QUAL O LUGAR DA INTELECTUALIDADE?




No senso comum ao pensarmos no intelectual na maioria das vezes a imagem formada é do homem, branco, heterossexual, engravatado ou com roupa social, ocupando as cadeiras universitárias e exibindo capas de livros de teorias hegemônicas como se só elas bastassem para o entendimento do mundo.


Sim, existem intelectuais que reúnam todas essas características ou alguns delas, o que não necessariamente significa que esses não pensem para além de suas bolhas de privilégios ou que eles devam se sentir culpados por gozar de privilégios, ainda que lutem- ou não- contra a manutenção desses. Mas se esses intelectuais existem, também há no mundo outros tipos de intelectuais.


Existem intelectuais acadêmicos que fogem desses estereótipos e pessoas que não são vistas como intelectuais, porém o são, apesar de não estarem na academia: a exemplo da dona de casa, do feirante, do cabeleireiro e outras ocupações/profissões que muitas vezes não são valorizadas na nossa sociedade. São dessas figuras que pretendo falar a seguir.


O intelectual acadêmico que foge ao estereótipo seria aquele que está lançando mão de teorias que não compactuam ou que teçam críticas aos ideais hegemônicos, ainda que não promovam o apagamento desses – na verdade, o melhor cenário seria a união de teorias hegemônicas com não hegemônicas.


Também, o corpo do intelectual acadêmico pode fugir da hegemonia. Esse seria o caso da mulher, da mulher preta, da pessoa trans, do indígena, do homem preto; do homossexual, corpos que sofreram ou sofrem a discriminação e -até segregação- no processo histórico.


Todos os corpos podem ser lidos dentro de uma perspectiva interseccional, ou seja, estão sendo pensados a partir do gênero, da raça, da sexualidade, da classe social, da neuro tipicidade, das capacidade psicomotoras e outras características que consigam associar vantagens e desvantagens de algumas pessoas em relação a outras.


Todo intelectual que foge de um perfil hegemônico, a partir de seu corpo, acaba por si exercendo um lugar de intelectualidade que o diferencie da intelectualidade hegemônica, ainda que no uso da teoria a pessoa se utilize de saberes hegemônicos. Na verdade, esse processo é até irônico.


A partir do momento em que um corpo não hegemônico utiliza uma teoria hegemônica não estaria esse corpo reivindicando uma posição de poder que em outro momento lhe foi negado? E quando esse corpo não utiliza a teoria hegemônica ou combina o não hegemônico com o hegemônico não estaria esse criando maneiras de produzir conhecimento para o mundo?


Já o corpo intelectual não academicizado, ou seja, que faz o saber de fora da academia, é aquele corpo que conduz a produção de sentidos do dia a dia. Por exemplo, quando um feirante reúne uma diversidade de plantas e reconhece as propriedades medicinais dessas, estaria ele ali reverberando um saber da terra, um saber tradicional, levando esse saber para as áreas urbanas.


Quando uma empregada doméstica, por exemplo, reconhece uma maneira de tirar manchas de roupas, com uma mistura de produtos, ela faz ali uma química a partir dos saberes da experiência, esse que muitas vezes não é reconhecido na academia e nos ambientes ditos hegemonicamente intelectuais.


Conversar com um morador de rua – sem querer romantizar sua condição perante o mundo- pode trazer saberes outros sobre a adaptabilidade do corpo humano e as formas de imaginação, apesar daquela condição de vida.


A intelectualidade, pensando nessa como produção de saberes e reverberação de conhecimento, pode estar nos locais mais improváveis e são a eles que se faz necessário recorrer para quebrar o ciclo hegemônico de teorias e corpos, proporcionando a criação de um ambiente acadêmico mais próximo do povo e das necessidade dele.


Imagem de capa: Cabeça da escultura "O pensador", de Rodin. Fotografia retirada de: <https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/e/e6/Rodin%2C_El_Pensador-3.JPG/1024px-Rodin%2C_El_Pensador-3.JPG>

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