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TERCEIRO QUADRANTE




Revolução e dor


— Você é um idiota para ter a coragem de sugerir essa possibilidade. Você acha que moramos onde? Em um milharal ou coisa parecida? Se toca, Jorge. — Após 48 horas do desaparecimento de Gustavo, a polícia ainda não tinha vestígios da localização do rapaz. Vivan estava certa de que se tratava de mais um caso de violência policial contra jovens negros na Bahia, como a Chacina do Cabula na capital do estado. Afirmava essa tese desde que não encontraram o amigo. — Vivian, presta atenção: Como alguém pode sumir assim? Gustavo estava com a gente, do nosso lado. E aí puf, desaparece?


— Você não sabe o que policiais são capazes de fazer, Jorge. Ocultação de corpos, até desmembramento. Eles não querem que a gente ache vestígios. Querem que nós esqueçamos, querem que finjamos que Gustavo nunca existiu. Ele é um menino preto. Era, não sei… Ele é da classe dos matáveis.


O silêncio tomou o cômodo. Não havia como discutir com estatísticas. Jorge suspirou e, mesmo vencido sob os argumentos de Vivian, ele, de alguma forma, sabia que não era algo comum. Não se tratava de mais um caso de violência policial. Alguma coisa diferente havia acontecido.


48H ANTES


Ocupando cerca de 2km da Avenida Sete, em Salvador, a manifestação contra o atual governo fascista entoava gritos de guerra e revolução. — FORA BOLSONARO! — Emitiu Gustavo por meio de um megafone. Ao lado de seus amigos, conhecidos e seguidores, o líder político chamava a sede dos manifestantes por melhorias que só viriam após a queda do governo genocida. A concentração havia iniciado cerca de 3h antes e a caminhada já tomava parte do centro da capital.


— Trata-se de uma manifestação nacional que visa melhorias políticas, sociais e humanitárias. Não podemos admitir a fome, o descaso e o genocídio do povo preto! — Dizia Vivian numa entrevista. Atrás dela, Gustavo entoava em alto e bom som mais chamadas revolucionárias. Jorge se afastava para fotografar o movimento quando avistou algo peculiar. “O que é aquilo?”, perguntou-se. No calor do momento, correu entre a multidão em busca de seus amigos quando encontrou Vivian, que ainda era entrevistada. Ao tocar no ombro de Gustavo, percebeu que o amigo também havia parado de falar no megafone e olhava para o alto, em direção ao céu. Ao olhar novamente, não viu nada além de nuvens.


— Você também viu? — Perguntou a Gustavo. — O que? — O amigo pareceu sair de um tipo de transe. Semicerrando os olhos, Jorge foi surpreendido por Vivian. — Eu falei bem? O que vocês acham? Me senti insegura.

— Você foi super bem. — Gustavo confirmou, sorrindo.


Foi nesse momento que a multidão que marchava foi surpreendida por uma cavalaria da Polícia Militar (PM), que cavalgava contra os manifestantes. Em um efeito contrário em prol da defesa, todos voltavam desesperados em busca de se proteger do que estava se aproximando. Uma grande confusão se consolidou quando a primeira bomba de efeito moral foi lançada. Com os olhos ardendo, várias pessoas tossindo e fugindo do caos, Vivian segurou firme a mão de Jorge que, por instinto, segurou a mão de Gustavo.


Ao ouvir o barulho do primeiro tiro, perceberam o teor do perigo que estavam inseridos. Já não havia organização na manifestação. Todos correm para lados opostos, alguns chutam as bombas de gás contra os próprios policiais. Buscando se refugiar, Vivian puxou os amigos para fora da pista. Algumas pessoas choravam feridas, atingidas por balas de borracha. — A gente não pode ficar aqui! — Gritou Jorge. Eles haviam se refugiado na lateral da pista, onde havia grama alta. Ao olhar para Gustavo, Jorge se surpreendeu que o amigo não parecia preocupado com aquela situação. Ele olhava pra cima, com os olhos brancos.

