Reginaldo Rossi e Joelma: Rei e Rainha do Brega





A palavra que identifica o ritmo, Brega, vem de uma concepção "negativa", pois no Nordeste era usada para identificar bordéis, as prostitutas eram chamadas de Bregueiras, por exemplo, assim como outros frequentadores em geral.


Inicialmente, o termo carrega uma enorme negatividade social, para as elites culturais o termo tinha um significado semelhante a algo "deselegante" e também era usado para identificar estilos musicais populares que eram comuns em bordéis e outros lugares marginalizados, pois faz sentido que músicas com letras sobre amores, aventuras sexuais, traições e desilusões fossem ouvidas em lugares como estes.


Portanto, temos esse nascimento do termo brega, no nordeste, utilizado para citar lugares e atores da prostituição e posteriormente se associar na identificação de estilos musicais populares que possuíam letras românticas, inclusive, na tentativa de desvalorizar esses artistas e seus eventos.


Ao falar do brega, é preciso citar Reginaldo Rossi, ele é lembrado no imaginário social brasileiro como o "Rei do Brega" e, de fato, o que a literatura específica mostra é que ele é o artista que inicia esse movimento de um dos estilos musicais mais populares do país.


Em Pernambuco, Recife, Reginaldo iniciou sua carreira musical em uma banda de rock fortemente influenciada pelo iê-iê-iê dos Beatles. Essa banda começou a abrir vários shows de Roberto Carlos e as influências começaram a ser notadas na trajetória de Reginaldo Rossi, aos poucos ele foi introduzindo alguns elementos da Jovem Guarda ao mesmo tempo em que começava a introduzir letras românticas. Nasce o Brega. Por isso se diz que o Brega é uma releitura popular da Jovem Guarda.


Vários outros artistas memoráveis e famosos começaram a ganhar destaque nesse estilo musical, Reginaldo é um deles e acho que, principalmente, o fato dele ser chamado de "Rei" também foi um trocadilho porque ele se inspirou na carreira de Roberto Carlos, que na época já era chamado de Rei da Música Brasileira, e isso era perceptível em suas roupas, cortes de cabelo e em algumas apresentações. Assim, à sua maneira, Reginaldo Rossi foi também um "Rei", o "Rei do Brega".


Os ritmos nunca são “puros”, estão sempre sujeitos a constantes transformações, diálogos com diferentes culturas e contextos sociais. Este também é o caso do Brega. O ritmo marginalizado de Pernambuco também atinge o norte do país, especialmente a capital paraense, Belém. As culturas do norte do Brasil costumam ser vistas como "muito diferentes" pelo resto do país, mas isso se deve principalmente ao processo de invisibilidade cultural que esta região sofreu e continua sofrendo até hoje, existem inúmeros estudos que comprovam que a região estava isolada do Brasil em vários níveis: político, social e cultural.


As primeiras rádios ali sintonizadas foram de outros países, a Rádio Cubana e outras rádios norte-americanas são as principais citadas em trabalhos acadêmicos, principalmente a Rádio Cubana, que é descrita na literatura como ponto de interferência na educação musical popular na Amazônia e no Pará. O Bolero e Merengue, por exemplo, são ritmos que passam a ser fortemente ouvidos nessas regiões.


Algumas observações baseadas na crítica decolonial chegam a afirmar que a região norte do Brasil é a região que contém mais elementos latino-americanos. Acho que é mais fácil observar se analisarmos os ritmos populares nascidos nesta região, como Lambada e Guitarrada. A região também tem uma relação mais próxima com os povos indígenas, seus pratos culinários mais famosos como o Tacacá são pratos indígenas, e o Carimbó, o ritmo amazônico, também tem origem indígena, misturando-se posteriormente com outras culturas afro-brasileiras e ribeirinhas. É nesta região que chega o Brega e são precisamente estas influências que o atravessam.


O Brega Paraense é outra história, todas essas influências musicais resultam em uma subdivisão muito interessante do brega: Brega marcante, Brega Pop, Brega Calypso, TecnoBrega, etc. Em outro momento, pretendo aprofundar essa discussão aqui, por enquanto, para essa coluna, o que vale é destaque para a trajetória de outra artista que ganhou o Brasil representando o brega, desta vez, uma artista feminina e paraense.


