top of page

QUE DESGRAÇA É ESSA, JAQUES WAGNER?!: Psicanálise, Política e Cultura

Diferente da norma padrão da língua portuguesa, na qual é sinônimo de desastre ou tragédia, no baianês, desgraça pode ser utilizada para expressar surpresa. O significante dessa palavra é deliberadamente modificado, com o objetivo de maximizar o espanto: “que disgraça!” Já a letra “i” substitui o “e”, para enfatizar sentimentos. Essa perspectiva ensina como o registro Simbólico delineia nossos aparelhos psíquicos, através de palavras e discursos, precedentes a nossa existência: nascemos após a cultura que nos permeia. Fazemos uso do significante desgraça, na Bahia, para nomear e articular sentimentos – como percebemos e atribuímos significado ao mundo e sua dinâmica sociocultural –, disparando as emoções, respostas mediadas pelos impulsos. O significante “desgraça”, portanto, efetua uma troca linguística, passando a “disgraça” e encontrando significado através do deslizamento, operação realizada pelo nosso psiquismo, que resulta na imagem mental materializada no assombro.


Partimos dessa premissa com o intuito de manifestar sobressalto ante o ocorrido na última quinta, 18/06/2026, quando endereços relacionados ao líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), foram acessados pela Polícia Federal (PF), cumprindo mandados de busca e apreensão. A averiguação segue uma nova etapa da Operação Compliance, que investiga o caso Master e apura possíveis benefícios econômicos usufruídos pelo ex- governador da Bahia, desde propina até a compra de um luxuoso apartamento em Salvador. Nos endereços, foram encontrados 55 mil dólares e 33,5 mil reais.


Segundo Wagner, o montante encontrado em sua casa diz respeito a diárias do Senado, totalizando 70 mil dólares. O senador disse ter interesse em presentear a sua filha ou ajudá-la

a comprar o apartamento, ainda em construção. Em razão disso, solicitou a Augusto Lima – que comprou a Cesta do Povo e o cartão CredCesta, após dois leilões malsucedidos em São Paulo – que comprasse o imóvel, para depois recomprá-lo em sua mão. Perguntado sobre relações com Daniel Vorcaro, Jaques explicou detalhadamente. Quando governador da Bahia, ele privatizou a Cesta do Povo e o cartão CredCesta; nesse ínterim, esteve com Vorcaro em duas oportunidades. Na primeira, o dono do banco Master se apresentou como sócio de Augusto Lima no CredCesta. No segundo momento, a pedido de Augusto Lima, que solicitou uma indicação para presidir o setor jurídico do banco; a época, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski se aposentara por ter 75 anos e Wagner fez a sua indicação. O parlamentar reafirmou tanto a sua candidatura à reeleição, quanto a manutenção do seu cargo de líder do PT no Senado. Em suas palavras: “eu continuo na liderança, até que o presidente Lula peça pra eu me retirar. Não acho que ele vai fazer isso, mas, se ele fizer é um direito dele. O cargo é do Presidente da República, o cargo de líder do Governo, mas, eu falei com ele hoje, ele sequer tocou nesse tema. Então, na minha opinião, ele vai manter. [...] eu prefiro confiar na minha relação e na trajetória e eu não tenho nenhuma preocupação com isso. De fato, Wagner, apesar de ter os dois celulares apreendido, não é indiciado.


Não obstante a desenvoltura de Jaques Wagner em explicar os fatos a partir de uma entrevista exclusiva horas depois da operação da PF em sua casa, afirmando, inclusive, ter assinado a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do banco Master, precisamos refletir sobre o conceito de corrupção, sobretudo, na maior fraude do sistema financeiro do Brasil. Fazer isso é um exercício de pensar a política adiante de visões maniqueístas. Corrupção é palavra originária do latim corruptus e faz referência a algo despedaçado. De maneira figurada, corromper é desmoralizar, desvirtuar e apodrecer, através de suborno. Na corrupção, ocorre a perversão, ato no qual o sujeito utiliza a imoralidade para impor os seus interesses. O corrupto, é, em si mesmo, um perverso, haja vista perverter, sem nenhum arrependimento, tampouco remorso, as estruturas simbólicas da psique. Nesses termos, a corrupção na política é mecanismo de apodrecimento dos seus atores, tornando-os insuportáveis aos olhos da população. A frase “a política é podre” tornou-se, assim, emblemática, porquanto a corrupçãom corrói o símbolo representado pela classe política. Logo, quando esse grupo atenta contra a moralidade, o resultado é a sociedade ter o seu psiquismo alterado, passando a enxergar corrupção em todo o sistema político e não apenas nos casos comprovados.


