REMIGRAÇÃO: o medo dos imigrantes
- Alan Rangel

- há 58 minutos
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A remigração (migrar novamente, voltar) é uma proposta em curso, capitaneada por partidos e movimentos políticos de extrema direita, que busca limitar ou expulsar migrantes e descendentes de seus países. O termo foi eleito, em 2023, como a “despalavra” do ano na Alemanha[1]. É um fenômeno que tem se alastrado em alguns países no Norte Global, e, claro, vem ganhado adeptos com ajuda dos meios digitais, que disseminam o pânico. Este, usado como arma ideológica, moral e política aponta os imigrantes como causa da violência, desemprego e degradação cultural. Esses de fora, dizem, “têm descaracterizado e prejudicado nossas raízes nacionalistas, a nossa identidade e nossa economia”. Eis a resposta simples que corrobora com a pregação da remigração.
“O termo ganhou destaque pela primeira vez no cenário político alemão no início de 2024, quando a notícia de que políticos do AfD haviam participado de um encontro com neonazistas para discutir a deportação em massa de milhões de imigrantes e "cidadãos não assimilados" — independente de situação legal ou de possuírem cidadania alemã — escandalizou o país”[2]
Essa questão revive a teoria de que os seres humanos sempre repetem os mesmos comportamentos ao longo de milhares de anos, o que inclui o medo do outro. O medo -associado a ideia de perigo, ameaça, risco - é uma emoção primária, biológica, com a função psicológica de preparar o organismo para luta ou fuga. Assim, esse tipo de comportamento, o medo, sempre existiu.
Particularmente, essa é uma discussão bastante interessante. A tese conservadora desse ponto, é de que a espécie humana já tem uma programação, e que nada, absolutamente nada na sua experiencia modificaria o instinto do medo. Está intrínseco em nossa constituição. A vida pacífica, entre pessoas e culturas diferentes, será sempre uma utopia, um não lugar. Nesse ponto, é natural o apelo a remigração, mais um termo criado contra a presença de imigrantes, que insiste na necessidade de eliminação do medo.
Eis então a pergunta: por que os imigrantes causam medo? Por que virou uma pauta pública? Por que grupos neofascistas usam essa pauta para convencer os jovens? São muitas camadas. Porém, um ponto me parece interessante, considerando a questão biológica do medo. É fato que o medo não pode ser extirpado da constituição humana, mas o seu objeto, sim.
Alguém nasce com “gene de medo de imigrante”? Até onde sabemos, a questão do medo, do ponto de vista biológico, passa por um complexo conjunto de genes que podem influenciar a resposta do medo, incluindo sua maior ou menor intensidade, além de conexões neurais mediada por neurotransmissores como serotonina e dopamina. Há medos considerado mais naturais, como o medo altura, escuridão, ruídos muito altos (trovões, por exemplo) e de estranhos – este último marcantes em bebês durante alguns meses.
Se a mente/corpo percebe os imigrantes como ameaças, é “natural” a reação de medo. E isso tem um potencial de contaminar ou influenciar milhares de pessoas, ainda mais com o uso da internet. Essa contaminação é justificada por uma série de discursos, com toda parafernália audiovisual, em que os imigrantes são colocados como perigosos para os “verdadeiros cidadãos de nosso país”. Qual é a saída para isso? Posso citar o fim do capitalismo, mas a aversão ao estrangeiro já existia antes desse sistema econômico. Assim, continuo acreditando que o caminho é a educação, entendida como um processo de aprendizado eficaz que se transmite de geração em geração.
Não podemos abolir o medo ao estrangeiro sem ensinar as crianças o quão danoso foram as guerras modernas travadas entre países fortes (militarmente) contra países fracos (militarmente) por causa de interesses econômicos, políticos e religiosos. Parte da migração contemporânea tem origem na ação das potências militares que invadiram e destroçaram as regiões de África, América, Asia e Oceania.
Não podemos eliminar o medo do estrangeiro sem antes ensinar as crianças que, independente da cor, etnia, religião e identidade cultural, somos todos seres de uma mesma espécie. Que não é porque o outro é negro, africano e mulçumano que ele é uma ameaça à minha vida e a dos meus pares. Não é possível eliminar o medo do estrangeiro sem ensinar as crianças que a vida humana na terra sempre foi difusão, mistura e migração geográfica e cultural. E, por fim, não tem como eliminar o medo ao estrangeiro sem antes ensinar que nada justifica moralmente, psicologicamente ou emocionalmente uma hierarquia social, seja ela política, cultural, racial, gênero ou econômica. Isso tudo corrobora com a importância das disciplinas de humanas, como história, geografia, sociologia, filosofia. Isso vai garantir absolutamente que todos possam agir de boa-fé? Não, porém, ao menos, isso não se transformaria em problema social.
Tudo isso precisa ser transmitido a cada nascimento. Não podemos admitir retrocessos no ensino. Se uma sociedade deixar de ensinar os pontos antes assinalados, e imputar os problemas sociais aos estrangeiros, ou incitar hierarquias de todo tipo, essa mesma geração vai repetir as piores barbaridades que os seres humanos cometeram contra si mesmos. E aí, é claro, os genes do medo serão direcionados aos estrangeiros. Não porque seja da “natureza humana” ter medo - isso já sabemos-, mas porque o objeto do medo, com raríssimas exceções, é ensinado e reproduzido.
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Fonte da imagem: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c1lp41e3dq5o
Notas
[1] https://www.dw.com/pt-br/remigra%C3%A7%C3%A3o-%C3%A9-eleita-a-despalavra-do-ano-na-alemanha/a-67985371

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