Trabalhadores escravizados, fábricas de tecido desabando e Influencers com roupas novas. Aceitável?




*Por Marianna Farias


Saiu na BBC, em 2013, a seguinte manchete: “O desabamento de um prédio de três andares onde funcionava uma fábrica de tecidos em Bangladesh revelou não só o amplo descumprimento com normas básicas de segurança no país, mas também o lado obscuro da indústria de roupas internacional. Na tragédia, que ocorreu na capital Dhaka na semana passada, morreram pelo menos 377 pessoas.”[1] Em 2012, outra notícia similar, mas do Brasil de Fato, afirmou: “A indústria da moda violenta 1 milhão de mulheres costureiras. Costureiras informais ou escravizadas nunca trabalham menos de 14 horas por dia”[2].


E, afinal, o que eu e você temos a ver com isso?

O documentário “The True Cost”[3] explicita muito bem essa resposta. O tempo inteiro, diga-me se não é verdade, estamos sendo bombardeados com propagandas de roupas, acessórios, objetos, artigos de consumo diversos. Seja por meio das redes (anti)sociais, do WhatsApp ou até mesmo quando estamos vendo televisão ou tentando escutar uma música no YouTube, somos interrompidos por algum anúncio de um produto. Isso é um saco, né?! Sem falar, quando acessamos algum site de uma empresa e, de uma hora para outra, nossa caixa de e-mails lota de anúncios da mesma, mesmo jurando que não nos inscrevemos nos seus canais de divulgação de promoções.


Isso já aconteceu e acontece comigo sempre! E com você?


Sei que ao longo do dia, muitos de nós tentamos ignorar essas propagandas. Mas você já parou para pensar no efeito diário desse sistema de propaganda em nossas mentes? Sobre esse aspecto específico, falarei no texto da semana que vem. Mas, aqui, já adianto outras informações para pensarmos sobre isso: no Brasil, o nosso poder de compra diminuiu significativamente. A inflação causada tanto pela falta de boa administração do governo durante a pandemia, quanto pelas consequências econômicas e políticas da guerra da Ucrânia x Rússia, fizeram com que os preços dos produtos subissem absurdamente! Enquanto artigos de consumo, no geral, estão cerca de 50%, 60% a 90% mais caros, o nosso salário mínimo subiu, apenas, 16% desde 2020. Ou seja, vivemos um cenário em que a maior parte dos brasileiros está, literalmente, lutando para sobreviver. Porém, curiosamente, a menor parte da população, que já era extremamente rica, enriqueceu ainda mais![4] Vejam os sócios do Ifood, por exemplo. Um pequeno grupo de pessoas bilionárias contando com uma rede de marketing que manipula as informações e explora constantemente os seus trabalhadores, que não dispõem de nenhum direito trabalhista[5]. A desigualdade social alastrou-se, intensificou-se, e à medida com que nos sentimos frustrados em não mais conseguir comprar tal objeto, tal alimento, tal produto pelo preço anterior, buscamos outras alternativas: mais baratas, mais chamativas, que possam suprir a nossa necessidade, o nosso desejo.


Importante frisar uma questão aqui: necessidade x desejo. Necessidade é algo que precisamos para sobreviver, viver em sociedade. E desejo é algo que não precisamos, simplesmente, apenas queremos. Nesse ponto em diante, falarei como, muitas vezes, nosso desejo de comprar algo pode ser imposto como necessidade para mudarmos a nossa realidade.


Então, responda-me: a sociedade em que vivemos hoje, ano: 2022, local: Brasil, se importa com a nossa aparência? Como nos vestimos, nos apresentamos?

- Sim!

O tempo todo, homens e mulheres são ensinados que precisam parecer agradáveis visualmente, esteticamente, para conseguir um bom emprego, um bom partido, para serem bem vistos e desejados. Nesse sentido, desejo mistura-se com necessidade, entende? O que seria apenas algo fútil, torna-se, para muitos, uma das prioridades, senão, uma das condições para ser aceito e, quiçá, melhorar um pouco o padrão de vida.


O tempo todo somos bombardeados com fotos do padrão de beleza esperado para a mulher, para a menina, para o homem, para o menino; com notícias e vídeos de todo tipo de gente ralando para conseguir pagar um procedimento estético, uma blusa, uma calça, para serem aceitos(as) em diversos ambientes. Mas, como conseguir alcançar um determinado padrão de status imagético se nem o básico, muitos de nós estão conseguindo manter? O básico da alimentação, do trabalho?