Em “O Mal-estar na civilização”, publicado em 1930, Sigmund Freud (1856-1939), o fundador da psicanálise, reflete sobre o quanto parcela majoritária da população está disposta a atingir suas metas, tendo como ponto de partida “dar um jeitinho”. Para Freud, o ser humano é bom, contudo, a propriedade privada corrompe a natureza humana. A partir desse dado, torna-se compreensível a dinâmica que sustenta a promiscuidade entre lideranças políticas escoradas em representantes da iniciativa privada, colocando em jogo não apenas a própria credibilidade, mas, desestabilizando instituições inteiras. A psique das massas passa a ser povoado pelo “Efeito Coringa”: nada deve ser levado a sério e tudo precisa ser destruído. Os líderes religiosos são dissociados do símbolo de espiritualidade, os professores não têm qualquer relação com o conhecimento e os cientistas já não fazem descobertas confiáveis. As instituições se reestruturam pela lógica da negação, na qual as relações socioculturais são pautadas pela desconfiança, mentira e medo. Viver é um ato de sobrevivência em constante crise existencial. Eros, o impulso de vida, perde o duelo para Tanatos, que impele à morte. Como resultado, o contrato social é reduzido às individualidades narcisistas das redes digitais e ao consumo de vidas monetizadas. Destrutiva, paranoica e viciada em dinheiro, a sociedade prossegue em contínua competição. Quem se atrever a não adentrar na panelinha e discordar dessa lógica, será eliminado, tanto no plano físico, quanto no plano subjetivo: intelectuais, progressistas e até low-profiles terão o mesmo destino, posto que que se recusam a caminhar nesse circuito. Exclusão e cancelamento são as novas câmaras de gás!


A cosmovisão que aproxima política de corrupção e podridão foi largamente utilizada nas eleições de 2018 pela extrema direita para imputar ao campo progressista o símbolo de único responsável pelos crimes contra as contas públicas. Em 2022, a democracia brasileira, semimorta, saiu das urnas vitoriosa, deixando de respirar por aparelhos para, na figura do presidente Lula, enfrentar a maior economia do mundo, sem entregar suas riquezas. Mesmo determinados setores da oposição, a exemplo do deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), reconhecem em Lula o estadista comprometido com a soberania nacional. Parcela considerável dos segmentos nacionais passou a compreender a ameaça representada por Flávio Bolsonaro, “o batedor de carteira”, nas palavras de Otoni. O envolvimento do filho 01 de Jair Bolsonaro com Vorcaro repercutiu nas pesquisas eleitorais: Lula aumentou a vantagem no 1º turno e vence também no 2º. No entanto, a busca e apreensão na casa de Wagner pode contribuir para mudar o quadro.


