SOBRE CÉU E TERRA COMO COMUNIDADES SEM DISTINÇÃO DE CLASSES
- Everton Nery

- 14 de jan.
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Se a teologia nos oferece a visão do céu como o ápice da perfeição comunitária, um lugar onde as riquezas são irrelevantes, os títulos são dissolvidos e a dignidade de cada alma é infinita e equitativa, então essa mesma visão deve ser entendida não apenas como uma promessa distante, mas como um imperativo moral para o aqui e agora. A Terra, em sua vocação mais elevada, deveria ser tal qual o céu.
Entendemos que o Céu como comunidade sem classes sublinha que a abolição das distinções sociais e econômicas é fundamentalmente uma questão de justiça. O que torna o céu perfeito não é apenas a ausência de sofrimento, mas a presença radical da equidade. Transpor esse ideal para a realidade terrena exige que examinemos as estruturas que perpetuam a desigualdade e trabalhemos ativamente para desmantelá-las.
Na Terra, o sistema de classes floresce sob a ilusão da escassez e a realidade da acumulação. O poder é medido pela capacidade de monopolizar bens e oportunidades. Em contraste, o modelo celestial é baseado na plenitude da graça e no bem-estar compartilhado. Transformar a Terra no espelho do céu significa: a) priorizar o Ser sobre o Ter, mudando o foco da acumulação de capital e status para o desenvolvimento humano integral e a dignidade universal. Nenhuma pessoa deve ter seu valor ou acesso a necessidades básicas (saúde, educação, segurança) determinado por sua posição de nascimento ou riqueza; b) redistribuição e justiça social, assumindo que, se no céu a herança é infinita e compartilhada, na Terra somos guardiões dos recursos limitados. A busca pela igualdade exige mecanismos ativos de redistribuição que garantam que os "recursos imateriais" (oportunidades, voz política) e os materiais (riqueza, moradia) sejam distribuídos de forma que a pobreza seja tecnicamente abolida, assim como o é no céu; c) relações baseadas no Amor e Não na Dominação, pois o céu funciona como uma "irmandade perfeita" (comunhão dos santos). Isso significa que as relações de trabalho, políticas e sociais não podem ser baseadas na exploração ou na subordinação hierárquica que esmaga o espírito, mas sim na interdependência e no respeito mútuo.
A esperança escatológica de um céu sem classes é, na verdade, uma convocação à ação política e ética no presente. É um lembrete de que as classes sociais são construções humanas, não leis divinas, e que a humanidade tem a capacidade e a obrigação moral de construir aqui um reflexo da justiça e da igualdade que anseia para a eternidade.
É preciso destacar que o termo escatologia deriva do grego éschatos (último) e lógos (discurso), indicando não apenas uma preocupação cronológica com o fim, mas uma interrogação existencial, ética e histórica sobre o sentido último da vida e do mundo (Libânio, 2001).
Assim, falar do céu como comunidade sem classes não é alimentar uma nostalgia do além, mas sustentar uma esperança que desestabiliza o presente e o convoca à transformação. A Terra não está condenada a reproduzir indefinidamente a lógica da dominação, da escassez fabricada e da desigualdade naturalizada. Se o céu revela a verdade última do humano como comunhão, então cada gesto de justiça, cada prática de redistribuição, cada relação fundada no cuidado e no reconhecimento já antecipa, ainda que de modo imperfeito, essa realidade prometida. A esperança escatológica não adia a dignidade para depois da morte; ela exige que a vida seja digna agora. É nesse sentido que o ensinamento de Jesus deixa de ser apenas oração e se torna projeto histórico, quando ele ensina a pedir e a construir: “Venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu” (Mt 6,10).
FONTE:
LIBÂNIO, João Batista. Escatologia cristã. São Paulo: Loyola, 2001
IMAGEM: Pngtree



Es um grande dilema de nossa sociedade, professor: priorizar o ser.
Nos constituímos de tal forma acumular coisas tem uma dimensão maior em comparativo a bem-estar do ser humano, do ser animal e do ser vegetal. Precisamos rever nossos conceitos!