Quem tem medo da Ciência (e suas epistemologias)?


No post de hoje, eu apresento algumas ideias do antropólogo, sociólogo e filósofo da ciência,Bruno Latour (1947-). Meu objetivo é trazer algumas contribuições do autor para pensar nos temas políticos de hoje (negacionismo), incluindo àqueles das Redes Sociais (lugar de fala).

No final dos anos 1970, Latour escreveu um livro junto ao sociólogo Steve Woogar (1950). O título era “Vida de laboratório: a construção dos fatos científicos”. Qual a contribuição principal, na minha opinião, deste livro?


Latour investigou como um fato científico era descoberto. Eu fiz o mesmo na minha pesquisa de mestrado. O fato científico que investiguei era se os mosquitos da espécie Culex quinquefasciatus (mosquito comum) poderiam transmitir o vírus da Zika ou não. Quando você faz uma pesquisa sociológica de campo, como se faz na antropologia, você consegue identificar todos os “ingredientes” por trás de um fato científico. Vejamos outra forma de dizer o mesmo.


Quando alguém diz que a ciência é política, você entende que a instituição científica e suas descobertas fazem parte dos interesses e das ideologias de sua época ou de seu contexto social, correto? A Djamila Ribeiro (“O que é lugar de fala”), por exemplo, traz diversas autoras negras que dizem que a ciência (epistemologia) é racista porque participa de uma sociedade racista. Beleza?

Então, a questão é que quando você entra num laboratório, é como se você fosse vê isso “na prática”. É como ler a receita de um bolo ou um prato especial exibido num programa de culinária e tentar executá-la. Ou seja: tu tens a informação quando lê a receita; outra coisa é tu executá-la. Não é não?


O que Latour diz, e eu “assino em baixo” porque fui pra um laboratório da Fiocruz “experimentar a receita” dele, é que pra construir um fato científico, você vai depender dos interesses de outras instituições, normalmente devido ao financiamento, mas às vezes por questões jurídicas, éticas; às vezes por questões políticas e ideológicas, às vezes por questões de mercado etc. Porém, o fato em si não se resume a esse “contexto”. Por exemplo: saber que o pessoal do laboratório da Fiocruz depende do financiamento do governo estadual e federal, às vezes do municipal, não reduz a ciência a esses interesses. Ou seja: independente de quem financia, o método científico para descobrir se o mosquito comum transmite Zika vai ser o mesmo.


Um segundo livro do Latour que desenvolve essa conexão entre a ciência e seu contexto é o “Pasteurização da França: seguido de irreduções”. Este livro foi escrito na década de 1980. Nele, Latour analisa como Louis Pasteur (1822-1895), o famoso cientista francês que criou a primeira vacina, conseguiu reunir os interesses de diferentes pessoas e/ou instituições por meio de suas descobertas científicas. Ora! Se refletirmos um pouco sobre isso podemos diferenciar o que é método científico e o que é interesse político e ideológico. O nome “irreduções” do subtítulo do livro mencionado serve exatamente para não dizer que as forças políticas são suficientes para explicar o desenvolvimento científico; ou que, por exemplo, o racismo, no exemplo da Djamila, seja suficiente para explicar o método científico (e sua epistemologia). Mas o que quero dizer, afinal?


Com “Vida de Laboratório” e “Pasteurização da França”, Latour investigou como a ciência funciona “na prática”. Com minha dissertação sobre Zika e a Fiocruz, ele investigou como a ciência funciona “na prática”, também. É isso, portanto, que me autoriza, e a Latour, a falar da ciência “de dentro”, “do interior dos seus laboratórios” e, em defesa da própria ciência e dos e das “cientistas de bancada”, a falar que a ciência não se reduz ao seu “contexto social e político”.


Sim... Falando como sociólogo, discordo da redução da ciência à política (ou da epistemologia ao racismo). Dizer que tudo é político é uma abstração válida; outra coisa é dizer como essa conexão ocorre empiricamente e a cada circunstância. Quem não investiga a ciência “de dentro” comete o erro de reduzir a ciência aos seus elementos externos. Em décadas a sociologia da ciência, representada por um nome influente, Robert Merton, ligou bastante a ciência ao seu aspecto externo sem reduzir ciência à política. O mesmo ocorreu na segunda metade do século XX, quando Pierre Bourdieu lançou sua teoria sobre os “campos” e afirmou que apesar das influências, o “campo” científico tinha uma autonomia relativa. Latour veio depois de Bourdieu e, diferente dele e de Merton, fez pesquisa de campo no interior de laboratórios. É como se costuma fazer mais na antropologia do que na sociologia: ao invés de usar filosofia e sociologia para “refletir” sobre a ciência, você aplica o método da observação participante e, assim, convive com, neste caso, cientistas e, ao invés de “roubar o lugar de fala” de cientistas, você tenta entender o que eles e elas pensam sobre o que fazem e o que, de fato, fazem. Algo que é essencialmente o trabalho da antropologia: entender o ponto de vista do outro em seus próprios termos.


Para encerrar o “soteropapo” sobre sociologia da ciência e os dois livros de Bruno Latour que apresentei hoje, justifico esse post, bem como sua utilidade, ao lembrar que a crítica à ciência e, por exemplo, a estatística e aos métodos quantitativos de pesquisa, bem como aos fatos científicos (“a terra não é plana”; “não houve ditadura, mas sim revolução”, “hidroxicloroquina cura Covid-19”) não é exclusiva ao senso comum negacionista. Ela também faz parte das ciências humanas e sociais.


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