No ano de 63 a.C., Caio Júlio César (100 a.C – 44 a.C.), chegou ao posto de pontifex maximus, alto sacerdote da religião romana. Tão dileta posição deu a ele o direito de residir na Via Sacra. Um ano depois, Pompeia Sula (89 a.C. – ? a.C.), sua segunda esposa, festejou a Bona Dea, uma honraria a “Boa Deusa”, o Sagrado Feminino. A festa era proibida para homens, contudo, Públio Clódio Pulcro (93 a.C – 52 a.C) conseguiu adentrar, em trajes femininos, possivelmente para conquistar Pompeia. Públio, preso em flagrante, respondeu processo, mas, foi absolvido, após subornar os juízes. Embora não houvesse nenhum indício de ligação entre os dois, César diria: “à mulher de César não basta ser honesta, deve parecer honesta”. O fato resultou em divórcio. César ainda diria: “minha esposa não deve estar nem sob suspeita”. As nuances dessa história demonstram o quanto a aparência da confiança deve estar revestida de ações realçadas de transparência. Aqui, questionamos ao líder do PT no Senado: “que desgraça é essa, Jaques Wagner?!” O fato de ser alvo de uma operação de busca e apreensão às 6 horas da manhã em sua casa, coloca o senador sob suspeita. Ele é a Pompeia de César. Longe de ser suficiente a sua entrevista exclusiva, na qual esteve tranquilo, aquele que conseguiu destroçar a dinastia carlista, trazendo desenvolvimento econômico para a Bahia, deve evitar qualquer mancha em sua carreira política. Jaques Wagner é uma respeitada liderança histórica na Bahia e no Brasil. Se afastar por conta própria pode abrilhantar ainda mais sua trajetória, evitando desgastar o governo do qual participa e representa. Nos bastidores, Lula está irritado com Wagner e pensa em encaminhar a sua saída, porquanto a operação da PF dê munição aos adversários. A despeito de, em plagas baianas, o silêncio continuar, curiosamente, absoluto na oposição, a retórica de Wagner durante a entrevista – fazendo da amizade com Lula uma espécie de fiança para não deixar o cargo e trazendo o mandatário para o centro da suspeita – irrita qualquer presidente sério. O senador parece esquecer o perfil do governo Lula: total liberdade para a PF desempenhar qualquer investigação, a ponto de não proteger o próprio filho do presidente.

Caio Julio Cezar, pontifex maximus, alto sacerdote da religião romana.
Caio Julio Cezar, pontifex maximus, alto sacerdote da religião romana.

Resta saber o porquê de o ministro André Mendonça não ter ordenado uma operação semelhante na investigação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Comparado aos 61 milhões de reais transferidos para o suposto filme de Jair Bolsonaro, o montante encontrado na casa de Wagner é dinheiro de troco. Pior: em áudio, Flávio Bolsonaro cobrou Vorcaro do pagamento e visitou o banqueiro, que, a época já estava usando tornozeleira eletrônica! Longe de considerar ilícita a operação realizada pela PF na casa do senador do PT, assim como longe de acreditar na lisura das investigações sobre Flávio Bolsonaro, há uma evidente – e perigosa – diferenciação em curso: Jaques Wagner, vindo do movimento sindical, representa uma parcela da população historicamente desprivilegiada, enquanto Flávio Bolsonaro sequer teve um emprego de carteira assinada! Corrupção por corrupção, se houver provas e condenações em ambos os casos, sabemos para quem o braço da “Justiça” vai pesar mais forte. Afinal, como devolver com tamanha ingratidão a indicação de Jair Bolsonaro ao STF? Fazer busca e apreensão do 01, às 6 horas da manhã? Pelo visto, o ministro “terrivelmente evangélico” e pastor presbiteriano André Mendonça já escolheu contra quem ser terrível. E Flávio Bolsonaro, sem demora, esperançoso, acredita na recuperação dos votos perdidos.


A corrupção, por seu turno, sempre existirá. Ela é inerente a condição humana e tem relações íntimas com as paixões, narcisismos e egolatrias. Em tempos de regressão psíquica, nos quais a capacidade de pensar se apequena para ver a glorificação de gozar a todo custo, é papel da ética controlar os vícios humanos, combatendo a corrupção em todos os níveis, além de fortalecer os laços da conduta humana. Isso envolve inclusive fazer o sujeito perceber – ainda que por lei e punições – as consequências e limites dos seus atos em sociedade. Entretanto, como fazer isso, em um momento histórico tão hostil à democracia?

________________________________________________________________

Imagens criadas por IA e retiradas no banco de imagens Pexels.com

2 comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
Convidado:
há 10 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Ética. A corrupção inexistiria se, em nossa cultura, as regras morais fossem levadas a sério. Infelizmente, o "jeitinho brasileiro" para levar vantagem em tudo soterrou o senso de ética do nosso povo. Regra geral, o político é só um espelho côncavo do cidadão comum que, via de regra, cometeria as mesmas barbaridades, se tivesse oportunidade.

Obviamente, existem excessões e, coincidentemente, são parte das fileiras que compõem a esquerda. Parece que Wagner não faz parte dessas fileiras. Se faz, deveria se afastar para provar sua inocência. Seu apego ao cargo que lhe foi confiado pode naufragar todo um projeto a bordo do frágil barco capitaneado pela ética.

Curtir

Convidado:
há 15 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Gratidão!

Curtir
bottom of page