UM JABUTI PARA MANUEL ALVES SOUSA JR.: sobre um intelectual contemporâneo e a educação antirracista

Na terça-feira, dia 27 de outubro de 2026, tive a grata surpresa de comemorar o prêmio Jabuti de um amigo e intelectual em ascensão. Professor do IFBA, Educador, Colunista do Soteroprosa e Chefe editorial da Editora Soteroprosa, Manuel Alves Sousa Junior recebeu a honraria na categoria Educação, com o livro “Como conversar com crianças sobre racismo e diversidade” (2025).
Desde que Manuel chegou no Sotero, alimento uma admiração gigantesca pela sua trajetória profissional e, em especial, pelas suas ideias de um futuro com mais equidade. Vejo nele uma sede de construir um mundo melhor em que as diversidades sejam abraçadas.
E, como um intelectual orgânico, para utilizar a nomenclatura gramsciana, que define um intelectual ativo na sociedade, ou seja, aquele que emerge da sua própria classe social, Manuel contempla as problemáticas dos seus textos na vida.
Professor de história, gay e pai de uma menina negra. Ao escrever o livro, ele reúne essas três características que são intrínsecas à sua biografia e aos afetos diários. As palavras escritas deixam de ser apenas uma retórica ou teoria.
Ainda assim, seus livros estão repletos de referências robustas que variam de Gilberto Freyre a Achille Mbembe, perpassando por Foucault e Paulo Freire.
As suas ideias sobre raça, dialogadas com as de outros intelectuais pertinentes ao contemporâneo, como as de Muniz Sodré, Jessé Sousa, Nego Bispo, Djamila Ribeiro, Barbara Carine, Carla Akotirene e Denise Carrascosa, ganham contornos de encantamento do cotidiano.
Aspecto que talvez seja o grande ponto de virada da nossa Literatura Contemporânea. A característica do imbricamento entre teoria e vida, caráter barthesiano da linguagem, em que o intelectual se insere no texto.
Manuel faz reflexões pertinentes que não se limitam apenas ao livro premiado. Sua vasta obra, composta por mais de dez livros, dos quais destaco dois: “História da raça, mestiçagem e branqueamento da população no Brasil” (2024) e “Uma guerra das raças: biopolítica, racismo de estado, necropolítica e eugenia” (2026), produz conceitos, reflexões e sugestões para uma abertura do diálogo social e racial, resgatando a história como justificativa plausível para (re)pensar as questões de raça no Brasil.
Seu livro “Como conversar com crianças sobre racismo e diversidade” (2025) aborda essa temática de forma ampla, contemplando a base da educação na sociedade, que é a primeira infância, por isso é tão precioso resguardá-la. E parte de exemplos práticos que desdobram o lugar-comum da não problematização sobre raça, questão que deveria ser preponderante tanto nas escolas quanto nas famílias.
Assim, a partir da subjetividade engendrada nos contextos sociais, muito bem evidenciada por Manuel em sua obra, trago um exemplo que está no texto “POR QUE NÃO DEVEMOS LER MONTEIRO LOBATO PARA NOSSAS CRIANÇAS?”, homônimo a um dos capítulos de “Como conversar com crianças sobre racismo e diversidade” (2025):
Eu defendo que Lobato seja apenas lido para crianças/adolescentes em ambientes mediados por pesquisadores e/ou professores, que podem fazer a contextualização e a intervenção crítica que suas obras merecem e que não sejam mais publicados para o grande público. Imagine que uma mãe, pai ou responsável pode, por exemplo, comprar um livro infantil dele em um sebo ou livraria, levar para sua casa e ler para sua criança, reproduzindo, dessa forma, por meio da subjetividade, as posições demarcadas de brancos em posição de poder/destaque e pretos/pardos reduzidos a posições de subalternidade e subserviência. (Sousa, 2025)
É interessante que ele demarca a subjetividade como um ponto de preocupação para a educação, alegando os pontos de vista doméstico e social como instituições de poder que podem ser acopladas ou confrontadas, e aqui estou dialogando com Freud (1930), em “O mal-estar na civilização”. A partir disso, o modelo de sujeito pode ou não ser transformado.
São as experiências cotidianas que atravessam o sujeito. A educação familiar e a escolar moldam os comportamentos diante da vida e podem determinar se aquele sujeito terá consciência do quanto é privilegiado e/ou oprimido dentro da escala social.
Assim, Manuel Alves Sousa Junior tensiona aspectos que parecem banais à primeira vista, mas que carregam uma bagagem histórica bastante complexa e problemática, a qual merece uma atenção cotidiana, principalmente nos aspectos que envolvem as crianças. É por essa urgência do entendimento sobre a temática racial que o considero um intelectual contemporâneo que merece ser lido e discutido de maneira ampla.
Em uma das dedicatórias de um de seus livros para mim, ele escreveu: “Jacque, a área racial está completamente imersa na nossa sociedade.” Já no outro, ele disse: “Jacque, conhecer a nossa história é o primeiro passo para a luta antirracista.” Assim, também se evidencia o aspecto subjetivo de Manuel com a área racial, que, ao dedicar-me seus livros, diante do aspecto teórico e crítico do objeto, tem para com ele mesmo e a sua obra um compromisso de verdade.
E é com essa verdade para contar, criticar e discernir os fatos históricos da sociedade brasileira, no espectro da contemporaneidade, que Manuel Alves Sousa Junior se torna o intelectual contemporâneo que se junta às reflexões sobre raça, sociedade e cultura contemporânea numa perspectiva decolonial, de um giro invertido sobre a história, na qual os oprimidos passam a ser protagonistas do local que antes lhes fora negado.
Protagonismo caro para almejar uma sociedade em que a equidade será objeto preponderante. Assim, é com esse desejo otimista de um futuro melhor, com o qual compactuo, que indico a leitura das obras de Manuel, em especial “Como conversar com crianças sobre racismo e diversidade” (2025), e o parabenizo pela sua contribuição do ponto de vista da Crítica Cultural Brasileira.
Saindo do local de Pesquisadora, Professora e Crítica Cultural e Literária, parabenizo meu amigo Manu pelo feito histórico com a premiação do Jabuti. Vejo em Manuel uma pessoa generosa, amiga e gentil, um homem íntegro e de palavra, uma pessoa que alimenta seus afetos cotidianos e demonstra um amor imenso pela família que constituiu.
Manuel, desejo muitos outros reconhecimentos pelo seu trabalho e que seus livros alcancem voos ainda mais longínquos. Livros são portais de esperança, e a sua começa com os pequenos: são as crianças que determinarão o futuro da nossa sociedade.
Foto de capa: Regristo da prêmiação do Jabuti, retirado do instagram oficial de Manuel Alves Sousa Junior, @debateracialpolitico


Muito obrigado pelo carinho, minha aniga. Essa vitória é de todos nós!