POR QUE PENSADORAS TRANS ODEIAM FEMINISTAS LIBERAIS?




Nas fronteiras confortáveis de uma democracia liberal como a nossa, é comum que o liberalismo penetre as várias dimensões da nossa experiência, até mesmo aquelas mais invisíveis, espontâneas e pré-reflexivas. Se você pensa no “liberal” como uma figura bizarra da direta, um defensor fervoroso de um descentramento do estado na economia, e da iniciativa individualizante de figuras dispersas, é preciso reavaliar suas definições. E se, por acaso, “o liberal” estiver aqui, ou aí na sua casa, no seu livro, na sua escrita... na sua linguagem?


Parece meio óbvio que esquerda é sinônimo de “emancipação”, certo? Quem não quer ser emancipado? Quem não quer se libertar das garras do artificial, do falso, do engano, do erro, da mentira, do ilusório? Essa palavra parece tão comum, espontânea e até mesmo autoexplicativa, embora muitos não entendam bem sua origem e até mesmo os possíveis perigos em seus bastidores. A “emancipação” é vista, normalmente, em seu sentido liberal, como sinônimo de independência, maturidade e autonomia, ao sugerir ao mesmo tempo um dualismo entre o “Indivíduo”, apresentado como o espaço verdadeiro, legítimo e puro, de um lado, e do outro as “Instituições”, apresentadas quase sempre como farsas, enganos e mentiras. Filmes, séries, novelas, e até comerciais de TV, trazem essa noção mais liberal do termo, sendo, inclusive, aquilo que muitos entendem por “lutas identitárias”. Butler, com destaque aqui a uma das suas mais interessantes palestras (“Trouble with Gender, Care and Violence”), questiona justamente essa versão liberal apresentada como óbvia e inevitável, ou seja, questiona essa proposta de um sujeito independente, originário, confiável, na medida em que oferece a “interdependência” como um substituto.


No instante em que a dominação é quebrada, no momento de sua implosão, o que se encontra no final do túnel não é o “meu verdadeiro eu”, não é uma criatura super incrível e onipotente, não é um “núcleo” puro e confiável, mas uma rede complexa e frágil de relações. O corpo trans, de acordo com Butler, segue por esse caminho tenso, custoso, mas criativo. Já que não é nem cultura nem natureza, nem instinto nem discurso, nem biologia e nem linguagem, o corpo trans se apresenta como uma rede contínua e complexa de relações. Ao invés de um fato, de uma essência, ele é visto por Butler como uma negociação constante, algo que ultrapassa os limites não apenas do biologismo, mas também do próprio construtivismo social.


Corpos trans clamam por conexão, precisando sempre manter, reproduzir e costurar os limites da própria identidade, envolvendo toda uma rede de experiências que o sustenta, como, por exemplo, uma série enorme de profissionais, como psicólogos, urologistas (ginecologistas), dermatologistas, farmacêuticos, nutricionistas, etc. O corpo trans, ao menos aqueles transicionados, seguindo o modelo de Butler, é uma negação direta do sujeito liberal, de sua autossuficiência, de seu “empoderamento”, na medida em que esse corpo é visto como uma rede constante de relações, um fluxo negociador que jamais finaliza, jamais encontra um repouso metafísico, seja na natureza ou na cultura. Sem os acompanhamentos, sem os hormônios tomados periodicamente, sem os cuidados com seus efeitos colaterais, sem as conversas, sem as parcerias, sem a constante vigilância e contato, o corpo trans não existe.


Esse pedaço de matéria em movimento não é nem biologia nem sociologia, nem natureza nem cultura, mas “a condição anônima – e crítica – do ser humano, visto que fala a si mesmo nos limites do que pensamos e sabemos” (Butler). Quem tem amigos trans, como eu, e acompanha um pouco de suas jornadas identitárias, percebe o quanto o desafio não são apenas os ataques transfóbicos, e as demais investidas externas que se apresentam, mas a própria identidade enquanto tal já é um longo e doloroso percurso, um movimento complexo e tenso. Não existe de um lado “os obstáculos sociais e institucionais”, e do outro “a estabilidade e essência de um eu legitimo”. Esse modo de ver as lutas identitárias apenas reproduz o clássico liberalismo que atravessa o campo político de esquerda. Em outras palavras, quando superamos “a violência de uma sociedade esmagadora”, NÃO descobrimos um paraíso metafísico e perfeito chamado “eu”, mas um caminho dinâmico, complexo e em constante negociação. O corpo trans é uma tarefa, um trabalho, e não uma conquista, uma descoberta. Como diria Butler, ao sair do corpo frágil da dominação, e de suas estruturas opressoras, entramos em um novo corpo frágil da resistência, sendo agora uma fragilidade especial, importante e necessária. Uma nova fragilidade que nos conecta, que nos une e que nos salva. Uma fragilidade nada arrogante, mas que reconhece seus limites e sua própria dependência de outros corpos.


Por isso que não existe nada mais conservador do que o conceito de “empoderamento”, ao menos como é compartilhado nas redes sociais e até mesmo na grande mídia. Nesse circuito dessa nova indústria cultural, mulheres empoderadas significa mulheres independentes, mulheres que ultrapassaram as instituições, seus limites, seus obstáculos, acolhendo um tipo de essência confiável chamado “eu”. Mulheres empoderadas, na verdade, é apenas uma versão alternativa do “self-made man”, apenas um resquício ideológico de um capitalismo que pulveriza, descentra e dispersa os corpos. Não é surpresa que o feminismo queer de Butler, assim como o feminismo negro de figuras como Patrícia Collins, são completamente desconfiados do modelo identitário liberal defendido por muitos lá fora, aquilo que chamo de “esquerda liberal”, ou seja, a esquerda que aparece no seu televisor quando você assiste o caldeirão do Hulk ou as dezenas de programas “identitários” que passeiam pela rede Globo e suas propagandas publicitárias.


Não precisamos de corpos emancipados, mas de corpos conectados. Não precisamos de corpos independentes, mas interdependentes, na medida em que reconhecem suas limitações, suas parcerias, suas falhas, suas crises, sendo o corpo trans, segundo Butler, um claro exemplo de uma identidade que está além da polarização natureza e cultura e, principalmente, do abismo entre indivíduo e sociedade. O corpo trans é um exemplo de que a nossa experiência é complexa e dinâmica, e não apenas uma simples resposta vinda de alguma palavra mágica: CULTURA, NATUREZA, DIVINDADE, DISCURSO, BIOLOGIA... ETC. Precisamos de corpos que desafiem formulas prontas, discursos confortáveis, que ultrapassem até mesmo o liberalismo da nossa vida cotidiana, dos nossos gestos mais sutis.


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