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REAGINDO AO DISCURSO DE JAVIER MILEI, PRESIDENTE DA ARGENTINA, NO FÓRUM ECONÔMICO MUNDIAL, EM DAVOS. PARTE I




“Hoje estou aqui para dizer que o mundo ocidental está em perigo.E está em perigo porque aqueles que deveriam defender os valores do Ocidente foram cooptados por uma visão de mundo que inexoravelmente leva ao socialismo e, por consequência, à pobreza.”

É sério que estamos rumando ao socialismo? Qual? De onde? Quais os valores do Ocidente? Cristianismo, monogamia, patriarcado, família tradicional, heteronormatividade?

“Infelizmente, nas últimas décadas, os principais líderes do mundo ocidental abandonaram o modelo de liberdade por diferentes versões do que chamamos de coletivismo. Alguns foram motivados por indivíduos bem-intencionados dispostos a ajudar os outros, e outros foram motivados pelo desejo de pertencer a uma casta privilegiada. Estamos aqui para dizer que experimentos coletivistas nunca são a solução para os problemas que afligem os cidadãos do mundo”.

Qual experimento coletivista, cara pálida? O que você entende por coletivismo? Coletivismo seria a atividade econômica sendo direcionada pelo Estado, ou uma comunidade em que os próprios membros podem gerir sua produção e consumo? Qual o exemplo de grande porte? A China? China é coletivista?


“Se considerarmos o período entre os anos 2000 e 2023, a taxa de crescimento acelerou novamente para 3% ao ano, o que significa que poderíamos dobrar o PIB per capita mundial em apenas 23 anos. Dito isto, quando você olha para o PIB per capita desde o ano 1800 até hoje, o que você verá é que após a Revolução Industrial, o PIB per capita global multiplicou-se mais de 15 vezes, o que representou um boom no crescimento que tirou 90% da população mundial da pobreza extrema. Devemos lembrar que, até o ano de 1800, cerca de 95% da população mundial vivia em extrema pobreza. E essa porcentagem caiu para 5% até o ano de 2020, antes da pandemia. A conclusão é óbvia”

A conclusão não é óbvia, senhor Milei. A população dos muito pobres é infinitamente maior do que os 95% que viviam até o século XIX. No sistema capitalista, no modelo de classes sociais, a grande concentração da riqueza fica no estrato de cima. Dados recentes [1]da Oxfam aponta que na última década, o 1% mais rico ficou com metade de toda riqueza acumulada. Absurdo, né? Para Milei é um dado natural.


“Longe de ser a causa dos nossos problemas, o capitalismo de livre mercado como sistema econômico é o único instrumento que temos para acabar com a fome, a pobreza e a extrema pobreza em nosso planeta. A evidência empírica é inquestionável”.

Se a elite econômica e os países liberais distribuíssem a produção, e se o capitalismo fosse capaz de gerar emprego para todas as pessoas, o que nunca ocorreu, com dignidade e respeito, eu concordaria. Mas o que falar de um sistema que está mais preocupado com eficiência de tempo e redução de custos, independente do capital humano e sustentabilidade? E, por que é mais fácil termos o primeiro patrimônio de um trilhão, um “sortudo da vida”, do que acabar com a pobreza?


“Graças ao capitalismo de livre comércio, o mundo está vivendo seu melhor momento. Nunca na história da humanidade houve um período de mais prosperidade do que hoje. Isso é verdade para todos. O mundo de hoje tem mais liberdade, é rico, mais pacífico e próspero. Isso é particularmente verdadeiro para os países que têm mais liberdade econômica e respeitam os direitos de propriedade dos indivíduos”.

Verdade, muchacho? Os tais países, com apoio de grandes empresas, que invadem nações para explorar recursos naturais necessário ao capitalismo? Implantar mão de obra barata, incluindo crianças e adolescentes, e sem direitos trabalhistas? Que promove e incita conflitos entre grupos locais para venda de armas, munições e outros bens, em nome da democracia liberal?


"Os países que têm mais liberdade são 12 vezes mais ricos do que aqueles que são reprimidos. O percentil mais baixo em países livres está em melhor situação do que 90% da população em países reprimidos".

Liberdade de que, hombre?! Liberdade econômica, sem controle, a “mão invisível” que leva a um lugar melhor? É um mito. Existe algum país capitalista que não tem o Estado sustentando o próprio livre mercado? Não há capitalismo e não há liberdade de transação sem as regras permissivas e sem o aparato de força do Estado.