Essa artista é Joelma Mendes. Joelma nasceu no interior do Pará, cidade chamada Almeirim, e teve uma infância relativamente conturbada, por um lado, viveu as dores de uma infância marcada pela pobreza, violência doméstica e, por outro, viveu a doçura da uma vida ribeirinha, tendo o Rio Amazonas como sua "piscina natural".


Apaixonada por música desde pequena, além de ouvir as rádios estrangeiras mencionadas acima, ela também consumia o que era produzido localmente e o Brega, como ela diz, é um ritmo que ouvem “desde a barriga da mãe”.


Ela passava o dia ouvindo música, cantarolando nos corredores da escola e por isso recebeu um convite para cantar em uma apresentação cultural na cidade com seu colega de escola. Com tanta insistência, um dia ela aceitou o convite, a apresentação foi gravada e ela acabou sendo convidado para ser vocalista de uma banda popular da capital, a Banda Fazendo Arte, primeira banda em que Joelma começou a trabalhar como cantora profissional.


Essa banda foi importante para sua trajetória pois é aquela típica banda que toca de tudo, neste caso, tudo que se consome em sua região, e assim serviu para ela se apropriar melhor dos ritmos regionais como cantora profissional.


Após o fim da banda, Joelma decidiu investir na carreira solo e iniciou o processo de composição de seu primeiro álbum solo, no processo conheceu seu ex-cônjuge, Cleidivan Farias (Chimbinha) que na época era um guitarrista conhecido na região e reconhecido pela habilidade com a Guitarrada (Lambada na Guitarra), incluindo a Guitarrada em outros ritmos, como o Brega Paraense.


O que foi a elaboração de um disco solo, com a união dos dois, torna-se então o primeiro disco de uma das bandas que se tornaria uma das mais populares do Brasil, a Banda Calypso. O nome "Calypso" vem da deusa do Caribe e na verdade se refere a um conjunto de ritmos caribenhos que chegam à região e começam a ser incorporados aos ritmos locais, incluindo o Brega.


A forma como esses ritmos caribenhos chegaram ainda é motivo de discussão, alguns dizem que foram essas rádios estrangeiras e outros acreditam na tese do povo paraense convivendo com países vizinhos, como Guiana, Guiana Francesa e Suriname. O fato é que musicalmente essas influências são percebidas e parecem ter sido reunidas em um único termo: Calypso.


Ao nomear a nova banda, ao lado do ex-marido, Joelma sugere o nome "Calypso", segundo ela, porque era um termo muito usado entre os músicos quando queriam atribuir uma "levada paraense" às músicas. A Banda Calypso, como sabemos, era um caso de sucesso no Brasil, mas havia uma certa confusão sobre em qual estilo musical a banda poderia se encaixar.


Os gritos de guerra de Joelma em seus shows, em resposta aos ataques xenófobos, não deixaram dúvidas sobre sua origem, "É essa guitarra galera, que faz o sucesso da nossa música paraense, isso é calypsooo!", mas no que diz respeito ao ritmo, até hoje algumas pessoas confundem.


Isso porque no início dos anos 2000 a banda era apresentada como uma banda de forró, pois quando se falava em Brega, as pessoas associavam ao Brega Pernambucano, que tinha como marca as músicas românticas mais "lentas", diferente do Brega agitado de Belém do Pará e da Banda Calypso.


Essa característica mais agitada e dançante no ritmo paraense é uma marca registrada das influências caribenhas mencionadas acima. O público do Recife, além dos nortistas, parecia entender as semelhanças dos ritmos, principalmente ao ouvir as baladas românticas da banda e por isso foi a primeira capital que abraçou o grupo musical, que construiu sua sede na capital devido à boa recepção.


No início, os representantes da banda evitavam o termo "brega" para descrever seu ritmo, mesmo sabendo que no Pará todos o chamavam assim, não de forma pejorativa, pois ali o termo ganha valor de sociabilidade, como algo próximo da palavra "curtir ", mas para tentar se diferenciar dos artistas do brega que já haviam alcançado sucesso, e que, de fato, eram diferentes por representarem o brega pernambucano.


O curioso é que o termo "Brega" nunca deixou de ser usado para se referir à banda, devido à estética bregueira (temas românticos nas músicas) e aos figurinos ousados e extravagantes de Joelma, uma de suas marcas artísticas.


