SOBRE POESIA E ACADEMIA
- Everton Nery

- há 1 dia
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Clarice Lispector, Shakespeare, Dostoievski, Machado de Assis, e tantos outros não escreveram para cumprir critérios acadêmicos ou buscar validação institucional. E ainda bem. A poesia (e a literatura, em sentido amplo) não se curva às normas da ciência, porque habita outro território: o da linguagem como experiência, do sentido como abismo, da verdade como rasgo e não como prova.
Clarice Lispector, por exemplo, escreve como quem tateia o invisível com palavras. Sua linguagem é fragmentada, sensorial, muitas vezes ilógica, mas profundamente autêntica no plano da existência. Não cabe num método, mas explode qualquer método de dentro. Shakespeare, por sua vez, não apenas inventou palavras; ele reinventa a condição humana em cada verso, costurando tragédia e comédia com a astúcia de quem enxerga o mundo como palco de contradições. Dostoievski mergulha nas zonas mais sombrias da alma (compreensão de nephesh hebraico) tocando o inominável com uma potência que nenhuma tese daria conta de explicar. E Machado... Machado é a ironia encarnada, o silêncio que diz mais do que qualquer tratado. Sua literatura é filosofia disfarçada de ficção, crítica social travestida de narrativa íntima, psicanálise modulada como cotidiano.
A poesia em cada um desses autores não busca agradar, sistematizar ou comprovar. Ela existe como gesto radical de linguagem. Como enfrentamento do indizível. Como insurgência. O que a academia muitas vezes não compreende (ou teme) é que a poesia, ao invés de explicar o mundo, o reinventa. E isso é uma forma de conhecimento tão legítima quanto qualquer outra. Mas e Mais: é um conhecimento que nos transforma. Por isso, se levassem seus livros à banca, talvez não recebessem o diploma. Mas talvez fossem eles, com seus silêncios, paradoxos e delírios, que ensinassem à banca o que é,
afinal, pensar. Clarice Lispector, Shakespeare, Dostoievski, Machado de Assis são, essencialmente, poetas. Mesmo quando escrevem prosa, constroem linguagem com a densidade, a ruptura e o assombro próprios da poesia. São poetas porque seus textos não apenas dizem: eles ferem, desestabilizam, iluminam. Criam mundos onde a lógica não basta, onde o sentido se revela no entre, no vago, no que escapa.
Lispector é poeta quando escreve “sou antes, sou quase, sou nunca”; quando transforma a palavra em corpo, a frase em vertigem. Shakespeare é poeta não só em seus sonetos, mas no modo como faz do drama um espelho quebrado da condição humana. Dostoievski é poeta quando narra a culpa com o peso de uma alucinação; quando o delírio vira forma de lucidez. E Machado (mestre da sutileza e da ironia) é poeta ao subverter o real com a leveza cortante de quem diz o que não se pode dizer.
A universidade, com todo seu valor, não caminha por esse percurso. Ela organiza, classifica, conceitua. A poesia, ao contrário, implode categorias. Enquanto a academia pede método, a poesia cultiva o desvio. Enquanto a universidade exige comprovação, a poesia se alimenta da incerteza. Eis Bauman com seu mundo líquido!
Não se trata de hierarquizar os saberes, mas de reconhecer: há formas de conhecimento que não se deixam enclausurar em bancas, teses e avaliações. A poesia é uma delas, talvez a mais livre. E esses autores, por onde passaram, deixaram rastros de poesia que a universidade ainda não sabe (e talvez nunca saiba) decifrar. São poetas porque escutaram a linguagem antes da gramática. Porque viram no silêncio um verso. E porque, mesmo sem diploma, ensinaram o que nenhuma disciplina ousa ensinar: que o mais verdadeiro do humano é, quase sempre, o indizível.
E é justamente aí que devemos desconstruir a velha e confortável ideia de que poesia é "blá blé blá", ruído inútil, enfeite de linguagem, lirismo decorativo. Essa concepção rasa e funcionalista da linguagem tenta reduzir a poesia a ornamento, como se ela fosse uma espécie de açúcar no discurso (doce, mas dispensável) e coisa para quem não tem o que fazer; então se diz assim: eu tenho mais o que fazer, pois existem outras ocupações que são mais importantes.
Assim entendo que Poesia não é distração nem luxo verbal, é ruptura, é faca no tecido da linguagem. Não se trata apenas de rima, flor ou suspiro, mas daquilo que sobra quando o discurso técnico fracassa e a palavra, ao invés de servir, sangra. Em um mundo governado pela lógica do desempenho, onde tudo precisa ser útil, produtivo, monetizável, a poesia resiste justamente por não servir para nada, e por isso mesmo, servir para tudo. Ela desarma o automático, desinstala o previsível, desorganiza o que foi domesticado. A poesia é quando a linguagem deixa de obedecer e começa a desejar; é o grito que escapa da lógica, o choro que invade a fala, o corpo que se escreve sem pedir licença. Quem diz que poesia é “blá blá blá” nunca escutou o que há entre as sílabas, nunca se deixou cair dentro de um verso, nem se permitiu ser atravessado por uma imagem que desmonte o real. Porque um poema, por vezes, pode ser mais revolucionário do que um tratado: ele não explica, expõe; não resolve, revela; não aponta a saída, incendeia o caminho. E enquanto houver quem pense, quem deseje, quem sonhe, quem fure o asfalto com palavras, a poesia seguirá viva, não apesar do mundo, mas contra ele.
Um xêro no coração!
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Imagem retirada do banco de imagens gratuito Pexels.com

A escrita é pássaro em voo infinito. Cada um traça seu caminho com asas inventadas.
Parabéns pelo texto, poeta!
E Quando nada mais se explica cientificamente, a poesia se encarrega bem disso. Acredito, por experiência própria, no poder de cura dessa linguagem, que por meio de palavras tira de nós o peso do físico, da dor, tristeza. Aquilo que não conseguimos dizer ou traduzir diante do real.
Poesia é como o soar de um Stradivarius alargado, na orquestra; éo fazer poético o indizível do humano.
Não é distração nem luxo verbal,
é escultura, é aquarela,
oléo sobre tela,
tecitura soberba da linguagem.
Poesia éa rima, éo discurso em harmonia,
é articulação fluente e que sobeja,
que sempre será,
por pior que seja,
pois que,
também essa enseja
do coração o expressar
pb