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POR QUE UM GOVERNO PENSAVA EM ACABAR COM A DEMOCRACIA LIBERAL?




Com as investigações em curso pela Polícia Federal, está cada vez mais claro que o governo anterior do Brasil tinha planos golpistas. Gravíssimo! E isso incluía políticos e militares, da ativa e reserva. A ver o fim disso tudo. Vários fatores conseguiram interromper a sanha golpista de Bolsonaro, Braga Neto, Heleno e companhia.


Mas quero entender: por que existiu um governo, um grupo de civis e militares, que queriam golpear a nossa Democracia? Há diferentes formas de responder essa questão. Eu quero puxar um fio. Vejo tudo isso como sintoma social: fragilidade das instituições republicanas (o que inclui corrupção, fisiologismo ordinário por parte dos políticos, morosidade, ineficiência no funcionamento da máquina pública), incapacidade do capitalismo em resolver os problemas sociais e, por fim, os complexos aspectos identitários e culturais atuais.


Sobre o primeiro ponto, o ônus da democracia liberal é a impossibilidade de desenvolver projetos a longo prazo para qualquer país. Via de regra, importa para os políticos a busca da reeleição. Esse é o front de batalha. No caso do Executivo, o limite de mandato também é impeditivo para pensar em projetos duradouros. Isso é complicado. Troca de governo: tudo muda. Não há planejamento para 15, 20, 30 anos. Tudo desmorona em um mandato, ou no meio dele, afinal de contas o Presidente precisa ficar agradando o Parlamento, ou aos líderes das Casas Legislativas e líderes partidários com cargos e benesses. É sempre um roteiro insano. Não à toa surge tantos casos de corrupção entre políticos e empresários. Como gestor, você tem que fazer pactos com gente de todo tipo, incluso pessoas de trajetória duvidosas.


Em relação ao segundo ponto. No capitalismo, as barreiras geográficas, políticas, culturais e étnicas não podem ser impeditivas para a reprodução e circulação do capital. Quanto menos cercas, melhor. Mas a questão é que esse sistema econômico não conseguiu resolver a pobreza, a miséria e o desemprego mundo afora, pois isso é estrutural. A concentração de renda e riqueza está cada vez maior em uma pequeníssima fatia da população. Poucas pessoas entenderam que o sistema em vigor não vai resolver, em definitivo, tais problemas sociais. Pior: a tendência é que a mão de obra seja cada vez mais robotizada. O que vai gerar desempregos cada vez maiores, pessoas inutilizadas. A ideologia liberal é que ainda mantém, ingenuamente ou não, o conto de fadas para a população sobre a utopia do capitalismo: fim das mazelas e o rico mundo de oportunidades infinitas para esforços individuais.


O terceiro ponto inclui o primeiro e o segundo ponto. A questão da identidade. Em especial, refiro-me à extrema direita e direitas alternativas. A identidade aqui é pensada como uma questão moral. A política e o capitalismo passam a ser subordinados a um horizonte que inclui valores universais, como nacionalismos, religiosidades, etnias particulares, patriarcado, heterossexualidade, cisbinarismo, supremacia racial. Ou seja, os identitários não mais admitem que a política e a economia estejam acima de determinados valores. Por muito tempo aceitaram o jogo liberal. Eles renunciam à democracia? Renunciam. Renunciam parcialmente ao capitalismo? Sim, pois se aproximam de um capitalismo cada vez mais limitado, seletivo (com poucos países), antiglobalista. Não é qualquer capitalismo, é um capitalismo mais moralizador, mais societário. Apesar do discurso de livre mercado, não é tão livre assim. O capitalismo começa a ser cada vez mais condicionado a valores socioculturais. Por isso se vê cada vez mais uma epidemia de populistas, movimentos, indivíduos reacionários e partidos extremistas nas democracias liberais capitalistas.


Assim, a trajetória da tentativa de interromper o Estado Democrático de Direito no Brasil, felizmente fracassada, tem raízes muito profundas, envolvendo capitalismo, democracia liberal e valores progressistas em curso. Especificamente sobre os novos valores, eles contrastam muito com o que esteve enraizado por séculos em nossas sociedades ocidentais. E as resistências estão em todo lugar, incluso nas Forças Armadas. É uma grande batalha que vai durar todo o século XXI. Porque quanto mais a democracia liberal se radicalizar - mais liberdade de expressão, igualdade e performance individual - maior será o embate contra as forças reacionárias e conservadoras, historicamente defensoras de hierarquias cristalizadas, temporais e atemporais. Quem viver verá.


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