Salvador: os morcegos e os encantos da rua

Por Fabíola Cunha*



Entre duas casas havia uma fresta. Não sei o real motivo da fenda intencional, talvez não quisessem que as casas tivessem uma parede em comum. Compartilhar a parede era dividir conversas, ruídos matinais e noturnos e assim perder a privacidade.


As casas ficavam numa rua típica da periferia, vítima da amnésia crônica dos poderes públicos. Os esgotos que corriam em manilhas não cobertas abrigavam sapos, responsáveis pela trilha sonora ao cair da tarde.


Nas quitandas, os produtos eram vendidos na exata medida da necessidade do freguês. Se durante o preparo da moqueca, alguém percebesse que não tinha azeite de dendê em casa, poderia mandar alguém ir até a venda (quitanda) com um copinho, comprar apenas o suficiente para o almoço e não a garrafa inteira.


O mesmo valia para óleos de comida e cabelo, grampos, sal, açúcar e temperos. Hoje, ativistas ambientais chamariam esse tipo de comércio de sustentável e ecologicamente correto, por diminuir tantas embalagens em nossas casas. Mas, nossa prática comunitária, era pautada pela sabedoria dos mais velhos e pela sobrevivência. Como diz a poeta Ma Njanu: “ Anticolonial são as calçadas, a periferia é um pedaço de aldeia e de África.”


E nesse pedaço de África reconstruída na diáspora, o melhor mesmo era como compartilhávamos o lugar, como fazíamos dele um espaço rico de convivência. Não era nenhuma Rua do Ouvidor, tão presente na literatura machadiana, mas era o nosso teatro a céu aberto com personagens, intrigas, drama, tragédias, festejos e brincadeiras.


“A rua tem alma”, já dizia João do Rio e nós podíamos senti-la nos sons e nas gentes que por ela passava. Ainda não existiam os carros estacionados com música estrondosa, os sons eram outros.


Era o vassoureeeeeeiro, o rapaz do quebra-queeeixo, o ritmo inconfundível do triângulo do vendedor de taboca, o amolador de tesouras e alicates, a mulher do beijuuuuu de coco, o algodão doce trocado por garrafas ou panelas velhas, alguém vendendo colares de licuri e todo tipo de comidinhas. Crescemos comendo em nutritivos tabuleiros.


Não deixávamos a rua vaga para outras práticas, além das nossas conversas no portão, namoros, comércio e brincadeiras. Talvez por isso a violência não conseguisse ocupá-la de forma massiva. Pela rua iam os enterros, as procissões, os meninos e meninas arrumados pro São João, as bolinhas de gude, as livusias, o bêbado, o desajuizado, a moça levando a trouxa de roupa, os políticos atrás de votos, os encontros depois do trabalho o ladrão de varal. Contudo, para além do fluxo e da intensa atividade promovida pela rua, àquelas duas casas separadas pela fresta criavam um espetáculo à parte.


A escura brecha entre as casas abrigava dezenas de morcegos e, exatamente naquela hora extraordinária entre o fim do dia e o início da noite, com o Sol descendo atrás da antiga fábrica de cimento e desenhando um caminho dourado no Mar. Naquele pequeno milagre da união da luz restante e a escuridão que chegava, saíam os morcegos voando em todas as direções. Era fascinante, como todas as coisas naturalmente belas e assustadoras conseguem ser.


Do outro lado da rua, munidos por paus, alguns meninos tentavam acertá-los. No entanto, seus voos eram guiados por sofisticado sistema de biossonar e raramente algum era apanhado.


Penso nesses meninos, nas personagens de uma Salvador que deixa de existir para se reinventar e naqueles morcegos. Desses, sabemos que assim como nós são mamíferos, mas apenas eles conseguem voar.


* Escritora, professora, historiadora, redatora freelancer. Instagram: fabiolac.cunha Enviar mensagem

Fontes:


Ma Njanu - https://www.instagram.com/p/CI6RuayFhc3/

RIO, João do. A alma encantadora das ruas. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1995.

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