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Rivalidade feminina: a disputa de narrativas storytelling pela crononormatividade





Quando falamos em rivalidade feminina, pensamos prontamente em mulheres disputando a atenção e amor de um homem, sem perceber que essa situação é muito mais ampla. Rivalidade feminina é uma competição de narrativas sobre as etapas da vida de uma mulher, ou como eu resolvi chamar, o embate do storytelling.


Storytelling é uma expressão em inglês que significa, em tradução simples, “contar histórias”, e fala da capacidade de envolver pessoas através de uma boa história. Os campos de marketing e comunicação digital têm usado muito essa expressão para construir narrativas no universo de informações que a internet se tornou. Os especialistas já entenderam que não há nada mais atrativo do que saber contar uma boa história e garantir a fidelidade do público dentro de um ambiente cheio de produções rápidas como as redes sociais. Cada estratégia comunicacional precisa estar alicerçada no corpo do storytelling e fazer jus aos valores da marca.


Essa abordagem não difere muito da prática cultural humana de gostar de ouvir e contar histórias de toda forma possível, incluindo o fuxico, a fofoca, a futrica, chame como quiser, é inevitável ficar tentado querer saber a história do outrem, especialmente se ela contradiz as normas sociais. Inclusive, as próprias regras sociais são uma forma de determinar como as histórias precisam ser contadas, revelando que o storytelling pode ser um mecanismo de controle da conduta humana. E isso tem nome! Chama-se crononormatividade.


Sabe aquele checklist da vida que é entregue pelos discursos familiares, escolares e de todos os grupos de sociabilidade? Essa é a crononormatividade, uma forma de determinar o que devemos fazer em cada etapa da vida, e tem sua origem na teórica queer Elizabeth Freeman, que usou essa palavra para explorar as narrativas de vida de transexuais de gênero não contínuo. Na infância, cabe aos pais garantir a normatividade dos ciclos de desenvolvimento como engatinhar, caminhar, falar, ler e escrever no "tempo certo”. Na adolescência, há a disputa de narrativas entre o que os pais e a comunidade mais velha espera do jovem e o que seus amigos e parceiros esperam de um adolescente interessante e popular no grupo. E a vida adulta? Aí chega o momento de você prestar atenção para cumprir todos os pontos da lista.


Para o gênero feminino, como já discutimos em muitos outros textos, é factível a necessidade de ser determinada as etapas e os fatos que transcorrerão pela sua vida. Tem a idade de ser mocinha e ser mulher, de ser ingênua e ser ousada, de ser solteira e ser casada. Um exemplo bem recente explica bem a crono-normatividade atuando nos discursos sociais. Quando Cláudia Raia e Viih Tube anunciam que estão grávidas, cada uma delas interrompe o storytelling que as pessoas esperavam delas. Claúdia sendo muito velha para ser mãe de novo, e Viih Tube sendo muito nova para a maternidade.


Essa imposição não quer saber o que a mulher em si pensa ou deseja. Ela apenas relembra a sujeita que algo pode estar dentro ou fora da linha do tempo desenhada para o gênero feminino. Imersa nessa perspectiva é que pode-se entender a rivalidade feminina dentro do embate do storytelling. As mulheres são ensinadas não somente a seguir a linha invisível de acontecimentos relevantes à sua condição, como também lhes cabe ficarem atentas sobre a história da outra. O problema não é ficar para trás no storytelling, mas na disputa dele em relação às amigas, conhecidas e familiares.


Se é hora de namorar, faça, porque todas as suas primas estão fazendo e, se não acontecer, talvez tenha algo de errado. Se a idade para casar bate à porta, invista no seu namoro, mesmo que não lhe faça bem, porque o importante é não perder a oportunidade de ter um homem ao seu lado, já que todas as suas colegas do trabalho estão noivas. E quando chega a hora de encomendar o bebê? Melhor ter agora quando suas amigas estão tendo filhos, para que a criança tenha vários amiguinhos - ainda que você não se sinta nem segura ou pronta para isso.


E assim segue essa enorme narrativa feminina, que não pretende saber quais são suas necessidades, dores ou esperas. Ela faz as mulheres seguirem seus caminhos sem olhar para onde estão indo, pois sua visão está completamente dedicada ao entorno, para olhar as outras mulheres e perceber o quão próximo elas estão delas, tendo total cuidado de não se afastarem e perderem sua identidade feminina.


Os efeitos dessa rivalidade feminina dentro do embate do storytelling é tanto individual quanto coletivo. Como indivíduos, as mulheres não encontram tempo, espaço ou energia para se conhecerem antes de tomarem uma decisão importante, levando a uma sensação de vazio e não pertencimento sobre uma vida que aparentemente construíram. Como grupo, essa disputa faz com que não possam ser construídas relações saudáveis e sinceras, alicerçadas em amor e confiança.


É até normal, por exemplo, quando uma das integrantes do corpo social questiona alguma normatividade, que ela seja rapidamente silenciada pelas tais amigas. Não vejo isso como um comportamento de maldade, mas um enorme medo de falar sobre o não-dito e encarar suas próprias dores e tristezas. A rivalidade feminina, enquanto está ativa, não dá espaço para o espelhamento natural que acontece entre pessoas que vivem as mesmas opressões, lutas e sofrimentos.


Por conta disso, por vezes, a única forma de se desvincular dos storytellings alimentados pela crononormatividade é romper laços, mesmo que sejam relações de muitos anos. A solidão do convívio vai existir, mas a mulher também terá mais espaço livre para pensar e caminhar até seu próprio sentido de vida e destino. Em um trabalho penoso e gradual, a sujeita vai descobrir que detém todas as habilidades necessárias para escrever cada palavra da sua narrativa, tornando-se, enfim, contadora de sua própria história.


Fonte: https://sattvadescubra.com.br/5-dicas-para-aumentar-sua-autoestima/



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