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RESIDENCIAL DE LUXO: A Voracidade da Especulação Imobiliária na Praça Castro Alves





Fiquei sabendo, através de uma informação “instagramada”, que um grupo imobiliário está prestes a viabilizar um empreendimento onde hoje está localizado o Palácio dos Esportes - antiga sede da Federação Baiana de Futebol - que será remodelado e se tornará um condomínio de luxo. Onde isso? Na Praça Castro Alves, centrão de Salvador. Pois é… numa área ligada à história da cidade, vão permitir que sejam instalados apartamentos de alto padrão para usufruto da grã-finada, com investimento de R$ 51 milhões. Alguns metros à esquerda, está instalado o Hotel Fasano - pertencente ao mesmo grupo - onde antigamente funcionava o Jornal A Tarde. Parece que a chamada “revitalização” do Centro Histórico passa por fixar moradia e hotelaria pra classe média alta beber seu vinho importado tendo à frente a bela visão da Baía de Todos os Santos.

 

No mês de abril, o IPHAN autorizou o aterramento de um sítio arqueológico justamente na frente do edifício referido, e agora recém contraído, que desde 2019 estava sendo inspecionado por especialistas que estudavam vestígios do antigo Teatro São João, destruído por um incêndio em 1923. As ruínas dessa casa de espetáculo agora vão ser, por ora, desativadas, pra que as obras do condomínio (chamado inicialmente de Palácio Castro Alves) possam começar sem atraso, com toda parcimônia, investimento, e cuidado, afim de que futuramente um monte de bacana possa usufruir da pitoresca paisagem. Até o momento, não sei porque o IPHAN facilitou tanto a coisa...

 

O Grupo Prima, responsável pela empreitada, foi fundado em 2005 e são especialistas em projetos de luxo em bairros como Horto Florestal, Barra, Vitória, Cidade Jardim, ou seja, logradouros onde residem gente com muita bufunfa. Não tenho a mínima ideia do projeto arquitetônico, se vai obedecer regras para uma região diferenciada, se a prefeitura vai acompanhar, não há nenhuma informação, por enquanto. O que me deixa preocupado é que até o momento parte da imprensa e grupos sociais que costumam estar atentos a propostas de gentrificação e hipervalorização de áreas públicas, ignoram o que está pra acontecer. Vão aguardar o prédio ficar pronto?

 

Em outubro de 2025 publiquei o artigo “DA RUA CHILE À RUA CHIQUE: O Loteamento do Centro Histórico de Salvador”, onde falo justamente do processo de elitização desse centro antigo, repleto de estabelecimentos que estão sendo desenvolvidos e voltados para gente abastada, o que indica que o poder público está entregando programas de recuperação estrutural à iniciativa privada! Como podemos esperar uma proatividade de estâncias governamentais para incrementar projetos de integração popular em regiões históricas, se eles abrem mão dessa prioridade para repassar o patrimônio cultural para mão de terceiros??? Pior: a população fica inerte, sem saber de nada, passiva, e sem possibilidades de cobrar respostas porque simplesmente desconhece o que está havendo! Nenhum plano integrado de centro cultural, instituto de música, conservatório público, museu, nada!

 

Isso, infelizmente, não é novidade. Antonio Risério no livro “Uma História da Cidade da Bahia” relembra alguns casos sobre a total falta de sensibilidade das autoridades com nossos bens simbólicos. A partir da década de 1910, nossos governantes queriam implantar uma lógica modernizante em nosso município, com projetos de reforma urbana que poderiam dinamitar boa parte do centro histórico. Sobrou pra antiga Igreja da Sé - então localizada onde hoje está a Praça da Cruz Caída e então uma das mais antigas do Brasil. Nos anos 1930, a pedidos intensivos da Companhia Linha Circular de Carris da Bahia, responsável pelos bondes que circulavam por aqui, e com o beneplácito do cardeal Álvaro Augusto da Silva, a igreja foi demolida “para nada”, como atesta Risério (pelo menos não virou um “Condomínio Sé Prime Residence”). A solicitação, além do revigoramento urbanístico, serviria para ampliar a circulação de bondes, o que acabou sendo puro "cheiro mole". Jorge Amado foi um dos agentes contra a derrubada da igreja, escreveu dura coluna jornalística acusando o cardeal de ter embolsado suborno para que o templo viesse abaixo. O arquiteto Mario Leal Ferreira, que estava naquele período a serviço do governo do Estado, também gostaria que muitos casarões ruíssem de vez. O Mosteiro de São Bento escapou por pouco. Durante a construção da Avenida Contorno, estava prevista a derrubada total do Solar do Unhão! Olha quanto conjunto arquitetônico correu o perigo iminente de não existir mais diante de nossos olhos! Poderíamos ter hoje, ao invés da Fundação Casa de Jorge Amado, situado na Ladeira do Pelourinho, um apart-hotel com o nome "Amado House Full Service".

 

Apesar de naqueles tempos ainda não existir nenhuma motivação turística instruindo preservação cultural, havia sim a questão paisagística e memorial, que não estava sendo avaliada por puro desejo de modernidade, numa cidade que já era conhecida por suas inúmeras mazelas sociais. E agora, em pleno 2026, a força da grana que ergue e destrói coisas belas parece estar rugindo alto, vide a restauração de um antigo edifício que pretende ser tornar um residencial top aos pés da estátua do poeta. Saliento que não há em vista nenhum projeto de demolição ou implosão de qualquer casarão ou igreja, como pode parecer, quando comparo os acontecimentos do passado e do presente. O que estou tentando alinhar é a força de classes empresariais em se apossar de territórios que deveriam ser melhor escrutinados por governos e órgãos estatais, a fim de que não percamos o fio da meada com a história e a memória que ligam a trajetória de nossa cultura e identificação com sobrados, palácios, edificações e ruas que configuram laços étnicos, sociais, e espaciais da vivência do nosso povo, registrados em romances, pinturas, músicas, poesias, e agremiações carnavalescas .


Lamento a dificuldade de mobilização popular no entorno desse descalabro, assim como o descaso da imprensa em não se inteirar sobre o assunto, martelando em nossas cabeças incessantemente o desleixo com nossa tradição citadina. Do jeito que vai a entrega do patrimônio público, veremos igrejas da Sé tombarem constantemente, até nosso Centro Histórico ficar recheado de prédios suntuosos e rodeados de garrafas de vinho importado vazias.


FONTE:





RISÉRIO, Antonio. "Reformismo e Tradicionalismo". In: RISÉRIO, Antonio. Uma História da Cidade da Bahia. Rio de Janeiro: Versal Editores, 2004. p 489-498.


IMAGEM: Instagram


 

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