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PSICOLOGIA DA MULHER: Fomos feitas para lidar com a violência


Estava eu no carro com dois amigos, rindo muito e compartilhando histórias da vida. Um deles dirigia o veículo e seguíamos para o aniversário de uma amiga em um endereço distante. Não conhecíamos bem as ruas e precisávamos verificar o GPS o tempo todo. Numa dessas, o amigo que dirigia percebeu que precisava entrar em uma rua à direita. No momento em que se move para essa direção, um carro da polícia militar corta o nosso e de lá saem três homens de fuzis e armas ao punho, mandando a gente sair do carro. O que estava acontecendo? Por que os policiais estavam nos confrontando e ameaçando com armas? O que mudou entre a estrada que estávamos e essa nova que entramos?


Não demoramos muito para entender que o meu amigo fez uma manobra inadequada e quase bateu no carro da polícia. Claro que eles consideraram isso suspeito e por isso a chamada tão intensa, com armas ao punho. Dentro do carro, ficamos olhando um para o outro enquanto um policial pedia para sairmos para ver os documentos do carro. Os dois amigos se moveram resmungando e olhando para baixo. Eu não quis repetir o comportamento deles. Sai devagar, levantei bem alto minhas mãos e disse olhando diretamente para os policias, com tranquilidade e clareza: “Acho que entendemos o que aconteceu e vamos esclarecer, senhores policiais. Meu amigo vai pegar os documentos e vamos resolver isso”


Depois da minha abordagem e da entrega dos documentos, os policiais se acalmaram e nos liberaram. Envergonhados, eu e meus amigos ficamos balbuciando o que tinha acabado de acontecer. Dias depois, fiquei refletindo sobre a reação de cada pessoa naquela situação e ficou nítido que os dois homens que me acompanhavam ficaram perdidos e desajeitados sobre o que fazer, enquanto eu me mostrei firme e clara, sendo a única a falar diretamente com as autoridades sem gaguejar, apresentando nossa inocência com voz doce e calma. Eu sabia lidar com o perigo. Eles, não.


Mais ainda, entendi que estava lidando com uma situação perigosa e eu era a parte mais frágil naquele momento. Um ímpeto de sobrevivência foi maior que qualquer senso de justiça (afinal, os policiais nos abordaram gritando e em tom de ameaça sem nos explicar o que tinha acontecido). Algo dentro de mim sabia que eu deveria usar toda a minha “feminilidade” nessa situação, trazendo um tom de voz suave e frágil, nada ameaçador. Precisava validar o confrontador, dizer que ele era superior naquele momento, que eu iria obedecê-lo prontamente e não haveria conflito. Era preciso ser entregue às ordens dadas, sem questionamento ou postura grosseira e desrespeitosa. Era a psicologia de vítima que aparecia ali apenas porque sou uma mulher.


Isso é claramente explicado no livro “Amar para sobreviver: mulheres e a síndrome de Estocolmo social”. As autoras Dee L. R. Graham, Edna I. Rawlings e Roberta K. Rigsby se basearam na literatura sobre reféns de sequestro, prisioneiros de guerra, membros de culto, prostitutas controladas por cafetões, vítimas de violência doméstica e incesto para explicar a possibilidade de uma teoria universal do abuso interpessoal crônico, baseada no conceito da síndrome de Estocolmo. Elas questionam:


“​Conhecendo as estatísticas de violência masculina e sofrendo com isso diariamente, por que as mulheres amam os homens? Por que não fogem quando têm oportunidade? Por que a maioria das mulheres é hostil ao movimento que luta pela liberdade das mulheres? Por que se esforçam para proteger os homens?”

Segundo análises deste livro, a psicologia da mulher é a psicologia do oprimido:


“No trabalho desses escritores ficam evidentes os paralelos entre as características da psicologia do oprimido e da mulher, indicando que a psicologia da mulher é uma psicologia do oprimido. Eles também mostram que os comportamentos que a cultura masculina classifica como “femininos” coincidem com os que comumente seriam usados para caracterizar qualquer grupo oprimido” (p. 216) .

Mulheres passam muito tempo querendo entender os homens e fazendo a leitura do comportamento deles porque querem se preparar para lidar com seus rompantes de raiva ou ira (que podem levar a violência) e agradá-los para não serem oprimidas por eles.


O ímpeto que leva a mulher a saber lidar com a violência masculina também vem de uma necessidade de deixar a culpa toda para si, já que “Culpar a si mesma é uma maneira de lidar com a vitimação, pois possibilita que não se sinta raiva de perpetradores de violência poderosos” (p. 180). É uma forma da mulher achar a solução em uma mudança comportamental sua para que a agressividade masculina a atinja menos. Pensar dessa forma impede que seja vista a trama complexa e ativa da opressão ao corpo feminino acontecendo todo o tempo. Isso ameniza a ideia de que existe algo acima das mulheres com mais força e poder para mobilizar seus comportamentos e ideias.


Com esse cenário, as autoras acreditam que o que denominamos como “traços de feminilidade”, são de fato mecanismos reativos e de sobrevivência que as mulheres incorporaram culturalmente no intuito de saber lidar com a violência diária que lhe é imposta. Elas afirmam que a timidez, a conformidade, a dependência e a habilidade de socializar da mulher possuem grande similaridade com o que as pesquisas apontam como características sociais mais prevalentes nas mulheres (p. 220). E ainda explicam:


“A intuição das mulheres é, na realidade, a intuição do subordinado ou um aspecto da feminilidade, já que ela está associada ao status de subordinado.” (p. 223)

Acredito que a história que contei no início do texto evidenciou um exemplo claro de uma mulher, no caso, eu mesma, que desenvolveu uma habilidade por anos ao lidar com os perigos da violência sobre seu corpo e, assim, rapidamente respondeu com docilidade, clareza e submissão aos gritos masculinos proferidos naquela cena. De alguma forma, eu sabia o que dizer e como dizer no momento de medo e tinha a esperança de que essa minha abordagem amenizaria os ânimos e não aumentaria as tensões que já estavam à flor da pele. Como digo na história, o final foi satisfatório e acredito que parte da minha atitude colaborou para isso.


Mas, enxergar essa realidade é uma forma de alerta sobre como mulheres estão muitas vezes sobrevivendo através de uma psicologia de “refém”, enlameadas numa falsa culpa, sem conseguirem transmitir em sua inteireza o que são e como pensam. Por isso, escrevo esse texto. Para trazer à consciência que, enquanto as mulheres usam inúmeras estratégias para perambular por homens agressivos com algum nível de segurança, é preciso apontar o sujeito causador dos danos, utilizando os mecanismos plausíveis de denúncia e exposição. Falar dos agressores como são (violentos, manipuladores, perversos, etc) é eximir o corpo feminino de mais uma culpa social instalada na sua psique.



Fonte:


GRAHAM, Dee; RAWLINGS, Edna; RIGSBY, Roberta. Amar para sobreviver: mulheres e a Síndrome de Estocolmo Social. São Paulo: Editora Cassandra, 2021.


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Essa análise do comportamento feminino diante de um mundo dominado pelo machismo é um soco no estômago... Causa revolta e tristeza pelo simples fato de ser a realidade.

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