PARA PÔR FIM À VIOLÊNCIA MASCULINA, É PRECISO RESGATAR A MASCULINIDADE PERDIDA
- Miguel Pereira Filho

- 21 de dez. de 2025
- 6 min de leitura

O espaço público foi tomado nas últimas semanas por conta de inúmeros casos de violência contra mulheres, dos piores tipos de sortilégios, que mais uma vez trouxeram à baila o tema da violência de gênero. Casos aterradores, porém não menos recorrentes, nos dão a sensação de que — nos termos utilizados pelos veículos de imprensa — vivemos uma epidemia de feminicídios.
Os dados sobre violência contra mulheres têm a peculiaridade de estarem marcados pelo signo da subnotificação: segundo dados combinados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) e da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2024, a violência contra mulheres no Brasil alcançou 98,5%, 75,9% e 89,4% para as violências psicológica, física e sexual, nessa ordem. Assim, o efeito amplificador que determinados casos passam a ter, embora nos relembre dessa chaga social, sequer arranha a superfície do volume de ocorrências que se acumulam diariamente. Não é apenas diferente; ao vivo, a vida é realmente muito pior.
Sempre que esse assunto emerge nas minhas aulas, é notório como números coletados e dimensionados se tornam irremediavelmente concretos, quando os casos de violência passam a tomar rostos, nomes e trajetórias. Não obstante, toda vez que, utilizando a história como referência, argumento que o processo de emancipação feminina no mundo ocidental é irrefreável, meu otimismo de inspiração tocquevilleana quase sempre se transforma numa vaga que se choca, de maneira infrutífera, contra um quebra-mar quase intransponível, firmemente alicerçado na experiência real de mulheres que não concordam.
Por mais que se reconheçam os avanços obtidos ao longo dos últimos séculos, a reiteração da violência de gênero — sobretudo a violência contra a mulher — nos transmite a sensação de regressão. No plano dos afetos, é difícil que qualquer perspectiva histórica sobreviva à dureza da barbárie continuada. Nesse sentido, embora o aprimoramento de políticas públicas tenha sido essencial no enfrentamento do problema, ele se mostra insuficiente — quando não inócuo — se continuarmos a ignorar um de seus pilares fundamentais: a cultura permissiva na qual homens, principais agressores, são socializados e que naturaliza formas de dominação. Se é verdade que o Brasil historicamente recorreu ao Estado para regular relações numa sociedade cindida pela desconfiança, é na sociedade civil que se encontra o grande enclave.
Antes de prosseguir, é necessário retirar alguns bodes da sala. O primeiro deles diz respeito ao chamado “lugar de fala”. Extraído de desenvolvimentos interpretativos do importante trabalho de Gayatri Spivak, Pode o subalterno falar?, o conceito deslocou-se de uma valorização da experiência como dimensão interpretativa da realidade para um dispositivo de silenciamento, que subtrai a possibilidade da perspectiva em nome de um suposto privilégio discursivo — e, por vezes, de exercício de poder — nos espaços dominados pelo identitarismo progressista. Não venho aqui falar em nome das mulheres; muito pelo contrário, é sobre nós, homens, que esta conversa se dirige.
Em segundo lugar, embora concorde com o diagnóstico de que a forma como a masculinidade se expressa — sobretudo sob o patriarcalismo — é um mecanismo central de reprodução da dominação, o que me inquieta é a maneira como o debate costuma ser conduzido. Certa vez, ao vagar pelas redes sociais, vi um vídeo em que uma moça perguntava a diversos homens o que pensavam sobre a violência contra mulheres. Todos reconheciam o problema. A pergunta seguinte, no entanto, propunha um cenário alegórico em que não houvesse mais homens, indagando se, assim, o problema estaria resolvido. Ainda que metafórica, a formulação conduz a um raciocínio inócuo, pois naturaliza a violência masculina como algo intrínseco. Sim, entre o capeta e um homem numa rua deserta, toda mulher prefere cruzar com o capiroto — mas a extinção masculina não é resposta. Em termos amplos, seria como imaginar que a homofobia ou a transfobia se resolveriam com o fim dos heterossexuais.
É justamente nesse ponto que se impõe uma reflexão sobre o próprio feminismo. Embora seja um movimento de relevância histórica incontornável, ele será sempre numericamente minoritário. Mudanças efetivas exigem que ele se desdobre também como instrumento de articulação política e de convencimento daqueles que ainda podem ser convencidos. E, nesse sentido, a forma do discurso importa. Tratar cada homem como um predador em potencial pode até parecer logicamente defensável — o que já é, por si, discutível —, mas é politicamente inócuo. Em vez de produzir transformação, cria fossos onde seria necessário construir pontes. Esse raciocínio não se aplica apenas à questão de gênero: a própria transição democrática brasileira só foi possível porque contou, gostemos ou não, com ex-apoiadores do regime autoritário. A história raramente avança por conversões em massa; ela se move por deslocamentos parciais, pactos imperfeitos e rearranjos incômodos.
O ponto, portanto, é compreender quais componentes sociais e históricos favorecem a formação de homens violentos — uma violência que, no limite, vitima a todos. Somos os que mais matam, os que mais morrem e os que mais se suicidam. É imprescindível encarar um elemento central dessa equação: o quanto ressentimento e frustração se tornaram combustível da violência masculina. Embora não constituam explicações unicausais, ajudam a revelar como o discurso misógino se tornou pedra de toque para a aglutinação de grupos abertamente violentos, dispostos a ver na mulher a raiz de todos os males.