Diante desse quadro, surgem algumas empresas que, simplesmente, parecem “solucionar” este problema (mas que elas mesmas criaram e se alimentam): blusas por apenas 5 reais? Vestidos bonitos, da moda, por apenas 10 reais? Meu Deus! Mas é igualzinho aquele da Zara, daquela marca cara e escravocrata que vende um vestido parecidíssimo por 500 reais! Claro, claro, que irei comprar! Sentir-me-ei bonita, bonito! Parecerei inteligente, amável, desejável!

Não é assim que pensamos, muitas vezes? “Meu salário mínimo não dá para pagar uma roupa de marca, bonita, elegante, valorizada no mercado de trabalho, nas entrevistas de RH. Eu sou julgada constantemente pela minha aparência, pelo meu cheiro, pela minha cor, pelo meu cabelo! Mas tudo isso CUSTA CARO! Como manter uma imagem boa, se nem consigo, muitas vezes, saber se vou ter o que comer mês que vem?”

Pois é, amigo(a)(e). A realidade está cruel para quem, todos os dias, acorda para a labuta e quer sair da miséria. E, para tudo, há um verdadeiro custo. Uma marca chamada SHEIN surpreendeu o mundo inteiro com roupas, acessórios, produtos de diversos segmentos, a preços irrisórios! Essa marca aí que vende a blusinha por 5 conto. Um site consumido por milhares de pessoas, propagandeado por influencers e artistas globais, tais como Katy Perry e até mesmo a Anitta, é tido, erroneamente, como uma revolução no mundo da moda, e esconde muitos segredos que eles não querem que fiquem à mostra para os seus consumidores.

E aí, pergunto a você, pois guardar segredo de marca que explora seus trabalhadores, não é comigo, não. Você iria comprar uma roupa sabendo que ela foi feita por uma costureira de 10 anos de idade, subordinada a uma rotina de trabalho análoga à escravidão? Sim, com a idade da sua filha, do seu neto, do seu sobrinho, do seu irmão. Você compraria um produto sabendo que foi feito por uma mulher indiana de 20 anos de idade, que lutou para melhores condições de trabalho na fábrica de tecidos, mas que junto a ela, mais 30 foram surradas, violentadas, duramente repreendidas por quererem trabalhar em condições minimamente razoáveis?


Espero que a resposta seja “Não!”. Nem eu, nem você, no entanto, somos responsáveis por essa realidade acontecer, já que marcas como a SHEIN, a líder do fast-fashion, explora cotidianamente os seus trabalhadores e trabalhadoras e, claro, ela não quer que você saiba disso. Ela quer que você compre, por 5 reais, uma blusa e sinta que seu poder de compra permanece o mesmo, já que a mesma blusa é uma réplica de uma usada pela influencer linda e magérrima do TikTok. Ela quer que você ignore toda a cadeia de produção; ela quer que você pense “se eu não tiver essa roupa/essa maquiagem/esse acessório/esse objeto, eu não serei amada/amado, aceita/aceito, contratada/contratado”.


Você conhece alguém assim? Que começou a comprar, até mesmo de forma compulsiva, endividando-se nas parcelas de 10x sem juros, que aliava a vontade de ser desejada, de ser vista como alguém bonita à compra de um determinado produto? “Nossa, se eu usar esse vestido, com certeza ele/ela irá me notar! Se eu usar este casaco, o RH com certeza dirá que sou comedida, discreta, elegante, a melhor pessoa para esta empresa!” Não é assim que muitas vezes funcionamos? Ou que nos ensinam, todos os dias, a funcionar? Nos ensinam e nos estimulam pelo marketing, pela propaganda, pelas redes (anti)sociais?


Mas e se as nossas escolhas estivessem custando uma vida? Muito mais do que uma preocupação com a nossa imagem? E se as nossas escolhas estivessem ajudando a perpetuar um sistema cruel, de consumo a todo vapor, que só vai enriquecer aqueles que já estão podre de ricos, e que, apoiando-se nesse sistema de desigualdade social, violentam, escravizam, aqueles e aquelas que estão lutando para sobreviver?


