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UMA PERSPECTIVA SOBRE A QUARESMA





A Quaresma, tradicionalmente vista sob a lente da contrição e do dogma religioso, ganha contornos fascinantes quando atravessada pelo pensamento de nomes como Kierkegaard, Sartre ou Camus. Longe de ser apenas um ritual de privação, ela pode ser interpretada como um exercício profundo de liberdade, responsabilidade e confronto com o "nada".


Eis uma reflexão sobre esse período sob a ótica existencialista:


a. O Deserto como Espaço de Autenticidade


Para o existencialismo, a rotina e as distrações sociais costumam ser formas de "má-fé", ou seja,  fugas que usamos para evitar encarar a nossa própria existência: O Simbolismo, em que deserto quaresmal não é apenas um lugar geográfico, mas um estado de espírito. É o silenciamento do ruído externo; A Perspectiva, ao retirar os excessos (comida, entretenimento, consumo), o indivíduo é forçado a encarar o que sobra: si mesmo. Sem as "muletas" do cotidiano, você se depara com a sua verdade nua, o que Kierkegaard chamaria de o indivíduo diante do absoluto.


b. A Angústia e a Escolha Consciente


A abstinência e o jejum, vistos de forma existencial, não são "pagamentos" por pecados, mas atos de afirmação da vontade: Sartre e a Liberdade. Aqui se "estamos condenados a ser livres", a Quaresma é o momento de exercer essa liberdade de forma radical. Ao dizer "não" a um impulso biológico ou a um hábito, você prova que não é um objeto determinado por circunstâncias, mas um sujeito que escolhe seu próprio agir; A Angústia. Tem-se aqui o desconforto da privação que gera angústia, e para o existencialista, a angústia é o "vértice da liberdade". É o reconhecimento de que nada me obriga a agir de certa forma, exceto eu mesmo.


c. A Finitude como Motor


O início da Quaresma com as cinzas ("Lembra-te que és pó") é o lembrete existencialista por excelência: a finitude. Heidegger e o Ser-para-a-morte: Só quando aceitamos que o nosso tempo é limitado é que passamos a viver de forma autêntica. A Quaresma nos retira do tempo circular do consumo e nos joga no tempo linear da vida que urge. Outro elemento aqui é o Sentido: Se a vida termina, o que eu estou fazendo com o "agora"? A reflexão quaresmal transforma o medo da morte em um combustível para a criação de sentido.


d. A Responsabilidade Ética (O Próximo)


A caridade (esmola), um dos pilarares da Quaresma, ressoa com a ideia de que somos responsáveis por toda a humanidade. Ao olhar para o outro em privação, o existencialista reconhece que sua liberdade está intrinsecamente ligada à liberdade do outro. O compromisso ético na Quaresma deixa de ser uma obrigação divina e passa a ser uma escolha de solidariedade em um mundo que, por si só, não tem sentido intrínseco.


A partir dessa compreensão, Viver a Quaresma como um existencialista é transformar o rito em um laboratório de liberdade. É o período para destruir as identidades falsas que construímos e perguntar: "Quem sou eu quando não estou consumindo, quando não estou distraído e quando aceito que sou mortal?"


Desloquemos nosso olhar especificamente para a perspectiva de Albert Camus, que traz uma camada vibrante e quase solar para essa Quaresma existencialista. Se para outros o deserto é culpa ou angústia, para Camus ele é o cenário do Absurdo: o confronto entre o desejo humano de sentido e o silêncio irresponsivo do mundo. Ao aplicar “O Mito de Sísifo” ao período quaresmal, a prática ganha um contorno singular:


1. O Jejum como a Revolta de Sísifo


Sísifo é condenado a empurrar uma pedra até o topo de uma montanha, apenas para vê-la rolar de volta, eternamente. Camus afirma que "é preciso imaginar Sísifo feliz" porque ele é senhor de seu destino enquanto empurra a pedra. Eis duas inquietações: Primeiramente a analogia; A Quaresma é um ciclo que se repete todos os anos. Para o homem do absurdo, o jejum ou a abstinência não visam uma "recompensa no céu" (o que seria uma fuga da realidade), mas são um exercício de revolta. Em segundo lugar o sentido; Você nega um impulso não porque Deus mandou, mas porque ao fazê-lo, você afirma sua superioridade sobre a sua própria condição biológica e sobre o destino. O sacrifício é o seu "empurrar a pedra".


2. A Recusa da Esperança Metafísica


Camus critica o "suicídio filosófico", que é depositar esperança em algo além desta vida para suportar o sofrimento. Inicialmente na Quaresma pelo viés de camus, ignora-se a promessa de uma "ressurreição futura" como justificativa para o sofrimento presente. O valor está no agora. Em seguida, a Vivência, pois o "sacrifício" não é um investimento para o pós-morte; é um modo de viver com o máximo de lucidez. É dizer: "Eu sinto fome, eu sinto falta, eu sou mortal, e ainda assim, eu permaneço de pé e consciente disso".


