OS ADORADORES DE MOLOQUE: A Pandemia de Saúde Mental
- Armando Januário

- 22 de dez. de 2025
- 7 min de leitura

Este texto abriga parte da minha história de vida. Ele remete a infância de miséria, vivida em um barraco de taipa na favela, alternando períodos de alimentação farta àqueles outros, quando tomava café preto com farinha. Sempre ao sabor de estruturas socioeconômicas perversas e deletérias, lembro daquelas manhãs dos anos 1990. Com o estômago ardendo de fome, no intervalo entre as aulas, observava os colegas comendo pão com queijo (“francesinha”, como era chamada), comprado no carrinho de lanches próximo a escola. Sentir o cheiro daquilo que outros comiam, fazer de conta que eu mesmo estava comendo para enganar a própria fome, ler na biblioteca, ser alvo constante de bullying e capacitismo na escola e entre os parentes...! Em todos esses momentos, sobretudo nos piores, sabia que esses eventos tinham um sentido maior. Ao que parece, é chegada a hora de conferir algum propósito a essa jornada.
Serão sempre diferentes os pontos de partida. Digo isso na pele de um homem negro, hétero-cis-demissexual-monogâmico, nordestino, progressista e tendo as pegadas de Jesus de Nazaré como filosofia. Escrever em parceria com o Soteroprosa abrange essa trajetória. Entre desafios aparentemente insuperáveis, consigo adentrar às palavras e contribuir para a compreensão do momento atual. As condições materiais ainda seguem muito mais cruéis contra as mulheres (cis, trans e travestis). Foi pensando em um futuro mais esperançoso que na infância, com a ajuda da amável professora Cecília, ergui a mão direita no quadro de giz e empunhei as primeiras letras, minhas armas, para enfrentar o empobrecimento imposto por quase 400 anos contra meus ancestrais e que segue como o maior dos abismos sociais brasileiros. Falarei, portanto, do lugar de quem veio desse abismo, daquela criança apontada por todos, entre risadas e pseudobrincadeiras, nas quais eu era chamado de “idiota”, “louco”, “endemoninhado” e “comédia!”. Sou aquele que conquistou o maior sonho sem precisar de aplausos: ajudar pessoas, através da escuta clínica!
Subi pelo despenhadeiro através das oportunidades de uma onda progressista na América Latina, entre finais de 1990 e meados de 2000. Uma ferida purulenta aqui, fechada lá adiante e mais uma cicatriz me levaram à universidade. A aprendizagem naquele espaço tem o preço de enfrentar a branquitude e o corporativismo. Todavia, quando o preço é lutar, algo de valor pode ser conquistado. A alegria abriu o seu sorriso em meados de 2004 e eu hostilizei algo maléfico, contudo, a meus olhos, ainda sem nome. Enfim, eu era um universitário.
Enquanto descia para o restaurante da universidade na qual atravessei a experiência do Mestrado em Psicologia, lembrava dos desafios enfrentados. Para atingir o ideal de escutar o outro como eu gostaria de ser escutado, ameacei a minha própria subsistência, adentrando sem bolsa de estudos, a qual acessei meses depois, com grande alívio. Tudo fora válido: eu não barganhei a minha dignidade, jamais bajulei alguém e tampouco vendi a minha alma para Moloque. Contudo, era 16 de março de 2020, e, por meses, ouvíamos a ascensão de uma doença silenciosa e mortal. Visto como piada por um governo negacionista, o coronavírus se espalhou pelo Brasil, enquanto eu, pensando em estudar e comer, me dirigia, todos os dias, para o espaço dos saberes e sabores acadêmicos. Naquele dia, porém, um aviso, cravado na porta fechada e trancada, trouxe o pesadelo para diante dos meus olhos: o mundo fechava as portas ante o pavor da Covid-19.
Passado o horror das 700 mil mortes no Brasil e dos mais de 7 milhões de óbitos, pensei em um planeta mais democrático e menos desigual. Com o fim do Estado de Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional (ESPII), em maio de 2023, nutri a expectativa de ver Moloque de joelhos, adorando os seus outrora adoradores e passando pelo meio do fogo que ele próprio causara. Infelizmente, eu estava errado. Se para alguns, adentramos a uma era tecnológica inimaginável, é certo que entre compulsivos e viciosos scrolls, estamos imersos em uma pandemia de perturbações psíquicas.
A metáfora moloquiana trouxe mais uma época de escuridão sobre a comunidade internacional. O sintoma acompanha o Homo Sapiens Technologicus: com a Inteligência Artificial (IA) – necessária e eficaz, se utilizada de maneira sustentável – conhecemos também o crescimento da Desinteligência Humana (DH), a Popularização do Ódio (PO), a origem da Ausência de Letramento Emocional (ALE), o surgimento da Ostentação Poluente para Idiotizar Outros (OPIO) e a Difusão do Emburrecimento (DE). Mortos-vivos digitais se esgueiram pelas telas com suas verdades sempiternas, proferidas do mais alto dos xingamentos, na dopamina barata, estragada e mesquinha, adquirida ao estragar o dia alheio. Do outro lado, os intelectuais, instruídos, “bem-nascidos” e que “moram perto”, sempre vivos, da mais alta montanha localizada nas Fossas Marianas – contém ironia – teorizam as realidades nas superfícies planas, sem apresentar uma alternativa viável para quem faz “o corre” pelas mesmas telas. Aqui, não existe espaço/tempo, apenas a subjetividade narcisista, expressa na ausência de velocidade, movimento e consequente depressão. Estamos produzindo o zero absoluto da felicidade humana todas as vezes que curvamos as nossas cabeças para os smartphones. Entretanto, aquele impulso de ser visto a todo custo e de dar uma espiadinha na vida alheia, resultou na mutação do Homus Sapiens Sapiens. O primeiro sintoma dessa metamorfose? O crescimento do suicídio entre jovens.