Depois que o sucesso do grupo se solidificou e outras bandas do Pará começaram a ganhar notoriedade nacional, os representantes da Banda Calypso passaram a dizer mais abertamente que seu ritmo era Brega, na verdade, antes, dizendo que seu ritmo era "calypso", eles estavam apenas escondendo o prefixo, Brega. Brega Calypso é um subgênero do Brega Paraense.


Essa confusão com o termo persiste até hoje, e isso acontece porque o Brega é um ritmo muito rico e cheio de mudanças, não só no norte, mas também no nordeste. O Brega é a raiz de diversos subgêneros da música popular brasileira.


O brega é um ritmo periférico, uma releitura popular da Jovem Guarda que passa a incorporar outros ritmos populares e regionais, deixando de ser tocado apenas em lugares marginalizados; é o ritmo que faz com que o termo deixe de ser pejorativo e se torne um símbolo de identidade e sociabilidade. . e assim ele existe até hoje, sempre aberto a mudanças populares.


Por fim, temos esse cenário, de um lado o Brega Pernambucano, tendo como um dos mais famosos cantores Reginaldo Rossi e sendo reconhecido pelo público como o Rei do Brega, de outro o Brega Paraense, desde o início mais dançante e tendo como expressão uma banda que representa um subgênero do Brega Paraense, o Brega Calypso, e como cantora Joelma, que, mesmo após reestruturação pessoal e profissional, continua sua carreira solo, sendo a líder representante do ritmo.


Nesse percurso, um acontecimento emblemático foi a gravação de um “feat” que já é idealizado com o objetivo de ser histórico: na gravação do disco Volume 16, em 2011, a Banda Calypso decide chamar Reginaldo Rossi para uma participação especial.


O título da música é "Não posso negar que te amo" e não poderia ser diferente, a história é um diálogo entre um casal que passa por problemas, traições, e que fica perguntando sobre o sentimento e a possibilidade de perdão ou a perda do parceiro romântico.


Há dois fatos curiosos sobre isso, além da representação fidedigna da estética do Brega, em 2013 a banda decidiu gravar um DVD no Distrito Federal e contou com a participação de Reginaldo Rossi, que já estava com a saúde debilitada e esta foi sua última participação em gravações audiovisuais. Na apresentação, enquanto a música estava na parte instrumental, Reginaldo verbalizou: "Agora a rainha vai cantar, canta Joelma, canta!".


Para muitos observadores, este evento foi um marco na carreira da cantora, visto como o reconhecimento de Joelma como a maior representação feminina do Brega e, para ser mais ousada, a Rainha do Brega.


No Brasil, a quantidade de pesquisas acadêmicas sobre ritmos populares vem crescendo, talvez um sinal da abertura das universidades, um sintoma da maior democratização desses espaços e discussões.


O número de estudos sobre a construção artística de Reginaldo Rossi como Rei do Brega é considerável, mas tem havido um movimento relativo: Joelma virou foco de pesquisa e, para aproveitar e tentar influenciar esses pesquisadores, talvez esse encontro de Joelma e Reginaldo Rossi possa ser descrito como o encontro do Rei e da Rainha do Brega, representando as duas maiores vertentes do ritmo, pernambucano e paraense.


Referências das imagens:

https://www.youtube.com/watch?v=4w2rd85uh8E


Referências:


SILVA, E. L. Do bordel às aparelhagens: a música brega paraense e a cultura popular massiva. Tese (Doutorado). Pontificia Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, 2009. Disponível em: <https://sapientia.pucsp.br/bitstream/handle/4126/1/Expedito%20Leandro%20Silva.pdf>. Acesso 04/06/2022.


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LAGO, M. P; SOUZA, C. S; FERREIRA, E. C. “MENINA DO REQUEBRADO” – TRAJETÓRIAS, EXPRESSIVIDADES & PERFORMANCE DA CANTORA JOELMA A PARTIR DA CULTURA MUSICAL PARAENSE. Novos Olhares Sociais, Vol. 3, n.2, 2020. Disponível em: <https://www3.ufrb.edu.br/ojs/index.php/novosolharessociais/article/view/554/276>. Acesso 04/06/2022.


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