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POR QUE SOU PSICÓLOGO?

Quando, em uma segunda-feira, 27 de agosto de 1962, o presidente João Belchior Marques Goulart (1919-1976) regulamentou a psicologia no Brasil, através da Lei 4.119, ele finalizou décadas de monopólio dos médicos sobre psicodiagnósticos e atendimentos psicológicos. Todavia, Jango – que foi assassinado pela Ditadura Civil-Militar de 1964, de modo sutil e covarde – certamente desconhecia o crescimento exponencial de formações, no mínimo, duvidosas, nas quais “terapeutas” adquirem uma titulação suficiente apenas para reproduzir violências na clínica e pseudopsicólogos aplicam práticas apartadas da ciência, a exemplo da famigerada constelação familiar. Ante esse cenário histórico, pergunto quais

razões me tornaram profissional deste campo, sobre o qual ainda pairam descrença e estereótipos diversos; para muitos, quem procura terapia com um psicólogo é louco.


Até 2004, eu jamais havia tido contato com a psicologia. Naquele ano, os sintomas de uma infância ao lado de uma genitora tóxica passaram a se manifestar. Imerso em profunda crise existencial, busquei ajuda médica, sendo encaminhado para atendimento psicológico. Algo mudou minha percepção acerca de mim mesmo. A partir das poucas sessões, comecei a sentir alterações positivas no comportamento, melhor disposição para o trabalho e para os estudos – dois epicentros da minha existência – e o gosto pela própria companhia. O que era desesperador se tornou um oásis e eu passei a compreender como é gostoso desenvolver autoestima! Por se tratar de um serviço público, tive sucessivas trocas de profissionais, mas, ainda assim, eu sentia progresso. A concentração havia retornado e voltei a ler, tendo contato com os textos de Sigmund Freud (1856-1939). Era o componente que faltava para tomar a decisão mais importante da minha vida: ser psicólogo. Após me aconselhar com alguns colegas da Licenciatura em Letras com Inglês (Universidade do Estado da Bahia, DCH–I UNEB), decidi concluir primeiro esta graduação, para, daí em diante, seguir rumo aquela que seria minha maior conquista. Com a saúde mental recuperada, eu tinha o sonho de levar a outros o que foi trazido a mim: autoconhecimento!


Os caminhos, no entanto, foram desafiadores. Em 2009, ao concluir Letras, tentei cursar psicologia em uma instituição privada, o que se mostrou inviável, por razões financeiras. No ano seguinte, meu amado pai morreria em um leito do Hospital Geral Roberto Santos (HGRS), contudo, me incentivando a prosseguir os estudos. Ao mesmo tempo, uma relação amorosa se encerrava após quase 5 anos. Entre outros fatores, escutei a seguinte frase da moça em questão: “você não vai ser psicólogo nunca! Você vai ser psicolocu”. Hoje, relembrando este momento, eu a “compreendo”: era muita ousadia para um homem negro, favelado e que enfrentara a miséria e a fome, caminhar para uma segunda graduação, sobretudo, um Bacharelado em Psicologia, historicamente brancocêntrico. É assim que setores da classe média e das camadas dominantes ainda pensam: para eles, não podemos sonhar. A despeito das palavras desrespeitosas, encontrei ali ainda mais motivação para atingir meus objetivos.


Ante a morte do meu pai – aquele a quem mais amo – e o término deste relacionamento, decidi mudar de cidade. Fui morar com Eva, minha cachorrinha, em um quarto nos fundos de uma casa próxima a escola em que lecionava. Éramos só nós dois, haja vista eu decidir me afastar dos parentes, os quais já sabiam do meu sonho, discordavam e desacreditavam dele. Coloquei em prática algo aprendido com meu pai: ouvir rádio. E foi em um sábado de 2010, sentado na porta do quarto, com o celular no viva-voz e os fones de ouvido servindo de antena, que escutei uma frase mais ou menos assim: “Vestibular UNEB: agora com Psicologia”. Meu coração acelerou! Decidi ser aprovado; após estudar bastante e fazer as provas, eu estava de volta à UNEB. O sonho ainda tomou um contorno mais especial:

ser estudante da primeira turma de Psicologia daquela instituição.


Mais desafios me aguardavam. Lecionar pela manhã, frequentar as aulas pela tarde e lecionar a noite era extremamente cansativo. À noite, inclusive, eu tinha que tomar 3 ônibus para chegar em casa. Aos finais de semana, estava com pilhas de cópias de livros para estudar. Em nenhum momento, porém, pensei em trancar o curso. Levei mais tempo para concluir, mas, no início de 2020, eu já era psicólogo, atuando e aprovado no Mestrado em Psicologia. Com a pandemia e as dificuldades inerentes àquele período, talvez para muitos, parecia uma insanidade prosseguir. Eu estava exausto! Neste momento, surgiu aquela a quem dedico este artigo: Ana Dalva Damacena da Silva (CRP–03/18473), minha psicóloga. Ela me ajudou na retomada da certeza de vitória, mesmo em cenários pouco prováveis, como aquele que eu vivera em 2010. E com o seu suporte, me tornei Mestre em Psicologia, pela Universidade Federal da Bahia (PPGPSI/UFBA).


Muitos embates ainda nos aguardam. As lutas contra o fascismo e pela jornada de 30 horas, a contínua desvalorização praticada por planos de saúde e plataformas e o momento histórico de desprezo pela ciência, tudo isso apenas serve para seguir adiante, cumprindo a minha tarefa maior: servir! E com amor!


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2 comentários

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Denilson
há 7 horas
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Muito bom! Prossiga na caminhada!!

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Januário
há 2 dias
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Gratidão!

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