“E deixem-me citar as palavras da maior autoridade em liberdade na Argentina, o Professor Alberto Benegas Lynch Jr, que diz que o libertarianismo é o respeito irrestrito pelo projeto de vida dos outros baseados no princípio da não-agressão, em defesa do direito à vida, liberdade e propriedade. Suas instituições fundamentais são a propriedade privada, mercados livres de intervenção estatal, livre concorrência e a divisão do trabalho e cooperação social, em que o sucesso é alcançado apenas servindo aos outros com bens de melhor qualidade ou a um preço melhor. Em outras palavras, empresários capitalistas bem-sucedidos são benfeitores sociais que, longe de se apropriarem da riqueza dos outros, contribuem para o bem-estar geral. Em última análise, um empresário de sucesso é um herói. E este é o modelo que estamos defendendo para o futuro da Argentina. Um modelo baseado no princípio fundamental do libertarianismo?"

Oh, parece tão maravilhoso. Empresário herói que pensa na humanidade! Não, senhor. Não se iluda com isso. Não seja ingênuo ou hipócrita. Não há capitalismo sem Estado atuante e que garanta, legalmente, o livre mercado, inclusive sustentando a liberdade privada dos meios de produção e a exploração do capital na busca de lucros incessantes. O empresário, o capitalista mesmo, pensa na sua sobrevivência ante a um sistema canibalista. Ele não é automaticamente um altruísta, que pensa no bem da humanidade e dos empregados. Empresários capitalistas bem sucedidos são bem feitores? Parece uma utopia, considerando a concentração de riqueza e renda na elite local e global.


“No entanto, diante da demonstração teórica de que a intervenção estatal é prejudicial – e a evidência empírica de que não poderia ter sido diferente – a solução proposta pelos coletivistas não é maior liberdade, mas sim maior regulamentação, o que cria um espiral descendente de regulamentações até que todos sejamos mais pobres e nossas vidas dependam de um burocrata sentado em um escritório de luxo”.

Milei, sem regulamentação por parte do Estado, quem fica do lado forte da corda entre patrão e trabalhador? Está cheio de gente querendo emprego, pois o sistema não comporta 100% de emprego formal.


Sem regulamentação, o que deve incluir tributação de renda e riqueza aos mais ricos, como se cria políticas sociais de combate à pobreza? Como garantir direitos trabalhistas? Ou você acha que sem regulamentações, a pobreza sozinha vai ser eliminada? E mais: quem socorre as empresas quando elas não conseguem alcançar seus lucros, quando estão endividadas? Deixa disso, Milei. Sem regulamentação, como você propõe, a gente viveria em um estado mais selvagem, em que o mais forte imporia sua força até o talo.


“Tudo o que a agenda do feminismo radical levou foi a uma maior intervenção estatal para dificultar o processo econômico, dando empregos a burocratas que não contribuíram em nada para a sociedade. Exemplos são ministérios da mulher ou organizações internacionais dedicadas a promover esta agenda. Outroconflito apresentado pelos socialistas é o dos seres humanos contra a natureza, alegando que nós, seres humanos, danificamos um planeta que deve ser protegido a todo custo, chegando ao ponto de defender mecanismos de controle populacional ou a agenda do aborto. Infelizmente, essas ideias prejudiciais ganharam força em nossa sociedade”.

Nesse trecho ele está falando de uma suposta agenda dos socialistas, que teria abandonado a luta de classes. Agenda feminista e agenda estatal. Milei, sem a ação do Estado para minorar a desigualdade de gênero, as mulheres continuariam na condição de párias salariais e sem direitos civis fundamentais. Ou você acha que, naturalmente, pelo poder da Providência, chegaremos numa condição em que homens e mulheres terão os mesmos direitos? Não podemos confundir uma suposta criação natural de Deus e a vida real - a sociedade como ela é.


Sobre a natureza, sim, o capitalismo está destruindo o planeta, acelerando o processo, desde a Revolução Industrial, iniciado na Inglaterra, que só vai piorar a vida das pessoas, principalmente os mais pobres. Ah, mas eu não posso esperar algo diferente de um negacionista costumaz. Agenda de aborto com política de reversão de danos ao meio ambiente? Realmente você foi longe. Nada a comentar.


Próxima semana, reagindo a parte II.


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Notas




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