Num mundo em que a esfera produtiva passou por transformações profundas, o trabalho braçal cede espaço às máquinas, que usurparam a centralidade da mão de obra típica do chão de fábrica. Em 2020, o Fórum Econômico Mundial indicava que as máquinas responderiam por 47% da divisão do trabalho, restando aos humanos 53% das atividades — números que sequer contabilizavam o advento das inteligências artificiais. O homo faber, tão bem descrito por Hannah Arendt, tornou-se apenas um decalque, sombra de um passado que não retornará.
Hoje, homens já não consertam os próprios carros: a imagem do fusca desmontado na garagem cede lugar a uma interação mediada por computadores que dizem o que fazer, quando e como. Para além da perda objetiva de postos de trabalho, cresce a sensação subjetiva de descartabilidade. A isso soma-se a emancipação feminina, processo secular que impôs um golpe decisivo à fantasia masculina de centralidade inquestionável. Não se trata apenas de dividir espaços profissionais ou submeter-se à chefia de mulheres, mas de aceitar que a figura da mulher pura e angelical nunca existiu senão como signo vazio. Mulheres são plurais, desejantes, ambiciosas, humanas. Para muitos homens, lidar com essa realidade equivale a enfrentar uma esfinge: decifrá-la ou ser devorado.
A conjugação desses fenômenos — automação e emancipação feminina — dimensiona a crise da masculinidade contemporânea. Se ele não é mais indispensável na fábrica e já não ocupa o centro do imaginário doméstico, o que resta? Proliferam, então, espaços onde o ressentimento é cultivado. Grassam pela internet grupos misóginos, enquanto fantasias de poder substituem projetos reais.
Basta observar o ideário masculino dominante: academias lotadas, músculos criados para nada; a obsessão com super-heróis, símbolos de um poder que ninguém possui. Politicamente, essa frustração alimenta movimentos de extrema direita. No Brasil, não faz muito tempo, “programa de macho” para mudar a política era fazer motociata e gritar que era imbrochável. Patético, mas profundamente sintomático.
Talvez o erro esteja em supor que a masculinidade em si seja o problema, e não a forma como seus afetos foram historicamente administrados. Em Ira e Tempo, Peter Sloterdijk mostra como as sociedades modernas aprenderam a armazenar a ira, canalizá-la e investi-la politicamente como capital afetivo. A modernidade não suprimiu a cólera; organizou-a. O que vivemos hoje é o colapso desses dispositivos de contenção, com o retorno da ira em estado bruto.
Quando canais tradicionais de sublimação — trabalho, política, promessa de ascensão — se esgotam, a ira perde forma e se converte em ressentimento. Nesse vazio, a mulher emerge como alvo privilegiado, não por acaso, mas porque sua emancipação coincide com a falência das promessas que sustentavam a autoimagem masculina.
O erro do debate público é tratar esse fenômeno apenas em chave moral. Sloterdijk é claro: não se governa uma economia afetiva apenas com proibições. A repressão não dissolve a ira; apenas a empurra para zonas mais regressivas. Uma sociedade que abdica de oferecer formas legítimas de elaboração da cólera acaba sendo governada por suas expressões mais violentas.
Isso não invalida políticas de repressão à violência contra a mulher, mas aponta seus limites. A masculinidade precisa ser reconfigurada como problema político, não apenas identitário. Talvez seja necessário, como sugere Sloterdijk ao retomar o thymós homérico, hackear o imaginário masculino: transformar a força em responsabilidade, a potência em proteção.
Retomar a masculinidade, assim, não é restaurar privilégios, mas aceitar a tarefa de sustentar a descentralização sem desejar incendiar o mundo. Enquanto essa travessia não ocorrer, a violência seguirá sendo tratada como caso de polícia, quando é também falha de imaginação política. Retomar a ira, nesse sentido, não é glorificá-la, mas reinscrevê-la como potência orientada à construção de um mundo comum.
Referências bibliográficas:
ARENDT, Hannah. A condição humana. 11. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2014.
FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL. The future of jobs report 2020. Geneva: World Economic Forum, 2020. Disponível em: https://www.weforum.org/reports/the-future-of-jobs-report-2020. Acesso em: 19 dez. 2025.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa Nacional de Saúde 2019: acidentes, violências, doenças transmissíveis, atividade sexual, características do trabalho e apoio social. Rio de Janeiro: IBGE, 2020. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv91110.pdf. Acesso em: 19 dez. 2025.
INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa Nacional de Saúde: 2024. Rio de Janeiro: IBGE, 2024.
NETFLIX. Adolescência. Série de televisão. Estados Unidos: Netflix, 2023–.
SLOTERDIJK, Peter. Ira e tempo: ensaio político-psicológico. São Paulo: Estação Liberdade, 2012.
SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.



Excelente. Ainda não tinha refletido por esse viés e é muito pertinente. Ótima crítica a lugar de fala e das representações políticas da construção imaginária da masculinidade
Exímia reflexão.