Rio das Ostras, 2022.
URZAIZ, Begoña Gómez. As abandonadoras: histórias sobre maternidade, criação e culpa. Editora Schwarcz-Companhia das Letras, 2024.
Fonte da imagem: https://www.companhiadasletras.com.br/livro/9786559791637/as-abandonadoras?srsltid=AfmBOopyFj4sv9u2Ahm6Jfq2t6g-yOmSkV1cOgNzXBdkAumKI3s9RHrG

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