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TRAVESTI É RESPEITO!





Quando Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera lideraram a Revolução de Stonewall, elas enfrentaram condições imensamente adversas. Tanto a repressão policial, quanto a discriminação no interior do próprio movimento, naquele 1969, já formavam o embrião dos desafios que a população T enfrentaria nas décadas seguintes. Lutando pela causa, hoje denominada LGBTQIAPN+, Rivera havia perdido seu apartamento. Ainda que tenha, ao lado de Marsha, fundado a Ação Revolucionária de Travestis de Rua (STAR), ela foi vaiada e expulsa do palco por lésbicas e gays, enquanto caminhava para discursar no Christopher Street Liberation Day Rally, em 1973. Motivo: ela era considerada uma vergonha por transcender – e transgredir – as normas de gênero. Antes de ser expulsa, Sylvia ainda bradou no microfone: “eu tenho sido espancada, tive o nariz quebrado, fui presa, perdi meu emprego, perdi meu apartamento por causa da libertação gay e vocês me tratam dessa maneira?”


Carismática e sorridente, Marsha apoiou grupos que enfrentavam a pandemia da AIDS, como o AIDS Coalition to Unleash Power (ACT UP). Agradável e bem-humorada, ela foi presa por mais de 100 vezes e baleada em fins da década de 1970. A militância custou um preço alto, tanto pela discriminação de outras lideranças, quanto por ser alvo constante da polícia. Em julho de 1992, aos 46 anos, seu corpo foi encontrado no rio Hudson. A inicial alegação de suicídio foi contestada pelos seus amigos e a investigação foi reaberta em 2012. Em 2017, o documentário “A Morte e Vida de Marsha P. Johnson” corrobora a tese de transfeminicídio. A investigação, porém, segue sem desfecho.


A realidade brasileira dessa época foi similar às histórias de Marsha e Sylvia. A ativista Jovanna Baby, fundadora da Associação Damas da Noite, relata que foi presa junto com amigas, por ser travesti, trabalhadora do sexo e estar na rua em uma noite de 1979. A partir desse evento, junto com outras ativistas, fundou a Associação e conseguiu estabelecer diálogo com o poder público. Treze anos depois, Baby fundaria a Associação de Travestis e Liberados (ASTRAL), acompanhada de Jossy Silva, Elza Lobão, Beatriz Senegal, Raquel Barbosa e Munique do Bavier. Primeira associação trans do mundo, a ASTRAL enfrentou a violência policial na Lapa carioca. Seis travestis pretas, cinco nordestinas, todas elas com o objetivo de combater a perseguição da polícia. Sete anos após a fundação da ASTRAL, em dezembro de 2000, às vésperas do Terceiro Milênio, nascia a Articulação Nacional de Transgêneros (ANTRA), posteriormente, denominada Associação Nacional de Travestis e Transexuais. Outras associações viriam pouco depois. Destaque para a Associação de Travestis e Transexuais do Ceará (ATRAC), desde 2001 realizando um excelente trabalho de conscientização da sociedade sobre a importância das vidas travestis e transexuais.


Tantas lutas exigem um impressionante esforço psíquico. Com a Crise de 2008 e a consequente chegada do Tecnofeudalismo, o ativismo travesti e transexual enfrenta novas formas de violência, a exemplo da tecnotransfobia. No entanto, esse grupo social se reinventa, a ponto de não apenas resistir, mas, também, de ocupar espaços de poder. Primeira deputada federal negra e travesti, Erika Hilton representa um marco histórico na luta contra a transfobia. Sua intelectualidade e rapidez no debate público despertam o ódio da extrema direita, contudo, ela segue o caminho de quem sabe da própria potência. Precisamos citar também Silvinha Cavalleire, presidenta nacional da União Nacional LGBT (UNALGBT), uma força viva, sempre lutando por dignidade e segurança. Por sua vez, Dani Nunes, candidata a vereadora nas últimas eleições municipais, representa uma voz no esporte, espaço muitas vezes negado às travestis.


Tamanha resiliência exige cuidados com a saúde, sobretudo, com a saúde mental. Quando falamos de atendimento psicológico para o grupo social T, vemos ainda lacunas significativas. Seja pela alta demanda, seja pela preguiça transfóbica em compreender as subjetividades de travestis e transexuais, seja pela formação controversa das graduações em psicologia – desconheço uma grade curricular que inclua gênero e sexualidade enquanto disciplina obrigatória – observamos com preocupação o atendimento em saúde mental desse coletivo. Como país líder em assassinatos por 18 anos consecutivos, o Brasil necessita implementar políticas públicas que viabilizem atendimento psicológico especializado com a maior brevidade possível, para destroçar o verdadeiro estado de extermínio praticado contra pessoas T. Isso envolve promover formação adequada e fomentar planos de carreira para psicólogos que desejam trabalhar com populações vulneráveis.


Longe de ser um projeto eleitoral, o atendimento psicológico para travestis e transexuais envolve esforço de longo prazo. Saber escutar, prestar um atendimento condizente com a realidade sociocultural, estar disposto a aprender e ser humilde para compreender os impasses das experiências vivenciadas por essa comunidade, são aspectos básicos para pensar a escuta psicológica de quem se identifica com o gênero oposto ao que é designado mesmo antes do nascimento.


Assim como a transfobia respinga em pessoas cis, o aprimoramento do trabalho psicológico com pessoas transgêneras resultará em melhoria para toda a sociedade. Quando vemos figuras públicas, a exemplo de Michele Obama, Brigitte Macrom e Kamalla Harris serem alvo de transinvestigation a segunda, inclusive, apresentou provas de que é uma mulher cis – por não corresponderem ao padrão branco e loiro exigido pela ideologia heterocispatriarcal, percebemos o quanto a escuta psicológica adequada para travestis e transexuais pode ser útil em desnaturalizar as práticas hegemônicas. Nesse sentido, afirmamos que a psicologia ainda não se encontra à altura de atender as demandas dessa população. Somente com um currículo em psicologia que apresente letramento de raça, gênero e sexualidade poderemos nos considerar dignos de acolher pessoas trans e travestis, em sua histórica luta, representada de maneira emblemática naquele 29 de janeiro de 2004, no Congresso Nacional, sob uma bandeira: “Travesti e Respeito”.



IMAGEM: Portal Herzindagi

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Januário
há 2 dias
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