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ROMANTIZAÇÃO DA POBREZA: ALÍVIO DA CULPA DA CLASSE MÉDIA




Me encontrava, certo dia, em um restaurante que fica de frente para o mar em uma comunidade localizado próximo a Ribeira, em Salvador. A cozinha do restaurante é um quadrado minúsculo que não cabe uma mesa sequer. As mesas e as cadeiras do estabelecimento são de plástico, daquelas mesmo de boteco, e ficam debaixo de um toldo desgastado e rasgado do outro lado da rua, ao lado do mar.


Fui convidado para comer nesse local por um homem com quem me relacionei por um breve período. Ele estava cursando sua quarta graduação em uma federal e era também funcionário do alto escalão da Receita Federal. “Achei que ia gostar de almoçar na comunidade já que é antropólogo”, ele disse. Eu ri de canto de boca.


Assim que chegamos, demonstrou que possui intimidade com o local e com as pessoas que ali moram e trabalham. Logo explicou que havia defendido uma dissertação na área da biologia tratando dos aspectos ambientais e socioeconômicos do lugar. Inteligentíssimo, me ensinou sobre as modificações e resistência daquele espaço ao longo das décadas frente a exploração dos recursos naturais e humanas pela ganância dos empresários sedentos por lucro. Em um dado momento, ele disse:


- Mas é bonito, né?

- O mar? – Perguntei,

- Não, a forma com que essas pessoas vivem felizes apesar dos baixos recursos. É um certo privilégio poder morar de frente para o mar, eles vivem a natureza de forma que nós que somos mais urbanizados não vivemos. É uma vida mais leve, mais comunitária e em contato com a natureza. Sei lá, eu sinto que eles tem uma sorte que nós não temos. Valorizam as coisas certas. Sabem viver a vida melhor.


Fiquei em silêncio. Ele aguardou a resposta também em silêncio. Desviei o olhar para o mar, mas ele queria uma resposta. O home, não o mar. Ele perguntou se eu não concordava com seu ponto de vista. Eu disse que não e expliquei que a romantização da pobreza consiste em cultivar a imagem de que os pobres possuem uma aura de pureza, elevação moral e comportamento idealizado associado à humildade e tudo isso é uma invenção da classe média para manter os corpos pobres dóceis – de modo que não se rebelem - e para nos impedir de fazer reflexões realmente críticas sobre a pobreza.


Expliquei que os pobres são pessoas reais, que sentem as carências e dificuldades de viver no mundo capitalista e sua acachapante ganância e desejo de lucro via manutenção da concentração de renda, miséria e exploração do trabalho. Não é bonito viver de frente para o mar enquanto se passa fome, enquanto você está carente de acesso à educação e saúde. A realidade é que eles vivem desamparados pelo Estado. Não é porque acham bonito, mas porque não há escolha.


Refletindo um pouco mais agora sobre essa história, penso que é necessário salientar que há agência dentro dessa estrutura por parte das pessoas pobres. Eles resistem, recriam essas realidades para as tornar menos opressoras ou mais toleráveis, mas dentro de um quadro regulado de opções, instrumentos e possibilidades de ação – o que foge do esperado ou permitido é fortemente controlados pelo mercado e pelo Estado.


Essa não é uma real forma de autonomia ou liberdade. Esses movimentos são constritos dentro de um quadro regulado, repito. Tendo essa realidade em mente, entendo que a romantização obscurece as verdadeiras causas da pobreza, como a concentração de riqueza, a falta de políticas públicas eficazes e a exploração econômica. E tem por efeito também aplacar a culpa da classe média de esquerda sobre a diferença de classes construindo discursos que não são radicalmente suficientes para mobilizarem ações que potencialmente poderiam alterar esse sistema.


Bebericamos cerveja, comemos moqueca, conversamos amenidades, mas do outro lado da mesa o meu companheiro não digeria bem a resposta. Assim, ao finalizarmos a refeição, enquanto pagávamos as contas, conversava com a dona do restaurante, que também assumia as funções de cozinheira e garçonete. Ele comentou com ela, esperando concordância, sobre como é bonito e um privilégio morar na frente do mar, junto a uma comunidade de pessoas que se conhecem e se ajudem, fazendo referência a uma hipotética harmonia entre os moradores.


A senhora, já idosa e corcunda, que o chamava de doutor, respondeu que aquele mar não era para ela, mas sim para os clientes. Ela afirmou que o restaurante fecha uma vez ao ano, no dia 1 de janeiro, exceto esse dia trabalhava de domingo a domingo. Desde que era uma criança, afirmou ela, “ficava com a barriga esquentando no fogão”. Lamentou ainda não manter uma boa relação com sua irmã e com os demais moradores e comerciantes do bairro, pois há uma disputa que se estende há décadas pelo uso daquele espaço comercial.


Por fim, ela disse que se pudesse fecharia aquele restaurante e o abandonaria sem olhar para trás, mas acredita que terá de trabalhar até o fim da sua vida, pois não foi orientada a contribuir para o INSS e hoje não sabe como fará para se aposentar, seus processos tramitam na justiça. No caminho de retorno para casa se fez um silêncio constrangedor.


Deixemos de poetizar as vidas precárias sem complexificar suas narrativas. As vidas dos sujeitos à margem do Estado e da sociedade não são reduzidas a tristeza, mas é contraproducente hiper dimensionarmos as potências das resistências em nosso desejo de mostrar narrativas outras, possibilidades outras de existência, como pequenos Davis enfrentando Golias, sem nos atentarmos para as complexidades desses modos de existência e como são limitantes para quem as vive.

 

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