Quatro mulheres negras anônimas e fodas.


* Por Catarina Alcantara



Um certo dia de trabalho entrevistei um ilustre homem, homem chamado Renato Santos, negro forte, comunicador, roteirista e de uma sapiência singular. Em um dos relatos ele me dissertou opiniões referentes ao racismo estrutural e a representação das mulheres negras da sua vida. Leiam e se deleitem com essa incrível visão que fala de raiz, essência, força e muita luta.


"Hoje vou falar sobre quatro mulheres fodas da minha vida, quatro mulheres negras fodas. Vou começar por uma ordem de aparecimento mas ao contrário, da mais nova a mais velha, uma ordem cronológica crescente.


Primeiramente vou falar da minha filha, Anna Lila, que como um presente divino, traduzido até no nome, que significa “a graça e o passatempo de Deus”, preenche minha vida como um culto, como uma forma, como uma adoração e me fez entender um pouco o universo, a maneira de se pensar como homem e ver que tudo aquilo para que eu fui criado, estruturado e manipulado dentro do entendimento de vida foi desconstruído por ela.


Ela me ensinou a ser pai, me ensinou a ser homem, me ensinou a ser marido e a entender um pouco mais do que eu tenho que fazer nessa vida, em nome da minha negritude, em nome da minha condição privilegiada de ser um negro que foi a faculdade , de ser um negro que teve oportunidade de sentar em algumas rodas e fazer trocas, negociar com pessoas de posses, com brancos. Ela me ensinou a esfriar a cabeça, me ensinou que minha presença preta é duvidosa e dúbia para muitos que não me conhecem, para muitos que não tentam e não querem entender que o engajamento de um homem negro numa esfera sócio-política e geográfica dentro do entretenimento é difícil. Chegar ao ápice de ser contratado como autor e roteirista de uma das maiores empresas do Brasil não significa nada, desde o momento que você seja negro não tem nenhum significado, escrever uma peça de teatro sobre uma das mulheres imortais da Academia Brasileira de Letras não significa nada, o único lugar de significância é dento da minha negritude, como sacerdote, como trocador entre os meus e essa doce e pequena Lila me ensinou sobre o dom do apaziguamento, então assim, começa a contar por ela.


Segundo lugar, não segundo lugar como segunda, mas sim dentro deste círculo, dentro desta construção, tem a mãe da Ana Lila, Isabele de Oliveira. Ela foi desabrochar dentro da universidade, a companheira na faculdade de psicologia, a mãe da minha filha. Tivemos uma relação longa, pensando como um casal negro e jovem, mas ao termino dessa relação o meu aprendizado foi o de ser pai e ser marido, tive que olhar para aquela mulher negra como um homem que não ia na direção dela para ataca-la e destrui-la mas sim para ser eternamente um marido que preserva as suas escolhas. Por mais que a nossa dor e nossos sentimentos tivessem brigando, e diante da decisão da nossa filha de vir morar comigo, tive que lutar para não a atacar e sim preservar a nossa relação dando a possibilidade de um dia olhar um para o outro e falar que nossa filha cresceu. Ela é uma boa mãe, uma boa companheira para novos pares, como com seu marido atual, e para sua nova filhinha, é uma mulher que hoje dirige uma escola pública em Irajá, onde estudou desde pequena, cursou a faculdade de psicologia, e também traz toda força para ser uma grande sacerdotisa no candomblé, é de se admirar.


São as mulheres negras anônimas que mantém a roda girando, que não escrevem livros e não estão em debates na internet mas estão fazendo a roda girar, estão fazendo acontecer. E é a essas mulheres negras que temos que agradecer muito, sem elas essa roda não gira, sem elas somos só simplesmente produto e conteúdo para uma branquitude que infelizmente ainda nos mantém como matéria de barganha e essa matéria que nós somos, neste extrativismo cultural e moral.



Eu sou fruto de um relacionamento breve de uma mãe que se apaixona por um cara, homem preto, que demora para registrar esse filho impondo mil condições, dúvida da paternidade e etc. Essa mulher é Sueli Chaves de Oliveira, minha mãe, ela sofre aquilo que é mais comum a todas as mulheres, com um pai que abandona o lar, ela como filha mais velha, deixa a criança aos cuidados da mãe e vai para a vida. Reaparecendo na minha vida nos meus onze anos de idade, sempre flutuante e sem nenhuma condição ou tato de construir uma relação com esse filho e por sinal um filho pródigo, um filho bem dotado, um filho bem construído que teve o amor de avó como um resgate.