3. O "Verão Invencível" no Meio do Deserto


Temos em Camus tem uma frase célebre: "No meio do inverno, aprendi finalmente que havia em mim um verão invencível". Assim, percebemos o deserto da Quaresma (o inverno da alma) serve para testar essa força interior. A privação não serve para te diminuir ou te tornar um "pecador miserável", mas para revelar a beleza da resistência. Desta forma para Camus, a austeridade quaresmal seria uma forma de limpar a visão para enxergar melhor a luz do mundo. É o despojamento que permite apreciar a existência sem adornos.


4. Solidariedade sem Dogma


Em sua obra “A Peste”, a personagem Dr. Rieux trabalha incansavelmente para aliviar o sofrimento, mesmo sem acreditar em Deus ou em um sentido final para a dor. A "caridade" quaresmal, sob esta ótica, torna-se uma fraternidade no absurdo. Ajudamos o outro não por um mandamento, mas porque compartilhamos a mesma condição frágil e finita. É uma solidariedade horizontal, de Sísifo para Sísifo.


Isto é incrível para pensarmos e vivermos a Quaresma com Camus, ou seja, abraçar o rito como um exercício de lucidez. A repetição da quaresma não é fútil; ela é a afirmação de que, mesmo em um mundo sem instruções externas, o ser humano é capaz de criar sua própria disciplina e sua própria honra. Ou seja, A pedra de Sísifo é o seu jejum; o topo da montanha é a sua consciência.


Faz sentido para você essa troca do "sacrifício por recompensa" pelo "sacrifício como afirmação da dignidade"? Deixe seu comentário no site. Compartilhe o texto de forma vibrante e debata com seus pares, com quem você considere importante a proposta aqui postada.



IMAGEM: Escola Kids - UOL

30 comentários

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Keyla Anunciação
Keyla Anunciação
há 17 horas

O texto trás uma perspectiva mais aprofundada e diferentemente do olhar comum que pode enxergar a Quaresma como um sacrifício de recompensa, ele a aborda que a realidade é outra, mostrando que trata-se de um sacrifício de afirmação, onde é retirado as dívidas e a pessoa direciona sua atenção pro cuidado próprio.

No meu ponto de vista, a disciplina exercida nesses dias não está correndo atrás de perdão, na verdade, o indivíduo deseja deixar claro que seus atos não são determinado biologicamente, buscando assim dignidade humana em um mundo com distrações externas e excessos no geral. Nessa perspectiva, o jejum deixa de ser uma "moeda de troca" para se tornar um ato de domino dos próprios impulsos, logo, a vivência…

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carol França
carol França
há 2 dias

Lendo o texto me fez refletir sobre uma outra perspectiva em relação a quaresma. No qual abrir mãos de certas coisas , nos faz refletir e nos conectarmos com nós mesmo , a termos autoconhecimento.

Retrata a ideia de que o sacrifício não é por recompensa, mas uma afirmação da própria liberdade.

Editado
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ANNA LUYZA
há 2 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

A leitura desse texto traz uma perspectiva fascinante sobre a quaresma. Ampliou a visão que eu tinha sobre esse tema, trazendo novos pontos de vista como: a preparação espiritual do corpo para além de um sacrifício, como uma forma de exercer autoconhecimento e liberdade buscando sentido para a vida, como um despertar para deixar hábitos ruins, dominar seus próprios desejos carnais e a prática da caridade em pensar e ajudar o outro em um ato de amor ao próximo.

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Nicholas Ámon
há 2 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Lendo esse texto por um momento me lembrei de Vinicius de Moraes cantando "Pergunte pro seu Orixá, o amor só é bom se doer". Talvez por conta da ideia que ambos os textos trazem, de que o sofrimento valida o amor, como se a dor fosse uma condição necessária para que algo tenha valor. Mas juntando essas duas perspectivas, surge uma questão importante pra mim, que é até que ponto o sofrimento é, de fato, um caminho de afirmação ou salvação, e quando ele se torna apenas uma forma de submissão pra a gente, sabe? Também penso em controle, auto controle. Até que ponto nós usamos uma coisa, ou nos deixamos ser usados por ela? Somos mais determinados e fiéis caso…

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Luan Alexandre
Luan Alexandre
há 2 dias

Esse texto trás uma perspectiva totalmente diferente do que, sabemos e ouvimos a respeito da Quaresma e trás algo a mais do que além de uma perspectiva religiosa.

Mesmo fora de um contexto estritamente religioso, a Quaresma através desse texto, pode ser vista como uma oportunidade de pausa em meio à rotina acelerada. É um tempo que convida à reflexão sobre hábitos, prioridades e atitudes.

Esse texto nos propõe uma jornada: sair do automático, confrontar fragilidades e abrir espaço para algo novo florescer dentro de si.

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