RESENHA, O BAIANO TEM O MOLHO DE “O AGENTE SECRETO”
- Jacqueline Gama

- 17 de jan.
- 6 min de leitura
Atualizado: há 5 dias

No domingo, 11 de janeiro de 2026, o longa-metragem O agente secreto, do diretor Kleber Mendonça Filho, protagonizado por Wagner Moura, foi agraciado com o prêmio de Melhor Filme Internacional e Melhor Ator, na premiação que precede o Oscar, o Globo de Ouro. Pela primeira vez um longa brasileiro soma duas estatuetas na premiação. O filme já tinha ganho Melhor Ator e Melhor Longa Internacional no Critics Choice Awards, prêmio da crítica especializada e Melhor Ator e Diretor no Festival de Cannes, em Paris.
A premiação do Golden Globes foi uma comemoração para o Nordeste, já que Kleber é pernambucano e Wagner baiano, essa é a união PEBA que deu certo, como disse o comediante e historiador Matheus Buente em um dos seus vídeos para o Instagram. A premiação foi um deleite para todo o Brasil, que no ano passado, em 2025, já tinha celebrado a vitória de Fernanda Torres como melhor atriz por Ainda estou aqui (2024).
Neste ano, a dobradinha brasileira veio com a premiação do baiano Wagner Moura, protagonista de O agente secreto, e que deu seu nome com o pagode viral de O Kannalha, O baiano tem o molho, após dançar na sacada do Cinema Glauber Rocha, local escolhido para a pré-estreia do longa em Salvador.
Wagner tem encantado por onde passa, não só pela belíssima atuação no filme, interpretando dois personagens, além de duas fases do protagonista Armando/Marcelo, mostrando versatilidade e presença de cena. Como também por seu carisma, educação e falas ativistas em prol da cultura e da necessidade de resgate da memória da ditadura militar, reiterada no palco da premiação do Globo de Ouro.
O AGENTE SECRETO COMO REFERÊNCIA ACADÊMICA
O agente secreto inova pela sua forma de contar, misturando as temporalidades do passado e do presente, que se entrelaçam em uma narrativa que é contada por fitas de áudios, por vezes fragmentas. O espectador precisa estar atento aos detalhes e ao fio da história.
Ao mesmo tempo em que é um filme de drama o longa também é de ação, com cenas sobre desova de corpos por matadores de aluguel, uma polícia debochada e corrupta em meio a ditadura militar, que acoberta os mais abastados.
Além de criticar as questões sobre as políticas de miscigenação do Brasil, que incorreu de forma misógina, através de estupros e outras violências. E o fato de sulistas e sudestinos, principalmente os brancos e endinheirados, terem aversão ao nordestino e ao que se produz nessa região, principalmente ao conhecimento artístico e intelectual.
O agente secreto é também um filme sobre a valorização da pesquisa acadêmica, desde a necessidade de incentivo, principalmente nas Universidades Públicas, quanto na conservação do arquivo para que ele seja fonte de pesquisa no futuro.
MARCAS DO DIRETOR KLEBER MENDONÇA FILHO
Esses dois aspectos da crítica a xenofobia por parte do sul e sudeste do país, como também a necessidade de memória arquivística são marcas do diretor Kleber Mendonça Filho. As temáticas já estavam expostas nos longas O som ao redor (2013), Aquarius (2016) e Bacurau (2019). Além do documentário baseado em arquivos Retratos fantasmas (2023) e no curta metragem Recife Frio (2009).
Outro ponto que é uma assinatura do diretor, é o fato dele utilizar o horror e o absurdo como composição dos seus roteiros. Em O agente chama atenção a história da “perna cabeluda”, que de fato foi publicada no Diário de Pernambuco, em 1976, como uma matéria real. “A perna cabeluda” foi um recurso para driblar os sensores da ditadura e uma crítica direta contra à atuação truculenta dos milicos e à violência contra a mulher.
“A perna cabeluda” é reproduzida de forma literal, um recurso representativo do horror que Mendonça utiliza em seus outros longas, especialmente em O som e em Bacurau, e principalmente no curta metragem Vinil Verde (2004).
Outra aparição inusitada é da gata Carminha, que na trama a partir de um efeito visual, possui dois rostos, chamados de Lisa e Elis. A aparição chama atenção pelo estranhamento e misticismo. Inclusive a gata ganhou o prêmio Golden beast (Bicho de Ouro) por sua atuação.
Também o banho de sangue, embora muito menos intenso do que em Bacurau, ou na cachoeira de O som ao redor, aparece nas cenas finais de O agente secreto, deixando a atmosfera densa. Entretanto, Kleber Mendonça surpreende no desfecho, que apesar de deixar uma mensagem para o futuro, marca dos seus finais abertos, difere ao fechar o enredo de forma redonda e mais explicativa.
Outro ponto comum é o fato dele fazer alusão a fatos do contemporâneo, se nos seus três longas anteriores de ficção havia uma verve política do momento extremamente presente, como a especulação imobiliária e a crise das empreiteiras, em Aquarius e em O som ao redor. E o avanço da extrema direita na política brasileira e das políticas de extermínios às populações marginalizadas, em Bacurau.