A matriarca da família, a minha avó, a famosa Dona Irene, que me cuidou e que me criou, mantendo-me ao lado dela até os 30 anos, faz a fusão de traduzir o que uma mulher negra, abandonada por um homem preto, no caso meu avô, é capaz de fazer. Como ela bem dizia, ela foi abandonada e no dia seguinte a Light¹ arrancou o relógio da casa dela, então ela foi abandonada pelo marido e “arrancaram” a sua luz e ela seguiu morando numa casa dentro de um terreno gigante, construída com restos de madeira, com quatro filhos e mais alguns agregados dos irmãos, uma casa que habita muita gente. Eu pequeno e ela tomando conta dessa criança pequena, tem passagens que não esqueço, como ela lavando muita roupa e eu num caixote de madeira ao lado, é nítido, aquela roupa branca quarada parecendo até cena de filme, ali instituiu- se a minha condição espiritual, essa é a memória que eu carrego de uma forma bem espiritualizada dessa matriarca, dessa minha vó, dessa minha Dona Irene que em 18 de novembro me traz uma das minhas memórias mais consistentes, onde todos ao fim do seu parabéns entoavam numa só voz a música de Fundo de Quintal que dizia “Ô Irene, ô Irene vai buscar o querosene pra acender o fogareiro”, e realmente quando meu avô foi embora nós tivemos que acender o fogareiro e o querosene.


Mas nada de culpabilização somente aos homens negros, porque homem negro também sou, mas é um relato histórico e condizente de um homem preto para dar consciência aos homens pretos que ainda, infelizmente, não percebem que suas mulheres pretas fazem a roda girar, fazem acontecer, então independente das escolhas de parcerias novas de serem homens ou mulheres brancas não vamos perder o conteúdo, vamos ser quem somos.


Infelizmente, ou felizmente, vivemos num país monocromático onde o preto sustenta a forma e o conteúdo e onde o branco consegue usar esse conteúdo, utilizar esse conteúdo, temos que ter condição e bons sentimentos com nossa forma de agir nesse país, temos que ter respeito pela corrente das nossas mulheres pretas, temos que ressignificar o ato de ser homem preto, não podemos simplesmente fingir que o maior culpado é o branco, porque o fingimento que o maior culpado é o branco nos isenta de lutar no presente. Meus antepassados tinham correntes, tinham aprisionamentos e eles conseguiram lutar, hoje temos uma caça aos negros pela polícia, pelo sistema e pela estrutura racial e nós temos que lutar. Não é um julgamento que no passado a condição era pior e que hoje está melhor, não é uma tentativa de desmoralizar o que estamos lutando ou acreditando mas acredito que os grilhões econômicos são tão cruéis quanto os grilhões de ferro que nos mantinham aprisionados, então sentir e saber quem somos é tão importante e tão visceral, tão necessário, tão consciente que devemos buscar algo que nos faça conduzir processos que nos encabeçamos como negros.


Não falo sobre criar uma Wakanda, pois já existe um continente inteiro, a África. E eu não vejo uma multidão de negros comprando terras em África e construindo lugares e moradias melhores, já foi tentado isso e não deu certo, mas por que não deu certo? Porque a África pertence aos africanos, a África não pertence aos afrodescendentes e negros da diáspora, então, a nossa terra é o Brasil e é por isso que temos que criar aqui, agora, nesse exato momento, não Wakanda, não Quilombo dos Palmares mas, sim, tomar posse, equalizar, dividir.


A riqueza tem que ser compartilhada, dividida, a reparação e a estruturação social é essa, então, se o pai do antepassado era europeu, chegou aqui e ganhou terras, nós negros que tivemos nossos antepassados chegados aqui para serem escravos e sendo escravos trabalharam e não ganharam recompensas, não ganharam nada, tá na hora de redistribuir um pouco, redistribuir essa construção do passado. É muito simples, se um branco tem três apartamentos e os três são sua renda, por que ele não pode ceder um? Por que ele não pode pensar numa família negra? Eu quanto negro, tenho um pouco de condição de poder, não é dividir, porque se dividir fico paupérrimo e pobre, mas hoje 10% que eu tenho faço questão de dar para os meus. Então, assim, se o branco começar a fazer isso vai dar certo! Imagine 10% do faturamento do Luciano Huck, nada contra ele, indo para uma família negra.


