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“PODE CHAMAR LULA DE LULY?” O DIA EM QUE FUI CANCELADA NO TWITTER



No dia 3 de janeiro de 2023 recebi uma enxurrada de comentários no twitter, muitos com teor de ódio porque respondi ao tweet do cineasta pernambucano Juliano Dornelles, um dos diretores do filme Bacurau (2019) em que ele dizia: “Alô pessoal, não é "luly" nem "Lila" nem "luli" nem qualquer outro nominho "engraçadinho", beleza? É LULA, o nosso Presidente.” Prontamente ao ver o tweet, repliquei: “A questão é: chamar de nomes fofos pode esvaziar a importância dele no discurso, mesmo que o interlocutor seja apoiador. Quem é de fora pode não entender/não compreender sua grandeza. 1ª vez q li n tinha entendido, mas dps percebi de quem se tratava. É um cuidado com o discurso.” Em seguida, ele respondeu: “Pessoas inteligentes, vocês existem e são muito importantes pra mim. ❤️”


A partir daí o caso tomou uma proporção inimaginável, pelo menos para mim, nunca recebi tanta reply e tanto ódio na minha conta. Até o momento em que escrevo esse texto foram mais de 82 mil visualizações na minha resposta além de uma página que printou o diálogo e deu mais de 100 mil visualizações. Mas antes de ir para os comentários, vou afirmar primeiramente o que penso sobre não chamar Lula de "Luly". Parece um deboche dizer para não colocarmos apelidos no presidente, porque sempre colocamos apelidos nos presidentes desde que mundo é mundo. Mas acabamos de sair de um desgoverno que todo mundo tinha apelidos e eles mesmo esvaziavam seus próprios nomes. Dar nome aos bois, como diz o ditado. É preciso nomear para que não se caia no obscurantismo.


Lula é um presidente e merece ter seu nome reconhecido como tal. Por ele ser uma pessoa camarada realmente não faz o perfil dele se incomodar com o apelido, apesar de não sabermos sua opinião, ainda assim ele tem muito o que fazer para se preocupar com isso. Mas poderíamos dizer que ele não se incomodaria, até porque o próprio nome “Lula”, que depois ele oficializou, surgiu de um apelido. Sei que muitos que o chamam de “Luli”, “Luly”, “Layla”, “ Janjo” ou o que quer que seja o fazem de forma carinhosa. Muitos que estão utilizando são jovens gays, inclusive alguns comentários apontavam para o uso por esse público. Principalmente os mais novos tem utilizado como uma forma de brincar com o nosso Presidente, uma forma carinhosa de se referir a ele, e isso é lindo, porque demostra proximidade, mas é preciso ter cuidado e foi a isso que apontei nos comentários que recebi e na própria resposta ao Juliano Dornelles.


Outras pessoas que viram o tweet responderam que essa era uma forma de esconder o nome de Lula do algoritmo para que assim grupos bolsonaristas, ou anti-Lula não achassem conteúdos sobre ele. O que é totalmente válido pensando nos ataques que vimos nesses últimos quatro anos de anti-governo, até poque muitas vezes não me referi ao Bolsonaro como tal para evitar contato com o hate das redes. Além dos comentários da esquerda ( que também resvalou em ódio) meu comentário chegou na extrema direita, esses disseram que deveriam chama-lo de Pinguço ou de Mensalão, ou seja, o próprio comentário resposta que fiz atravessou a bolha jovem e gay que só queria brincar e ser carinhosa com o presidente .


Muitas pessoas comentaram que o apelido não iria esvaziar a posição do presidente e é verdade, tanto que no meu comentário eu digo da importância do discurso sobre ele e não da posição dele. Nos comentários que percebi a intenção de um diálogo, algumas pessoas trouxeram os argumentos que afirmei nos parágrafos anteriores, embora eu já tivesse ciência - afinal o que dá para aprofundar em pouco mais de 200 caracteres?- Elas diziam: “mas o apelido não vai sair da bolha do twitter”, ou que era só apelido carinhoso dos jovens. Bem, não vamos esquecer quantas coisas já saíram de bolhas ( de twitter e outras redes socias) e tomaram proporções maiores do que deviam, o próprio Bolsonaro era uma piada de um extinto programa de humor noturno ( o CQC) até deixar de ser e se tornar o tirano que foi e ter causado os males que causou.