De acordo com o Ministério da Previdência Social, no Brasil, 11,7 milhões sofrem de depressão, perfazendo 5,8% da população. Somente em 2024, mais de 470 mil pessoas tiveram licença médica do trabalho. Trata-se do maior número em uma década. O motivo? Transtornos mentais, como resultado de escalas de trabalho exaustivas e ultrapassadas, assédio moral, e, sobretudo, ausência de horizonte sobre o futuro. Nesse respeito, a nova versão da Norma Regulamentadora (NR-1), que estabelece as tratativas do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) para os trabalhadores das empresas, ao incluir a prevenção de riscos psicossociais como obrigatoriedade dos empresários, apresenta uma alternativa aparentemente promissora. Longe de ser “a salvação da lavoura”, a NR-1 exige que as organizações gerenciem questões impactantes para a saúde mental dos trabalhos, a exemplo de estresse e assédio. Por outro lado, embora, a partir de 26 de maio de 2026, a ausência dessas medidas seja passível de sanções e até mesmo do fechamento das empresas, as referidas não são obrigadas a contratar um psicólogo para capacitar os trabalhadores e gestores. Em termos simples, na prática, qualquer pessoa que realizar um curso de final de semana sobre saúde mental nas corporações poderá realizar esse trabalho. Essa perspectiva demonstra como a alteração no texto da NR-1, ao mesmo tempo que contribui para a saúde mental no trabalho, também arrisca a massa trabalhadora a ser alvo de profissionais sem a devida formação. Nesse ponto, questiono o porquê de tal coisa ser aprovada nesses moldes. A quantidade de profissionais não-psicólogos, formada de maneira duvidosa, parece responder. Isso sem falar nos psicólogos ultra fundamentalistas, aqueles que impõem suas práticas religiosas no exercício da profissão.
O fato de “Acontecer de eu ser gente, e gente é outra alegria / Diferente das estrelas (Terra – Caetano Veloso)” me leva a observar o entorno. Estamos em um momento no qual a reciprocidade é mínima. Preferimos interagir com as máquinas, afinal, basta um simples comando e elas obedecem. Mais ainda: o algoritmo “lê” nosso pensamento. Basta imaginar uma compra e logo ela aparece no aplicativo. A terceirização do pensamento para organismos cibernéticos tem chegado a excessos e adoecimentos: para enviar uma telemensagem, não é mais necessário descrever o sentimento. Basta colocar algumas palavras-chave e a IA gera um texto lindo e até tocante, mas, sem a reflexão necessária para a construção humana. Isso mesmo, estamos no momento histórico de recusa do pensamento e dos afetos. Amar, antes visto como necessário, se tornou antiquado e na atualidade, é proibido. Permitido mesmo é rolar tela.
Mesmo após o coronavírus deixar de ser uma emergência, encontro pessoas em uma espécie de lockdown interno. Elas compreendem a realidade exterior como feita para satisfazer os seus desejos de maneira imediata. Caso sintam fome, basta pedir comida pelo aplicativo. Se desejam encontrar alguém, é só acessar outro aplicativo. Não é parte desse comportamento ir a um parque e ouvir o canto dos pássaros. A consequência disso se expressa na quantidade de pessoas enfrentando a solidão. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, jovens entre 13 e 29 anos são os mais afetados; após o isolamento social obrigatório na pandemia da Covid-19, eles experimentam a sensação de estar sozinhos. Paradoxalmente a hiperconexão à internet, eles se sentem desconectados de si. Interagir com outras pessoas passou a ser inviável, haja vista a suposta mediação realizável pelas redes, na verdade, ocorrer em forma de diálogos superficiais. Essa hiperconexão dificulta o sono, a atenção e a memória. Estimula pensamentos suicidas. Sequestra a coesão social e o contentamento de ter relações importantes.
Pelo visto, Moloque conseguiu isolar seus adoradores. Ele se aproveitou da organização da sociedade para se fazer mais uma vez presente. Sabendo da existência de muitas cidades com espaços solitarizantes, ele impõe a lógica do like e da lacrolândia: basta apertar o dedinho naquele polegar para cima e postar um comentário agressivo na postagem. Hypar também é uma forma de se fazer presente e ser visto. Tudo isso para fugir do sofrimento, algo necessário para provocar transformações autênticas e crescimentos emocionais indispensáveis. Outros – e não menos importantes – fatores para o aumento da solidão são o racismo e a pobreza. Ainda que o momento histórico tenha marcante presença das militâncias, aporofobia e crimes motivados por ódio étnico-racial são constantes. Vemos Moloque em Salvador todos os dias nos telejornais: quase sempre, é um homem negro que aparece sendo espancado ou levado para a delegacia, acusado de algum crime. Essa superexposição dos corpos negros enquanto conflituosos com a lei, contribui para perpetuar a sociedade de privilégios, voltada para satisfazer o pacto supremacista branco.
A busca por autoconhecimento é uma alternativa viável para enfrentar Moloque. Quem busca dedicar parte do seu tempo diário, para minimamente olhar para dentro de si e compreender as suas próprias peculiaridades, consegue amar a si mesmo, e, consequentemente, a outros. Como Dona Rose, 73 anos, me disse, certa vez, “o celular é uma bomba de Hiroshima”. Isso faz todo o sentido. O 1% mais rico do planeta já não precisa cegar as massas causando eventos estrondosos. Criar um mundo para cada pessoa, acessível na palma da mão, parece suficiente. No entanto, é possível desconstruir Moloque, como veremos no próximo artigo.
IMAGEM: Instituto Liberal



Gratidão, Soteroprosa!