Antes que pudesse reagir, uma bomba de efeito moral explodiu entre os amigos. A fumaça poluente tomou todo matagal, Vivian puxou Jorge, que tentou puxar Gustavo, mas este havia se desvencilhado de sua mão. — GUSTAVO! GUSTAVO! — Gritou Jorge. Mas aquela fora a última vez que veria seu amigo.


“Cheiro de flores queimadas. Ânsia de vômito. Isso é incenso?” — Tonto e desorientado, Gustavo abriu os olhos lentamente, ainda sem ter noção de onde estava. Ao olhar ao redor, visualizou paredes brancas. Tudo estava turvo. Se sentia bêbado, drogado. Ouviu passos. Alguém se aproximava. Seu corpo estava leve. Não sentia a superfície a qual estava supostamente deitado. Tentou apalpar algo, mas não conseguiu. Olhou para onde deveria haver uma cama, mas não enxergou nada. Assustado, ele se moveu bruscamente e percebeu que estava flutuando. — Mas que merda é essa? — Falou alto, o que chamou atenção da enfermeira que estava se aproximando. Vestia-se como enfermeira, mas não parecia com uma. Seu rosto era pontiagudo e azulado. Seus olhos esticados de forma diagonal. Horrorizado, Gustavo tentou se afastar daquele ser, mas parecia estar preso contra a falta de gravidade que contornava seu corpo.


Com uma ferramenta pontiaguda, a enfermeira encostou na pele do rapaz. Não era capaz de ouvir seus gritos de dor e agonia ao ter sua pele perfurada e rasgada. A cúpula gravitacional onde o corpo nu do humano estava era equipada com um painel anti som, odores ou quaisquer tipos de sensações desagradáveis para a enfermeira. Seus dedos longos tocaram em alguns números que fizeram o corpo de Gustavo ficar ainda mais pesado, de forma que ele parasse de se mover tanto. Dissecar corpos inferiores vivos não era uma profissão agradável, mas necessária para a evolução científica.


A ponta do bisturi rasgou toda a extensão do tronco do humano. Com luvas especiais, a enfermeira abriu sua pele com os dedos, de forma que seus órgãos ficassem à vista. Ela olhava cuidadosamente e mexia na extensão das tripas, retirando-as com cuidado. Gustavo não conseguia se mexer. Estava vendo tudo que estava acontecendo, com seus olhos arregalados e desesperado para que aquilo acabasse. As mãos longas daquela coisa retirava seus órgãos um a um. A dor era insuportável. Ele via ela retirar suas tripas, seu sangue flutuava para o teto do círculo invisível que o prendia. Não havia sujeira. O cheiro de ferrugem de seu próprio sangue era insuportável.


Seus rins ainda se moviam, tentando bombear e filtrar o sangue de seu corpo quando foram retirados. Ao sentir as mãos do alien tocar seus pulmões, o desespero tomou conta do jovem, que desmaiou.


52H DEPOIS


Não havia ninguém à frente da televisão ligada. Os cômodos da casa estavam vazios, tristes e abandonados. Do lado de fora da casa, Dona Regina, mãe de Gustavo, chorava de joelhos pedindo a Deus que as notícias não fossem verdade. Os policiais e assistentes sociais encaravam a senhora em prantos.

— Corpo de jovem militante é encontrado sem órgãos na capital da Bahia. Segundo testemunhas, Gustavo Farias foi visto pela última vez em manifestação em prol da democracia nacional. Sua família informa que seu sepultamento será sediado no Cemitério Bosque da Paz, na região metropolitana do Município. Esporte! O Vitória tem chances de sair da zona de rebaixamento no próximo jogo do Baianão contra o Bahia de Feira. Mais detalhes com nosso repórter Juliano Moreira. Fala, Juliano!


Vivian desliga a tevê, com o rosto preso entre duas emoções: Raiva, tristeza e sede de vingança. Jorge surge ao lado de Dona Regina e a abraça, chorando a morte de seu melhor amigo.





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