SETE MOTIVOS (DE ESQUERDA) PRA EVITAR O TODES, TODXS E TOD@S




Como vai ficar claro em breve, as críticas feitas aqui nesse ensaio não são conservadoras, por isso não tenho interesse em ofender o caráter dos defensores da linguagem neutra, como normalmente acontece nas redes sociais. Não tenho dúvida que seus usuários tem boas intenções, carregando sempre traços de esperança, assim como a expectativa de um futuro melhor e menos opressivo. Ao contrário da crítica direitista, quase sempre simplificadora e de má-fé, não acredito que os defensores da neutralização querem controlar a linguagem, perverter as mentes, oprimir a liberdade... nada disso. Minha crítica é, ao contrário, completamente de esquerda, embora de um espectro alternativo, não liberal. Os problemas descritos abaixo são muito mais desdobramentos inesperados, do que estratégias sádicas de figuras autoritárias. Ou seja, o que é discutido nesse ensaio não são as motivações dos agentes, mas as consequências práticas do que é feito e dito.


1) MOTIVO PRAGMÁTICO: A esquerda liberal norte-americana, criadora das iniciativas políticas em torno da linguagem neutra[1], conseguiu colocar em prática essas mesmas iniciativas. Por exemplo, hoje eu já recebo formulários com opções de pronomes que preciso selecionar. Graças à estrutura da língua inglesa, a neutralidade é de fácil aplicação, o que não acontece nesse nosso Brasil e seu português. Nossa língua é binária, toda ela atravessada por gênero, seja em substantivos, adjetivos ou pronomes, circunstância muito diferente na língua do tio Sam. No inglês, ao contrário, a polêmica gira em torno apenas do uso de pronomes[2] (he, she, him, her, his, hers, etc), o que torna a iniciativa muito mais funcional. Por isso, e provavelmente você já percebeu, os defensores da linguagem neutra no português apenas aplicam no começo da fala (bom dia a todes) e no fim dela (boa noite a todes), além de usarem esse recurso em textos mais curtos e pontuais. A tentativa de neutralizar o português se torna um esforço quase impossível, no máximo, ou, no mínimo, um movimento muito exaustivo, demandando uma fiscalização contínua por parte do falante. Em outras palavras, nem mesmo os defensores da linguagem neutra (no português) aplicam suas premissas até as últimas consequências. Seria necessário, portanto, adaptar o modelo importado da esquerda liberal norte-americana, postura essa que ainda não foi feita.


2) MOTIVO EPISTÊMICO: A linguagem neutra entra em choque com uma das premissas mais importantes da sociologia. Palavras ou coisas não carregam nada em si mesmas, sendo necessário observar o arranjo em seus bastidores. No campo sociológico, não importa se falam de redes, estruturas, sistemas ou malhas... no final das contas, existe sempre uma critica ao substancialismo, a ideia de que coisas possuem em si mesmas predicados e sentido. A crença de que significantes carregam alguma força mágica, destrutiva ou positiva, é aquilo que chamo de substancialismo linguístico, como se palavras fossem substâncias autocontidas. Isso significa que o uso de palavras como “alunes”, “todes”, etc, não carrega em si nada de emancipatório, já que preciso compreender o discurso como um todo, além do espaço onde ele foi emitido, observando a relação desses mesmos significantes com todos os demais. Da mesma forma, “A-L-U-N-O” não é algo nem excludente ou includente... é preciso saber o contexto relacional do falado e do falante, seja seus contornos estruturais ou até mesmo pragmáticos de uso. Em outras palavras, é preciso avaliar ONDE, COMO e POR QUE a linguagem se manifesta , caso contrário é impossível definir seus contornos de forma antecipada.


3) MOTIVO MILITANTE: Como consequência de sua dificuldade de aplicação, criamos um tipo de problema político perigoso. A linguagem neutra no português é incapaz de ser aplicada no cotidiano, enfraquecendo o potencial político e suas iniciativas. No inglês, ao contrário, já é possível observar estratégias de aplicação, muito além das fronteiras acadêmicas e suas linhas de pesquisa de gênero. Como o foco da neutralidade da língua inglesa é basicamente o uso de pronomes, as iniciativas são aplicáveis, incluindo em políticas públicas.


4) MOTIVO ACADÊMICO: Na medida em que é difícil de aplicar no cotidiano, a linguagem neutra no português acaba sendo reproduzida apenas em grupos específicos, criando um tipo de elite linguística, enquanto o senso comum é olhado com desprezo e atraso. Ao invés de democratizar a neutralização, postura já adotada na terra do Tio Sam, temos aqui o oposto, um esforço que elitiza certos usuários e condena os demais. No Brasil, já é muito clara essa circunstância, o quanto a linguagem neutra no português se tornou um tipo de capital cultural que muitos acumulam, enquanto outros não conseguem esse mesmo feito. Em termos bourdiesianos, a língua neutra pode ser vista como uma insígnia de distinção, um símbolo sofisticado em tempos de Twitter, Facebook e Instagram.


5) MOTIVO METODOLÓGICO: A linguagem neutra não é uma estratégia tão eficaz de abertura da linguagem. Segundo uma certa linha vitalista de raciocínio defendida por mim, é necessário fazer uma crítica da estrutura da linguagem como um todo, e não apenas do uso provisório de certas palavras. Por isso que a estratégia de Butler, ao questionar o falogocentrismo, é muito mais interessante. O problema não se encontra no conteúdo do que é dito, mas na pretensão de universalidade e essencialidade de certo discurso. É esse traço pretensioso que define seu perigo e não simplesmente o uso disperso de palavras como “todos” e “alunos”. Se a estrutura falogocêntrica continua operando nos bastidores, não importa a quantidade de “es”, “xs” ou “@s” inserida pelo falante.


6) MOTIVO ESTÉTICO: Além de todos os critérios já mencionados, a linguagem neutra não torna a escrita ou a fala agradável, ao menos esteticamente falando. Da mesma forma que em filmes, quando pautas políticas assumem o controle, ao subordinar o campo estético, a qualidade das obras diminui, ganhando contornos superficiais e até feios. A linguagem neutra (no português) cria um problema grave no ritmo da escrita, da leitura e da própria fala, ao tornar tudo mais truncado, mais estranho e até cômico, como uma mensagem recebida por mim em 2021: “Bom dia a todes candidates aprovades no mestrade de XXXX”. Detalhe... não estou exagerando. Foi exatamente assim que enviaram o texto.


7) MOTIVO LINGUÍSTICO: Gênero linguístico não é gênero político. Da mesma forma que substantivos como “Aluno” não se refere necessariamente a homem e características masculinas, “Lua” não indica que esse astro é uma mulher ou tenha alguma conotação feminina. Da mesma forma, quando eu afirmo que “a lua é linda” e o “sol é lindo” não existe aqui nenhuma premissa política de fundo. A confusão entre gênero linguístico com gênero político dificulta mais ainda a busca por soluções eficazes no terreno da linguagem, concentrando as energias no alvo errado, ao invés da estrutura falogocêntrica descrita por mim no tópico 5.

[1] Desde 1970 com o clássico livro de Casey Miller e Kate Swift: “O Livro da linguagem não-sexista”. [2] Existem algumas exceções de substantivos que são modificados na linguagem neutra inglesa, como “businessman” “policeman”, “salesman”, embora a polêmica gira em torno basicamente do uso de pronomes.


Referência da imagem:

https://guiadoestudante.abril.com.br/atualidades/linguagem-neutra-bobagem-ou-luta-contra-a-discriminacao/

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