QUAL É A SINA DE OFÉLIA?
- Manuel Sousa Junior
- 26 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

Nos últimos dias de 2025, viralizou uma música feita por Inteligência Artificial (IA) pela Track B Music, com as vozes de Luísa Sonza e Dilsinho, inspirada na música de Taylor Swift, The Fate of Ophelia. Mas você sabe quem é Ofélia? Já ouviu falar nela?
Ofélia é uma personagem da peça Hamlet, de Shakespeare (1564-1616), escrita e encenada pela primeira vez entre 1599 e 1602. Há quem diga que foi inspirada na história de Katherine Hamlet, uma jovem que se afogou em 1579, possivelmente após uma desilusão amorosa. Ofélia é uma jovem da corte dinamarquesa, uma mulher doce, educada, quieta, bela, recatada e do lar. Bem no estilo daquelas que aprendem cedo a agradar, a se comportar e a não incomodar. Ela se apaixona pelo príncipe Hamlet, um homem confuso, emocionalmente instável e cheio de conflitos internos. O relacionamento entre os dois foi conturbado: ora ele se aproximava, ora se afastava de Ofélia, que tentava se adaptar ao amado, enquanto ele se mostrava ambíguo, frio e imprevisível.
Ao mesmo tempo, ela vivia sob o controle do pai, Polônio, conselheiro do rei da Dinamarca, e do irmão, Laertes, que proibiam o amor entre eles. Todos esses homens controlavam a vida de Ofélia. No desenrolar da história, Hamlet mata Polônio e depois se afasta novamente da amada. Ela perde o pai e o seu amor. Sem voz, sem chão, sem escolha, sem uma vida para chamar de sua, ela se recolhe e passa a cantar músicas por vezes desconexas e a distribuir flores pela cidade, tentando carregar um significado que ninguém quis ouvir ou ajudar a compreender. Em determinado momento, colhendo flores à beira do rio, ela cai na água e morre afogada. Até hoje, não se sabe se foi um acidente ou se ela desistiu da vida. Ela não morreu de amor; morreu de silêncio, de obediência, de solidão, de viver uma vida que mandaram que ela vivesse, de atender às expectativas dos outros em detrimento de suas próprias vontades. Aí está a sina de Ofélia: mulheres que se adaptam demais aos homens à sua volta, caladas, reclusas, sem voz e sem vez, até desaparecerem em si mesmas.
A personagem Ofélia traz atravessamentos contemporâneos, mostrando novos sentidos da arte conforme o tempo histórico. A música que viralizou ressignifica essa narrativa com um tom feminista, atuando como uma salvação da voz que canta a sina de Ofélia e oferecendo um novo caminho para a jovem. “Dizem por aí que você é fogo, você quer ver tudo queimar”, “Eu vou ser sempre real, no céu, no mar”, “Tô fechada com você, não vou voltar” e “A sina de Ofélia, guarda isso na minha mente, a chave é só da gente, não vou mais me afogar porque veio me salvar” são alguns trechos da música viral que se afastam do drama shakespeariano e se aproximam do público contemporâneo, trazendo uma linguagem das redes sociais, mais acessível e atual.
Ofélia pode ser interpretada não apenas como uma personagem literária, mas como um espelho das experiências modernas ligadas à saúde física e mental em relações afetivas desequilibradas e à ausência de autonomia. A música viral não é apenas entretenimento; pode ser considerada também um sinal de alerta para dores que persistem na atualidade. Toda Ofélia merece apoio. Nenhuma Ofélia deveria se afundar sozinha em si própria.
Ao revisitar Ofélia, podemos nos questionar se já evoluímos o suficiente para que histórias como a dela não se repitam nem na ficção nem na vida real. Quantas Ofélias você conhece? Quantas Ofélias ainda existem na atualidade? Quantas Ofélias ainda são privadas de decidir os rumos de suas próprias vidas? Quantas Ofélias você já ajudou a enxergar uma luz no fim do túnel e uma possibilidade de mudança? Quantas Ofélias adoecem hoje não por falta de amor, mas por excesso de controle?
Quantas vezes você já silenciou uma Ofélia sem perceber, tratando o sofrimento dela como exagero, drama ou fraqueza? Em que momentos da nossa sociedade ainda se espera que mulheres sejam dóceis, obedientes e silenciosas para serem aceitas? Até que ponto relações afetivas desequilibradas continuam sendo romantizadas em nome do amor? Quantas mulheres hoje ainda vivem para atender expectativas que não são suas? Conta nos comentários e vamos dialogar sobre o tema.
Existe ainda outro debate sobre os direitos autorais da música, já que ela foi inspirada em uma canção de Taylor Swift, que não autorizou o uso, assim como Luísa Sonza e Dilsinho também não autorizaram o uso de suas vozes. Que a música ficou ótima é consenso, mas a quem pertencem os direitos autorais? Esse é um grande exemplo da necessidade de regulamentação das Inteligências Artificiais, mas essa é uma história para outro momento. O destino da música ainda é incerto, mas o que temos certeza é que, na era da Inteligência Artificial, sobreviver pode depender menos de uma tragédia ao estilo de Shakespeare e mais de uma notificação judicial para retirar a música das plataformas.
REFERÊNCIAS:
PINOTTI, Fernanda. Quem é Ofélia, personagem da literatura que inspirou música de Taylor Swift. CNN Brasil POP. 03 out. 2025.. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/quem-e-ofelia-personagem-da-literatura-que-inspirou-musica-de-taylor-swift/. Acesso em: 25 dez. 2025.
POSS, Karoline. Entenda o significado de A Sina de Ofélia, o viral de Taylor Swift no ritmo do pagode. Portal Letras. 25 dez. 2025. Disponível em: https://www.letras.mus.br/blog/a-sina-de-ofelia-significado/. Acesso em: 25 dez. 2025.
VITORIO, Thamires. 'Sina de Ofélia': Taylor Swift pode derrubar música feita por IA? Exame. 24 dez. 2025. Disponível em: https://exame.com/pop/sina-de-ofelia-taylor-swift-pode-derrubar-musica-feita-por-ia/. Acesso em: 25 dez. 2025.
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