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UMA COISA É UMA COISA, OUTRA COISA É OUTRA COISA: Será?





Esse ditado nasce do desejo de ordem, da necessidade de manter o mundo estável, nomeável, previsível. Separar é um modo de sobreviver. Dar limites às coisas é uma forma de não se perder nelas. Mas a filosofia começa justamente quando essa segurança se rompe e a pergunta irrompe: quando é que uma coisa pode ser outra coisa?


Uma coisa passa a ser outra coisa quando deixa de ser apenas aquilo que parece ser. Quando o uso a desloca, quando o tempo a atravessa, quando o olhar a reinventa. Um objeto não é só matéria; é relação, função, sentido. Uma pedra, na estrada, é obstáculo. Na mão, é arma. No rio, é silêncio submerso. No túmulo, é memória. A coisa não mudou; mudou o mundo em torno dela, e isso basta para que ela seja outra.


Uma coisa torna-se outra quando o sentido escapa à intenção original. A palavra, por exemplo, nasce para dizer, mas pode ferir. O gesto nasce para acolher, mas pode expulsar. O silêncio, pensado como ausência, pode ser resposta, cuidado ou violência. Nada permanece fiel à sua origem quando entra no campo da experiência humana.


Há também o tempo. O que hoje é promessa amanhã é ruína. O que foi abrigo pode se tornar cárcere. O que era fé pode virar hábito. O que era amor pode tornar-se memória e, ainda assim, continuar agindo. O tempo não destrói apenas; ele transfigura. E transfigurar é permitir que algo seja outra coisa sem deixar de ser o que foi.


Uma coisa é outra coisa quando atravessa o desejo. O pão é pão, até que se torne partilha. O corpo é corpo, até que se torne território de poder, prazer, culpa ou resistência. A lei é lei, até que se transforme em injustiça legitimada. É o desejo, e não a essência, que desloca o significado.


Mas há um limite: nem toda coisa pode ser qualquer coisa. O risco da indistinção total é o vazio de sentido. A filosofia não dissolve as diferenças; ela pergunta quando e por que elas se movem. Uma coisa pode ser outra coisa quando há um acontecimento, uma ruptura, uma travessia. Quando algo se quebra por dentro e já não cabe no nome antigo.


Talvez o ditado popular esteja certo demais, e por isso precise ser questionado. Porque, no fundo, o mundo não é feito de coisas fixas, mas de processos, de passagens, de metamorfoses silenciosas. Uma coisa é uma coisa… até o momento em que a vida a leva a ser outra. E esse momento não é exceção. É a regra da existência!


IMAGEM: Estante Virtual

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