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SOU A BARBIE “GUEL”: O duplo feminismo de Barbie



Talvez por causa do seu marketing pesado, além dos memes com Opphenheimer, Barbie impactou o mundo de um jeito curioso, surpreendente. A internet e o universo inteiro ganharam tons de rosa essas semanas, percebeu? Não só isso, a ida ao cinema nessa quinta-feira (20-07) foi um verdadeiro evento, com cachorros, bebês, crianças, adultos e até objetos vestidos com as cores do filme. Antes de qualquer análise mais profunda, é preciso aplaudir essa dimensão performática do marketing, atraindo pessoas até mesmo de visões políticas diferentes. É impressionante a força que a arte tem, esse poder de ultrapassar os limites do meu próprio corpo, assim como de minhas demandas e gostos específicos. Talvez exista algo meio universal por trás de tantas diversidades de crenças, cores, gestos e sabores.


O filme começa com uma imagem interessante, uma espécie de parodia do clássico “2001: uma odisseia no espaço”, de Kubrick. Na verdade, tem anos e anos que não vejo nenhuma referência a essa obra prima do cinema. Foi ótimo descobrir que ela continua atual enquanto metáfora, sendo adaptada de um jeito bem criativo pela diretora Greta. No filme da Barbie, em vez de macacos simulando a evolução humana com a descoberta de ferramentas, como acontece em Kubrick, temos agora meninas brincando de bonecas, entediadas. De repente, no horizonte, surge a Barbie com uma mensagem emancipatória: “vocês, meninas, não precisam ser mães, mas qualquer coisa”. Quase de imediato, todas começam a destruir suas antigas bonecas, tudo isso em slow motion e com uma música bem dramática de fundo. Essa frase faz referência a infinidade de trabalhos que a Barbie exerceu desde sua criação, no fim da década de 50. Essa boneca de plástico já foi um pouco de tudo: astronauta, presidente, médica, executiva, dentista e outras coisas por aí.


Além dessa diversidade de profissões, existe também uma diversidade de corpos, uma marca da Mattel. No começo do filme, é possível perceber um espectro imenso de modelos de Barbie, incluindo figuras negras, trans, gordas, deficientes. Tudo parece sugerir que essa marca revolucionou o campo do empoderamento feminino e suas várias formas de existência. Mas, como nos ensina o Twitter, nada é tão simples como parece e o filme explora justamente o abismo entre expectativa e realidade. Sem dúvida, existem vários temas sugeridos na trama, como o próprio debate sobre o capitalismo e as formas como se aproveita das lutas identitárias com o propósito de ampliar o lucro, transformando até mesmo a mais nobre virtude em mercadoria, mas esse não é o objetivo do nosso ensaio de hoje. Um outro aspecto do filme chamou minha atenção, uma característica que talvez tenha passado despercebida pela maioria do público. Por isso, convido você, leitor curioso, a investigar os contornos dessa nova obra de Greta.


Na minha humilde opinião de sociólogo baiano, o filme mistura duas mensagens contraditórias, envolvendo dois tipos diferentes de feminismo combinados em um mesmo pacote. Primeiro, existe a mensagem clássica do feminismo liberal, como é típico de Hollywood, mostrando o quanto no mundo de carne e osso, para além das fronteiras cheias de purpurina da Barbieland, as mulheres não são empoderadas. A mensagem nessa parte da história é simples e bem previsível: as mulheres precisam ir além, o que significa exercer suas “liberdades individuais” sem o peso de instituições antiquadas. É preciso, portanto, liberar esse indivíduo trancafiado por discursos e regras, ultrapassando qualquer barreira institucional que se coloque em seu caminho. Nada pode dizer quem sou, a não ser o meu "eu soberano", enquanto núcleo autosuficiente. Por outro lado, o filme oferece também uma crítica a esse mesmo feminismo liberal, ao menos de duas formas diferentes:


1) Questiona o próprio discurso do empoderamento, enquanto um peso nas costas de mulheres reais, simples, do cotidiano. O discurso de que mulheres podem ser emancipadas, bem sucedidas, extrovertidas e outros tipos de qualidades positivas, acaba sendo tóxico, quase sempre apenas uma extensão de um projeto neoliberal, um peso que já existe nos homens cis hetero, mas agora expandida em outros gêneros. Isso não é progresso, isso não é avanço, mas apenas "ideologia gourmet", ou seja, apenas uma forma de mascarar velhos esquemas de dominação.


2) O filme também questiona a ideia do indivíduo como o centro da luta progressista, já que as instituições, como família, política, os relacionamentos e muitos outros, são importantes na trama, e não um simples peso no caminho de um “eu soberano” e livre de obstáculos externos. Em vez de apostar em um indivíduo autosuficiente, apenas aguardando a libertação, a mensagem do filme, mais afinada ao feminismo negro, procura reconstruir as instituições, oferecendo propostas coletivas. Embora eu não seja fã do conceito do “sororidade”, pelo tom essencialista da palavra, prefiro mil vezes do que o “individuo” das feministas liberais.


Como a diretora Greta Gerwig não é conhecida pela sutileza nas mensagens políticas em seus filmes, me surpreendeu essa crítica ao próprio feminismo liberal, sendo que a maioria das diretoras de Hollywood são mulheres brancas e defensoras desse tipo de feminismo. No fim das contas, o filme me deixou surpreso. Eu esperava algo mais previsível, no estilo de malhação, mas consegui algo diferente. Claro que não é uma obra prima, como Oppenheimer (texto em breve), mas é um bom passatempo, além de carregar mensagens complexas e importantes no mundo contemporâneo.


Referência da imagem:


https://www.metropoles.com/colunas/m-buzz/filme-da-barbie-e-a-verdadeira-maquina-de-fazer-marketing

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