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PENSAR PARA TRANSFORMAR: comentários sobre a série catalã Merlí (2015-2018)





Merlí Bergeron é um professor de filosofia pouco ortodoxo e com uma forma especial de explicar a filosofia em classe, através de uma comunicação própria e da liberdade relativa de conteúdo. “Merlí”, série catalã que foi ao ar pela Netflix entre 2015 e 2018, trata da história do professor Bergeron durante o curso das aulas ministradas ao longo do ensino médio de uma das turmas do Angel Guimerà, um colégio público da cidade de Barcelona na Espanha. A série se desenrola entrelaçando as lições de Merlí na turma com a vida cotidiana dos seus alunos dentro e fora da escola, dentro de um universo que une a filosofia e a vida cotidiana, com seus dilemas, seus problemas, suas alegrias e frustrações. Até hoje, mais de 5 anos após a sua estreia, a produção catalã continua sendo citada e recomendada por muitos (dentre os quais me incluo).


Os episódios são divididos pelas lições de determinados filósofos, e neles, esse entrelaçamento entre as aulas do professor Merlí e os dilemas dos seus alunos nessa fase final da adolescência fica muito claro, e é isso que dá uma beleza à série. Mostrou uma face da filosofia que a mim não me era muito clara, isto é, a materialização prática, cotidiana, real, daquelas ideias, discussões e pensamentos, especialmente transmitidos de forma tão sedutora e magistral. Esse último aspecto, inclusive, é um elemento de rivalidade entre Merlí e Eugeni, este um professor rígido e avesso à heterodoxias, isto é, resistente a novas formas de ensinar.


Nesta série conhecemos as histórias de Pol, Iván, Bruno, Gerard, Marc, Tania, Berta, Mónica, Joan, com seus dilemas, desejos, pensamentos, atitudes, que sempre estão em constante diálogo com o que o professor Bergeron ensina em classe. Há um destaque especial para Pol, que se converte no aluno preferido de Merlí, mudando totalmente a sua postura de um aluno despreocupado para um interessado e dedicado, especialmente em relação à filosofia. Essa relação entre Bergeron e Pol é muito interessante para pensar sobre os chamados ‘alunos-problema’ e a sua relação com os professores e o sistema de ensino. Será mesmo que esses indivíduos são uma “causa perdida”? Há controvérsias.


Questões como repressão e liberdade, ética, justiça, desejo, amor, tristeza, mentira, dentre outras, são trabalhadas em toda a série, inclusive no que se refere à vida privada do próprio professor Bergeron que sucessivas vezes se encontra numa encruzilhada moral e ética, o que mostra a dimensão humana não apenas dele, mas de todos nós. Todos nós erramos, nos equivocamos, interpretamos erroneamente as coisas, mentimos, ocultamos, cometemos injustiças, ou seja, somos imperfeitos. E a filosofia serve justamente para que essas imperfeições sejam corrigidas pela reflexão, pelo pensamento e pela observação. Merlí mostra que a filosofia tem um poder inimaginável sobre a vida das pessoas, abrindo possibilidades, curando feridas, estimulando um convívio harmônico, intervindo na realidade concreta.


Impossível não fazer uma correlação, já que a série abre precedentes para que nós façamos paralelos sobre vários fatos da nossa realidade social, entre o ensino de filosofia (e de alguma forma também da sociologia), por exemplo, e o novo currículo do ensino médio aprovado no governo de Michel Temer, em 2017. Essa reforma, do ponto de vista da sua concepção, implementação e desempenho, representou um retrocesso gravíssimo não somente para os professores, especialmente os de filosofia e sociologia, mas principalmente para os alunos da rede pública que perderam conteúdos absolutamente essenciais não somente para o futuro acadêmico e profissional, como também para o seu desenvolvimento pessoal e suas relações sociais. A quem interessa matar o pensamento e a reflexão? A quem interessa o discurso de que as ciências humanas de nada servem? Por que ‘pensar’ causa estranheza? São perguntas honestas para nos ajudar a entender o atraso educacional do nosso país.


Sem dúvidas, por tudo que apresenta tanto do ponto de vista filosófico quanto do ponto de vista do senso comum, da vida ordinária e rotineira, é uma série para ver e rever, porque as lições e aprendizados a serem adquiridos são muitos. Ela é uma verdadeira ‘homenagem’ ao que a filosofia tem de ser, e talvez por isso hoje se encontre ameaçada: uma ferramenta de transformação pessoal e social, isto é, transformação do indivíduo como tal e como membro de uma sociedade cheia de contradições, felicidades e tristezas. E ainda: ela é uma defesa contra a ignorância e a condenação do ato de pensar, pregando um justo uso do bom senso.


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