Ou você acha que os acionistas e sócios da SHEIN são que nem a gente? Estão na mesma classe social nossa?


https://blogdopedlowski.com/2021/11/21/75-horas-de-trabalho-semanal-na-shein-public-eye-olha-por-tras-da-fachada-chamativa-da-gigante-da-moda-online-chinesa/


Não, meu caro. Não estão. Eles enriquecem ainda mais às custas da falta de opções de seus trabalhadores. Eles querem que a desigualdade se alastre, se intensifique ainda mais. Eles querem que eu e você não tenhamos opções de compras seguras, transparentes, pois, na maioria das vezes, serão mais caras, já que é impossível que uma costureira ganhe dignamente produzindo um vestido que será vendido por 20 reais. Eles querem que eu e você sejamos, igualmente, consumidores escravizados, pois estão enriquecendo às custas da desigualdade social extrema, que empurra seres humanos a trabalharem exaustivamente por suas vidas, em condições insalubres, unicamente para proporcionar um prato de comida para as suas famílias. Enquanto isso, enquanto são expostos aos produtos químicos da lavoura de algodão (pois, é claro, essas empresas não estão nem aí para os equipamentos de segurança de seus colaboradores), seus filhos, com mãos pequenas, trabalham em fábricas de roupas, de celulares, de acessórios.

Portanto, o que eu e você podemos fazer diante disso?


Se você tem o que comer, tem uma casa, um lugar seguro para viver, transitar, trabalhar, que tal aprofundar mais sobre o assunto? Questionar-se: de onde vieram esses produtos que tanto meus colegas desejam, quanto eu desejo? Quem costurou esse casaco? Essa empresa é transparente? Essa empresa paga corretamente os seus trabalhadores? Ué, por que essa empresa está com um processo trabalhista de milhões de dólares? Nossa! A Zara, a Adidas, a Nike, a Puma, a Riachuelo?! Meu Deus! Mas qual outra opção eu tenho?


Muitas. Você tem mais de uma opção, e todas elas têm em comum algumas características: transparência, sustentabilidade, boa relação com seus trabalhadores, dignidade. Pregam que você não precisa ter 20 blusas, pelo contrário. Pregam que você deve ser um consumidor mais consciente. Considere brechó, marcas de slow-fashion e selo cruelty-free, por exemplo. E, para além disso, escolha passar essa mensagem adiante. Escolha se munir de conhecimento, de estudo sobre isso. A falta de acesso prejudica, e muito, o nosso poder enquanto indivíduo. Então, que tal lutarmos pelo fim da desigualdade, para que outros trabalhadores, como eu e você, não tenham que morrer em uma fábrica de roupas em Bangladesh? E nem serem violentados por quererem melhores condições de trabalho?


Pensemos nisso, meu caro, minha cara. E, mais do que pensar, que possamos fazer nossas escolhas com mais consciência, pois o que fazemos hoje, o que escolhemos ler, divulgar, abraçar, pode impactar consideravelmente a vida de alguém que mora, tanto ao nosso lado, quanto do outro lado do planeta.


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* Professora de História da rede de ensino estadual da Bahia. Mestranda em História na UFBA.



Link da imagem: Claudio Montesano Casillas, “Beyond the Label” (“Além da Etiqueta”): Veja a série de fotos: http://www.claudiomontesanocasillas.com/photogallery/beyond-the-label/#3


Notas:


[1] Site da reportagem: https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2013/04/130428_bangladesh_tragedia_lado_obscuro [2] Site da reportagem: https://www.brasildefato.com.br/2021/05/17/saiba-por-que-a-producao-de-roupas-e-um-dos-trabalhos-mais-opressivos-para-mulheres [3] Veja o vídeo para entender mais profundamente (se você quiser): https://www.youtube.com/watch?v=5-0zHqYGnlo [4] Site de uma boa reportagem sobre o assunto: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2021/11/entenda-como-os-ricos-ficaram-mais-ricos-na-pandemia.shtml#:~:text=Brasil%20ganhou%20bilion%C3%A1rios%20em%202020,do%20pa%C3%ADs%20durante%20a%20pandemia&text=De%20um%20lado%2C%20aumento%20da,novos%20empregos%20com%20sal%C3%A1rios%20menores. Veja esse vídeo também (se você quiser): https://www.youtube.com/watch?v=3pPr5NUpwgU [5] Veja esse vídeo (por favor, esse é simplesmente essencial!): https://www.youtube.com/watch?v=vZd_0SiDVkk

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