De fato, um dos meus argumentos era de que esse apelido poderia ser cooptado por opositores e utilizado como deboche, ironia, ofensa. Ou até mesmo como: “Nem os próprios apoiadores de Lula (substitua aqui um apelido maldoso) o respeitam e o chamam de Luly.” O contra-argumento que recebi é que os opositores, principalmente os bolsonaristas, teriam apelidos piores para dar e não utilizariam "Luly", o que não deixa de ser verdade. Mas, a minha intenção em todo esse imbróglio foi chamar atenção sobre o perigo do deslocamento do nome do Lula em um momento ainda delicado de início de Governo em um país totalmente rachado ideologicamente.


Dito isso vou para a parte dois do meu texto, os comentários que recebi. Nunca tinha recebido tanto hate na internet e tive um gostinho amargo de estar do lado de cá do cancelamento, a forca da internet. Os comentários mais básicos (claro que estou sendo irônica aqui) envolviam: “vai dar meia hora de cu”, “não tem louça pra lavar?”, “vá se ocupar”, “vá chupar uma rola” e por aí vai. Comentários extremamente machistas, alguns até proferidos por mulheres. O que o machismo estrutural não faz, né? Também recebi comentários de pessoas dizendo para eu me matar e até memes com gestos de “dar o dedo” ou com gifs de indignação. Os menos pesados foram aqueles que brincavam com o próprio apelido "Luli", como uma forma de deboche ao meu comentário, admito que até ri de alguns.


Sobre os comentários, principalmente os que classifiquei como mais pesados, posso dizer que de fato estamos vivendo uma crise argumentativa e a agressão pessoal ultrapassou limites. Mais uma vez é necessário que se regule as redes, porque aparentemente as pessoas chegaram num ponto de agressão enorme, incontornável. Talvez seja necessária uma cartilha de educação das redes e Leis são imprescindíveis. Tenho vinte e quatro anos e cresci com a ascensão das redes sociais, Msn, Orkut, vi o twitter e o facebook surgirem.


Lembro do boom do: formsgpring.me, ask.fm, da ferramenta de anonimato do tumblr e outras ferramentas que permitiam a ocultação da identidade e a partir daí um aval para dizer o que quiser. Só me veio a cabeça as fantasias dos personagens da franquia Uma noite de crime. Nas redes sociais parece que estamos em looping dentro desse filme. No twitter o anonimato aparece com fotos de perfis de personagens e nomes que não são verdadeiros dando um aval para o crime desmensurado. Poderia dizer, vou processar essas pessoas, mas não vou fazer isso, embora pudesse em alguns comentários.


Sei que a Internet, essa que parece terra sem lei, amanhã vai esquecer do meu comentário e outra pessoa entrará na forca. A Juliano digo, sinto muito querido por você também ter sido xingado nessa celeuma, logo você que luta tanto por direito de expressão é julgado exatamente por se expressar. Eu e você pessoas que lutam pela cultura e a educação, sinto muito. Aos que incitam o ódio, se vocês realmente não corroboram com a ideologia do governo anterior está na hora de pensar nesses atos torpes, afinal, só haverá democracia quando alcançarmos o diálogo, independentemente de você chamar o presidente de “Luly”, “Layla”, “Luli”, “Leyla”, “Janjo” ou o que for. Nada contra apelidos, não sou dona da verdade e nem sabichona, mas hoje fico com Lula, por respeito e empatia pelo próximo e por reconhecimento da sua posição.



Foto de capa: print do twitter feito pela própria autora.


Para detalhes, o próprio tweet: https://twitter.com/realjacdemais/status/1610297966736150529

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