Um Mundo Para TODAS as Mulheres
- Armando Januário

- há 5 horas
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Nova York, 25 de março de 1911. A fábrica da Triangle Shirtwaist foi palco do desrespeito com as vidas de 129 mulheres e 23 homens. Já em 1909, esta companhia, situada nos 3 últimos dos 10 andares do edifício Asch, ante a greve de mulheres costureiras, lideradas, pelo sindicato Ladies’ Garment Workers’ Union, se recusou a assinar um acordo para garantir maior segurança laboral. Na verdade, as condições de trabalho eram temerárias: a Triangle “empregava” por volta de 600 trabalhadores operando máquinas próximas a fibras têxteis inflamáveis. Fumar era permitido e constante. Não havia extintores de incêndio e a iluminação era a gás. O nono andar contava com duas saídas, contudo, ambas eram fechadas, para obstruir a locomoção das funcionárias durante o período de trabalho. Quando o fogo tomou conta dos andares, muitas mulheres se jogaram pela janela, desesperadas, ao ver o elevador parado.
Um ano antes, o Dia Internacional da Mulher havia sido proposto por Clara Zetkin, intelectual e militante alemã, na II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas. Com o ocorrido em Nova York, a celebração ganhou força. Em 8 de março de 1917, lutando por suas próprias vidas, trabalho e contra a Primeira Guerra Mundial, 90 mil operárias russas pararam de trabalhar na histórica Marcha das Mulheres de Petrogrado. Todavia, foi apenas em 1975 que a Organização das Nações Unidas (ONU) oficializou o 8 de março como Dia Internacional das Mulheres.
Mesmo com tantas lutas, o patriarcado segue utilizando o arsenal machista para desferir ataques misóginos. Em 2025, no Brasil, 1.568 mulheres foram assassinadas em função da sua identidade de gênero; essa matança é a maior dos últimos 10 anos. Estamos denunciando um estado de terror vigente e que vem sendo ignorado ou enfrentado de maneira inadequada pelo poder público. A legislação tem avançado e o Brasil é referência mundial no conjunto de leis que tipificam e punem os agressores, entretanto, o País tem dois traumas ainda não elaborados: a escravidão e a Ditadura Militar de 1964. Esses dois instantes históricos atravessam os corpos, impondo a branquitude e o autoritarismo. Nesses termos, apesar da Lei Maria da Penha ser um marco na defesa dos direitos das mulheres, o machismo, profundamente arraigado na sociedade brasileira, opera através de práticas misóginas, nas quais as mulheres são consideradas pessoas de segunda categoria ou mesmo não-pessoas. Humilhações, estupros, espancamentos e assassinatos seguem como práticas comuns e normalizadas por discursos de grupos masculinistas; redpills, incells e MGTOWs são alguns dentre esses. Partindo do pressuposto da supremacia masculina, essas comunidades utilizam a Internet para disseminar a suposta importância de subalternizar as mulheres para que homens resgatem a virilidade, passando pela culpabilização das mulheres e dos feminismos por não conseguir ter relações sexuais, até chegar ao ataque contra a população LGBTQIAPN+.
Não obstante, algumas concepções feministas excluem mulheres e reproduzem a opressão patriarcal e cisnormativa. As feministas radicais (RadFem), sobretudo, as Feministas Radicais Trans-Excludentes (TERF) recusam-se a aceitar a mulheridade e feminilidade das travestis e mulheres trans. Essa postura agressiva reitera o quanto o patriarcado utiliza até mesmo mulheres para contribuir na exclusão de outras mulheres, ainda que seja necessário atropelar pesquisas científicas para isso. De acordo com pesquisadores da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), a partir de exames de ressonância nos cérebros de 80 pessoas entre 18 e 49 anos, ficou demonstrado que a região da ínsula de mulheres trans é reduzida em relação às mulheres cis. A ínsula é responsável pela consciência corporal; um tamanho menor em ambos os hemisférios cerebrais indica a identificação de gênero em contraposição àquele atribuído ao nascer. Em termos simples, uma estrutura cerebral, detectada por essa pesquisa aponta para a pré-existência de um gênero transcendente aos padrões socioculturais e ao compulsório alinhamento pênis-homem, vagina-mulher. Isso contribui para desmontar toda a narrativa de uma suposta ideologia de gênero. Na verdade, ratifica a legitimidade das vidas de travestis e mulheres trans, enquanto identidade de gênero feminina, e, na prática, mulheres, com direitos já contemplados pela Lei Maria da Penha.
Embora a democracia esteja ameaçada a nível mundial, em termos vistos antes apenas na Segunda Grande Guerra, é necessário evitar o desânimo. Cabe a nós, homens, editar como pensamos as mulheres. Torna-se urgente a criminalização de grupos masculinistas. Em paralelo, existe a real necessidade de oportunizar a todas as mulheres o pleno exercício da sua mulheridade e feminilidade em condições equitativas e sem qualquer risco às suas vidas, compreendendo as palavras de Simone de Beauvoir (1908-1986), na sua obra O Segundo Sexo (1949): “não se nasce mulher, torna-se”.
IMAGEM: Revista Circuito

Gratidão, Soteroprosa!