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‘’SÓ A LUTA VENCERÁ A LAMA’’: 20 anos da revolta do buzu em Salvador




A frase ‘’Só a luta vence a lama’’ de Dom Geraldo Lyrio Rocha, está cravada num cartão postal do MAB - Movimento dos Atingidos por Barragens - e diz respeito a uma fala do Arcebispo de Mariana na abertura do Encontro dos Atingidos na bacia do Rio Doce pelo rompimento da barragem de Fundão (realizado em novembro de 2016, 1 ano após o rompimento da barragem de Fundão). O cartão postal exposto em meu mural de recados tem a função de me lembrar todos os dias que só a luta vence a lama, literal e metaforicamente.


Neste texto, nossa lama será a imposição pelo aumento da tarifa de buzu, pela prefeitura carlista de Salvador, no ano de 2003 e nossa luta será a revolta, com duração de 3 semanas, organizada por estudantes secundaristas de toda a cidade, contra o aumento da passagem de R$1,30 para R$1,50.

20 centavos faz tanta diferença assim? FAZ!


Entretanto, o ponto aqui não é, somente, a imposição cruel do aumento da tarifa de ônibus sem que junto a isso venha um aumento da qualidade do transporte público da cidade, mas também, a capacidade da juventude soteropolitana de organização e mobilização.


A revolta do buzu completa em agosto de 2023 exatos 20 anos e foi um movimento singular da juventude soteropolitana secundarista. Mas não é de hoje que os estudantes estão por dentro (e fomentam) mobilizações que denunciam a ineficiência do transporte da cidade (entre outras pautas). Movimentos contra o aumento de tarifa, a favor da meia passagem aos finais de semana, do passe livre e melhorias nos transportes públicos são pautas maduras presentes nas demandas da juventude, sobretudo entre 2003 e 2007, onde uma série de manifestações levantaram (e assim continuam) tais questões.


Estudantes diariamente saem de seus bairros (vamos entender que esse texto se refere a um perfil específico de estudantes, em sua maioria negros e moradores das periferias e subúrbios) e ganham a cidade no trajeto casa-escola, escola-casa. Precisamos considerar que estudar em um local diferente de onde se mora é também um aprendizado para os estudantes, uma vez que, têm a oportunidade de estarem em contato com outros locais, arquiteturas e realidades. Estamos falando de um conceito necessário: Direito à cidade.


O autor francês Lefebvre (1968) diz que o direito ao pertencimento à cidade e a livre circulação nos possibilita compreender o mundo, sua história, memória e também sobre nós mesmos, a partir da relação que construímos com nosso território de pertencimento, afinal, ele é uma característica política da nossa existência.


Lá em 2007, quando Oliveira e Carvalho (2007) escreveram sobre a revolta do buzu, bem pontuaram:


Dentro da lógica que minimiza a participação do Estado nas políticas sociais, os serviços públicos vêm perdendo a qualidade e aqueles indivíduos que têm condições de pagar migram para os serviços privados. É o que vem ocorrendo com o sistema de transporte público, a exemplo da educação, da saúde, da segurança. Cada vez mais, cabe à população que não pode arcar com veículos particulares vivenciar em seu cotidiano as mazelas de um serviço que é fundamental para assegurar a mobilidade nas cidades e o acesso a todos os demais direitos sociais, civis e políticos conquistados. (p. 4)


Outro ponto interessante é o que diz o sociólogo Benevides (2005) de que: uma característica marcante do movimento de estudantes na Bahia é a luta por direitos sociais, como o direito à cidade, ao acesso à educação, saúde e segurança, direito à cultura e ao lazer, pelo direito de ir e vir e ao trabalho. A gente é brabo e está no sangue que só a luta vencerá a lama mesmo - e aprendemos isso desde cedo.


A juventude soteropolitana secundarista vai para as ruas desde sempre e não recusa se juntar a luta de outras categorias com seus jograis bem ensaiados quando falamos da luta pelo direito à educação, apresentada aqui de forma ampliada, uma vez que, a garantia desse direito perpassa pela garantia da vida, de uma alimentação digna, de saúde, de segurança, de cultura e lazer, de trabalho, de ir e vir e de ocupar a cidade.


Vamos celebrar e visibilizar a luta dos secundaristas, dos professores, dos terceirizados, dos técnico administrativos, dos servidores públicos, dos sindicalizados e de todos aqueles que gritam incansavelmente, para que suas gargantas sejam fortalecidas e que essa história seja contada, ao invés de minimizada - como a Revolução Haitiana[1], uma revolta extraordinariamente bem sucedida, feita por escravizados, que mudou a história de todo o continente africano, mas que poucas pessoas de fato conhecem e entendem suas dimensões.


Por isso, é importante não esquecer que: ‘’Só a luta vencerá a lama’’.


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Nota:

[1] O Haiti foi a primeira colônia a abolir a escravidão em 1804 e se tornar independente, em decorrência da Revolução Haitiana. O sucesso da revolta dos escravizados haitianos deixou a América e a Europa com medo e por esse motivo se ouve tão pouco sobre essa história, afinal não se desejava que essa revolução fosse um exemplo para as outras colônias.


A imagem se refere a uma parte da capa do documentário ‘’A Revolta do Buzu 2003’’ de Carlos Pronzato. Disponível em: https://astram.salvador.br/documentario-revolta-do-buzu-2003-vale/


Para acessar o documentário: https://www.youtube.com/watch?v=n0pZG5kthjc


Referências:

Benevides, S. C. [Entrevista concedida a GAGEPPO], Guilherme. O troco – Por de trás das manifestações estudantis de 2003. Monografia de conclusão de curso de Comunicação Social, FIB, 2005.

Lefebvre, H. O direito à cidade. Tradução de T. C. Netto. São Paulo: Documentos, 1969a.

Oliveira, J. R.; Carvalho, Ana P.. A revolta do Buzu - Salvador (BA): Manifestações dos estudantes secundaristas contra o aumento da tarifa de ônibus. Juventude e Integração Sul-Americana: caracterização de situações e organizações juvenis. Relatório das situações-tipo Brasil. Salvador, set. 2007.


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