Em O agente secreto há um caso de uma rica que responde criminalmente após deixar o filho da empregada sair sem sua supervisão, incorrendo no atropelo e morte da criança. O enredo abordado remete ao do menino Miguel, deixando no elevador pela patroa da mãe em um prédio de luxo do Recife, o menino de 5 anos morreu após cair da cobertura, no ano de 2020. Até hoje sua mãe Mirtes Renata luta por justiça.
Outros símbolos culturais que o filme alude são as mordidas de tubarão na praia da Boa Viagem, com diversos exemplos. Essa questão do predador marinho de Recife também é uma constante nas obras de Mendonça. Além da menção ao carnaval Pernambucano, signo que retorna em suas obras.
ATUAÇÕES QUE ENCANTAM
Além de um roteiro rico e uma narrativa que prende o expectador, O agente secreto encanta pelas atuações, não apenas a de Wagner Moura, protagonista do filme. Mas a de Tânia Maria, a atriz de 78 anos, que interpreta Dona Sebastiana, uma senhora militante responsável por gerir o prédio onde estão alguns refugiados da ditatura.
A atriz ganhou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante pela Associação de Críticos de Santiago (Chile) e apareceu cotada para concorrer ao prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante na corrida do Oscar 2026.
Tânia Maria é um exemplo de que nunca é tarde para sonhar, a atriz potiguar, revelada em Bacurau (2019), trabalhou muitos anos como artesã no município de Parelhas, Rio Grande do Norte, onde nasceu. E apesar de nunca ter ido ao cinema, conseguiu uma virada na vida já na terceira idade.
Outra atuação de destaque é também de outra potiguar, Alice Carvalho, mulher negra, bissexual e ativista. Carvalho se destaca em tela com a personagem Fátima. Ela é um contraponto da história e um dos alvos de racismo do enredo. O ator Carlos Francisco, que interpreta seu pai também aparece como destaque em cena ao atuar como o Sr. Alexandre, que ajuda o personagem de Marcelo/Armando. O ator foi entrevistado aqui pelo Soteroprosa em 2021, por Bacurau (2019).
A composição do elenco é louvável: Gabriel Leone, Hermila Guedes, Maria Fernanda Cândido, Udo Kier, Thomas Aquino, Marcelo Vale. Além de atores menos conhecidos e figurinhas já carimbadas em filme do diretor pernambucano. Kleber continua seguindo a linha de trabalhar com atores consagrados e atores amadores ou com trabalhos mais conhecidos nas cenas regionais, oportunizando o conhecimento geral dessas personalidades que por vezes não chegam ao cenário nacional.
O agente secreto é um filme extremamente necessário e um amadurecimento do diretor, que como falei na minha dissertação Transes do presente, um dia se tornará um clássico como Glauber Rocha. A repercussão do longa metragem e do cinema brasileiro nestes dois últimos anos (2025/2026) também é um convite para uma maior valorização da cultura e da arte no nosso Brasil. Se antes éramos o país do futebol, hoje somos também o país do cinema!
Imagem de capa: Splash UOL < https://www.uol.com.br/splash/noticias/2026/01/13/o-agente-secreto-arrecada-mais-internacionalmente-que-no-brasil-veja.htm>
REFERÊNCIAS
Dissertação de mestrado, Transes do presente: uma análise antropófaga e distrópica do filme Bacurau, por Jacqueline Gama (2024). <https://repositorio.ufba.br/handle/ri/40008>
Reportagem Diário de Pernambuco, Perna Cabeluda driblou a ditadura e colocou violência contra a mulher nas páginas do Diário, por Marília Parente (2026). <https://www.diariodepernambuco.com.br/vida-urbana/2026/01/11705050-perna-cabeluda-driblou-a-ditadura-e-colocou-violencia-contra-a-mulher-nas-paginas-do-diario.html>
Reportagem Agência Brasil, Caso Miguel completa 5 anos: mãe critica lentidão da Justiça, por Luiz Claudio Ferreira (2025). <https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2025-06/mae-de-miguel-que-morreu-ha-5-anos-critica-lentidao-da-justica>
União PEBA, Matheus Buente (2026) < https://www.instagram.com/p/DTaiu2aDhPT/>
SOTEROPROSA. 27 de agosto de 2021. Entrevista de Jacqueline Gama com o ator Carlos Francisco, via Instagram do Soteroprosa. Parte 1: Live de Carlos Francisco com Jacqueline Gama. [Postagem de vídeo]. Instagram. Disponível em: <https://www.instagram.com/reel/CTGF63UFkaq/>
SOTEROPROSA. 27 de agosto de 2021. Entrevista de Jacqueline Gama com o ator Carlos Francisco, via Instagram do Soteroprosa. Parte 2: Live de Carlos Francisco com Jacqueline Gama. [Postagem de vídeo]. Instagram. Disponível em: <https://www.instagram.com/reel/CTGOJWQFB0r/>
Youtube
Canal Uol, Com muita dança, Wagner Moura dá show com O Kannalha na pré-estreia de ‘O Agente Secreto’,<https://www.youtube.com/watch?v=vWAJGpVrSNU>
Ingresso.com, trailer 1 < https://www.youtube.com/watch?v=JB6Wf4DM9GY>
Ingresso.com, trailer 2 < https://www.youtube.com/watch?v=g0GB20yE9JY>



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