Eles com certeza absoluta formariam advogados, psicólogos, médicos só com esse valor, aplicando bem assertivamente e não em projetos sociais daria certo. Contrata uma pedagoga, contrata uma especialista em produção de economia e pega três famílias negras, não precisa passar de um mês, faça a aplicação e durante o ano só monitora, pode ter certeza que aquelas três famílias vão se modificar, vão criar mais condições para no mínimo mais seis famílias negras porque aprendemos da senzala, se não mantivessem todos vivos o trabalho seria maior, então aprendemos a dividir. O maior exemplo disso é a comunidade, as pessoas não passam fome lá, quem passa fome são pedintes no meio da rua, numa comunidade, numa favela, se a pessoa passa fome ela está com algum problema de ordem e de troca ali, pois as pessoas dividem um copo de arroz, dividem meio copo de leite e se for passar fome, é todo mundo junto passando fome. Isso é a espiritualidade, é a força que nós adquirimos para sobreviver ao processo de escravidão.


Hoje o mais perverso ato que cometem contra a gente, contra nós negros, é a separação, existe um isolamento de um negro promissor onde martelam tanto ele, moldam tanto ele que ele começa a achar que é um homem branco, branco mesmo porque ele começa a adquirir hábitos, adquirir espiritualizações que afastam ele de dividir, de trocar, de fazer o que é certo. O cara sai do subúrbio por adquirir uma posse e quando volta ele dá mimos, presentes aos que ficaram. Chega a ser engraçado, o cara não tem dinheiro para botar gasolina na moto, mas ganha uma moto e quem deu diz “Vai lá, se vira aí”, aí o cara vai trampar como mototáxi, e aí? É que o cara tem que sobreviver na favela, mas ele não tem grana para tirar habilitação, mas foi abençoado, né? Ganhou uma moto!


A gente às vezes precisa entender que ser abençoado não é ganhar algo que a gente não sabe lidar, pois podemos perder muito tempo aprendendo a lidar. Na educação onde os anúncios dizem “computadores para todos os pretos”, “wi-fi para todos os pretos”, para que isso, me diz? Se a gente não tem o mínimo, às vezes, de educação eletrônica. O que seria educação eletrônica? É simples, saber usar o seu celular, não tô falando o de última geração, mas um celular para se comunicar. A gente não sabe usar o eletrônico, o eletrônico é diferente, o software do hardware é diferente, é como se fosse pegar um computador e usar apenas o Word. Exemplo, a gente corre para fazer uma mídia social? Não! Nós somos o conteúdo, temos conteúdo porque temos histórias, lembrando o mestre Jorge Aragão “...somos lembranças, somos raízes, somos memórias”, ou seja, somos usados dentro do conteúdo e da mídia! Se eu não sei usar o equipamento eletrônico que é o elemento básico, usar o meu computador offline, me limitando só em usar online, é impossível criar uma estratégia, e sentar diante de meus pares, pedir para fazer uma troca, uma reunião, e então devido a isso tudo acabamos sendo presas fáceis.


Preto não hackea o sistema, preto não tem condição de ter uma máquina administrativa potente, preto não consegue lidar com uma forma econômica real dentro do nosso país, o Brasil. Pode pegar o preto mais bem-sucedido, com mais dinheiro mas ainda assim ele vai ter que negociar com um branco, ele vai ter que botar seu dinheiro no banco do branco, ele vai ter que sentar, almoçar, jantar, até no melhor restaurante para fazer um “place”, ele vai ter que sentar com um branco. É o espaço que a gente precisa.


Então, é por isso que a minha fala se inicia nessas quatro mulheres, porque essas quatro mulheres, anônimas, fazem a roda girar. Ela está girando, mais cedo ou mais tarde vocês vão ter que dividir!"


Trechos retirados de entrevista realizada com Renato Santos, roteirista e escritor


* Jornalista baiana. Modelo plus size.Instagram : @catarinasalcantara



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