OS PROBLEMAS DA DEMOCRACIA LIBERAL

Este texto propõe uma reflexão sobre alguns dos limites e desafios da democracia liberal.
1 – A falta de políticas de Estado.
2 – O problema do capitalismo e o favorecimento das elites.
3 – A desconexão dos partidos políticos com os valores da democracia e com o povo.
4 – A inabilidade para lidar com políticos autoritários.
5 – O fantasma da religião.
Ponto 1 — A falta de políticas de Estado
As eleições condicionam os rumos dos atores políticos, dos chefes do Poder Executivo e dos membros do Legislativo. Por que as políticas de governo predominam? Porque os políticos desejam sobreviver politicamente. Para isso, precisam maximizar seu capital político, isto é, seus ganhos e sua capacidade de influência.
As políticas de Estado demandam tempo e, muitas vezes, um ciclo eleitoral mais extenso. Nesse sentido, não é preciso muito esforço para compreender que a busca pela sobrevivência política se torna o imperativo para permanecer no jogo. Políticas de Estado, por seu caráter estrutural, mexem com verdadeiros vespeiros, o que pode acelerar o fim de uma gestão e de um grupo político.
Políticas públicas profundas podem gerar grande desgaste para os governos. Do ponto de vista eleitoral, portanto, torna-se mais racional adotar políticas de baixo custo político, de curto prazo e que não confrontem os interesses econômicos das elites.
Ponto 2 — O problema do capitalismo e o favorecimento das elites
Como lidar com as demandas sociais? Como as políticas públicas internas resolverão esses problemas se as questões não são apenas de ordem local? É preciso incluir o capitalismo nessa equação.
Enquanto sistema econômico e social, o capitalismo globalizou-se e passou a interferir nas dinâmicas internas e externas de qualquer Estado-nação. Para o bem ou para o mal, a democracia liberal, com seus princípios de liberdade, não conseguiu dar conta do poder do capital e de suas castas endinheiradas. Essas elites transformaram-se em uma nova aristocracia pós-feudal, dotada de privilégios, recursos e poder muito superiores aos da grande maioria da sociedade, que vive essencialmente para sobreviver — ainda que, para isso, muitas vezes se afogue em prazeres momentâneos anestesiadores.
Ponto 3 — A desconexão dos partidos políticos em relação aos valores democráticos e ao povo
Se adotarmos a tese elitista da teoria democrática, podemos dizer que os partidos, assim como os concorrentes políticos, desejam sobretudo o poder. Este lhes proporciona cargos e recursos para influenciar suas próprias trajetórias.
A ideia original de representação partidária, na qual os partidos deveriam atuar como mediadores das demandas sociais, perdeu-se em algum momento da história. Aqueles que ainda mantêm algum nível de identidade ideológica ou de compromisso com suas identidades e promessas acabam indo para o radicalismo ou extremismo. Muitos deles, contudo, também são absorvidos por interesses pragmáticos na luta pela sobrevivência política.
Ao fim e ao cabo, o que resta é o império da autorrepresentação, em um cenário hobbesiano de luta de todos contra todos, marado pela lógica do “salva-se quem puder”.
Ponto 4 — A inabilidade para lidar com políticos autoritários
Do ponto de vista dos valores liberais e democráticos, as constituições modernas, com seus sistemas de freios e contrapesos, não conseguiram impedir a ascensão de candidatos com tendências autoritárias.
Em outras palavras, as instituições, mesmo quando possuem estruturas burocráticas adequadas aos princípios de impessoalidade, objetividade, transparência e limitação legal, falharam em prever a discricionariedade e as manobras habilidosas de players políticos eleitos, movidos por uma ânsia revolucionária — olhando tanto para o futuro quanto para o passado — e por um espírito disruptivo e aventureiro, características que contaminam uma parcela significativa da sociedade.
Ponto 5 — O fantasma da religião
A frágil separação entre religião e política na esfera pública é uma questão que permanece em constante disputa. Quanto mais a sociedade se apresenta como disfuncional, marcada por graves problemas sociais, a exemplo da fome, violência e desemprego, e quanto mais corruptos parecem ser seus representantes, maior se torna a sensação de que este mundo está colapso.
Nesse contexto, parece não haver mais salvação para a humanidade, pois tudo se apresenta como pervertido e decadente. O elemento transcendente tende, então, a reaparecer. Nesse momento, as figuras políticas alinhadas aos líderes religiosos ganham terreno e força, pois apresentam uma proposta de mudança social sob a égide e a bênção de Deus.
É provável — e aqui deixo uma especulação que exige maior reflexão — que, enquanto existir vida social, independentemente da forma como os seres humanos a organizem, o elemento do mistério/metafísico continuará presente, sobretudo em razão da finitude da vida, das questões éticas e do sentido da existência.
Por fim, essa discussão, quando abordada sob uma perspectiva iluminista ou liberal, pode empobrecer a esfera pública e colocar em xeque a laicidade da política.
E vocês, caros leitores, o que acham?
Imagem: Pixbay


A leitura me deixou pensando em duas referências que talvez possam ampliar ainda mais essa discussão: Quarto de Despejo e Coisa de Rico.
Se, como o texto coloca, existe uma distância crescente entre democracia, representação política e a realidade social, talvez seja interessante perguntar também de onde estamos olhando para essa democracia. Carolina de Jesus nos coloca diante da política vivida no cotidiano, a partir de uma experiência marcada pela pobreza e pela desigualdade. Michel Alcoforado, por outro caminho, ajuda a pensar como a posição social, o dinheiro e os códigos de distinção também estruturam as relações e as oportunidades.
Talvez o problema da democracia não esteja apenas naquilo que acontece dentro das instituições, mas também na distância entre as…