UMA PERSPECTIVA SOBRE A QUARESMA
- Everton Nery

- 25 de mar.
- 4 min de leitura

A Quaresma, tradicionalmente vista sob a lente da contrição e do dogma religioso, ganha contornos fascinantes quando atravessada pelo pensamento de nomes como Kierkegaard, Sartre ou Camus. Longe de ser apenas um ritual de privação, ela pode ser interpretada como um exercício profundo de liberdade, responsabilidade e confronto com o "nada".
Eis uma reflexão sobre esse período sob a ótica existencialista:
a. O Deserto como Espaço de Autenticidade
Para o existencialismo, a rotina e as distrações sociais costumam ser formas de "má-fé", ou seja, fugas que usamos para evitar encarar a nossa própria existência: O Simbolismo, em que deserto quaresmal não é apenas um lugar geográfico, mas um estado de espírito. É o silenciamento do ruído externo; A Perspectiva, ao retirar os excessos (comida, entretenimento, consumo), o indivíduo é forçado a encarar o que sobra: si mesmo. Sem as "muletas" do cotidiano, você se depara com a sua verdade nua, o que Kierkegaard chamaria de o indivíduo diante do absoluto.
b. A Angústia e a Escolha Consciente
A abstinência e o jejum, vistos de forma existencial, não são "pagamentos" por pecados, mas atos de afirmação da vontade: Sartre e a Liberdade. Aqui se "estamos condenados a ser livres", a Quaresma é o momento de exercer essa liberdade de forma radical. Ao dizer "não" a um impulso biológico ou a um hábito, você prova que não é um objeto determinado por circunstâncias, mas um sujeito que escolhe seu próprio agir; A Angústia. Tem-se aqui o desconforto da privação que gera angústia, e para o existencialista, a angústia é o "vértice da liberdade". É o reconhecimento de que nada me obriga a agir de certa forma, exceto eu mesmo.
c. A Finitude como Motor
O início da Quaresma com as cinzas ("Lembra-te que és pó") é o lembrete existencialista por excelência: a finitude. Heidegger e o Ser-para-a-morte: Só quando aceitamos que o nosso tempo é limitado é que passamos a viver de forma autêntica. A Quaresma nos retira do tempo circular do consumo e nos joga no tempo linear da vida que urge. Outro elemento aqui é o Sentido: Se a vida termina, o que eu estou fazendo com o "agora"? A reflexão quaresmal transforma o medo da morte em um combustível para a criação de sentido.
d. A Responsabilidade Ética (O Próximo)
A caridade (esmola), um dos pilarares da Quaresma, ressoa com a ideia de que somos responsáveis por toda a humanidade. Ao olhar para o outro em privação, o existencialista reconhece que sua liberdade está intrinsecamente ligada à liberdade do outro. O compromisso ético na Quaresma deixa de ser uma obrigação divina e passa a ser uma escolha de solidariedade em um mundo que, por si só, não tem sentido intrínseco.
A partir dessa compreensão, Viver a Quaresma como um existencialista é transformar o rito em um laboratório de liberdade. É o período para destruir as identidades falsas que construímos e perguntar: "Quem sou eu quando não estou consumindo, quando não estou distraído e quando aceito que sou mortal?"
Desloquemos nosso olhar especificamente para a perspectiva de Albert Camus, que traz uma camada vibrante e quase solar para essa Quaresma existencialista. Se para outros o deserto é culpa ou angústia, para Camus ele é o cenário do Absurdo: o confronto entre o desejo humano de sentido e o silêncio irresponsivo do mundo. Ao aplicar “O Mito de Sísifo” ao período quaresmal, a prática ganha um contorno singular:
1. O Jejum como a Revolta de Sísifo
Sísifo é condenado a empurrar uma pedra até o topo de uma montanha, apenas para vê-la rolar de volta, eternamente. Camus afirma que "é preciso imaginar Sísifo feliz" porque ele é senhor de seu destino enquanto empurra a pedra. Eis duas inquietações: Primeiramente a analogia; A Quaresma é um ciclo que se repete todos os anos. Para o homem do absurdo, o jejum ou a abstinência não visam uma "recompensa no céu" (o que seria uma fuga da realidade), mas são um exercício de revolta. Em segundo lugar o sentido; Você nega um impulso não porque Deus mandou, mas porque ao fazê-lo, você afirma sua superioridade sobre a sua própria condição biológica e sobre o destino. O sacrifício é o seu "empurrar a pedra".
2. A Recusa da Esperança Metafísica
Camus critica o "suicídio filosófico", que é depositar esperança em algo além desta vida para suportar o sofrimento. Inicialmente na Quaresma pelo viés de camus, ignora-se a promessa de uma "ressurreição futura" como justificativa para o sofrimento presente. O valor está no agora. Em seguida, a Vivência, pois o "sacrifício" não é um investimento para o pós-morte; é um modo de viver com o máximo de lucidez. É dizer: "Eu sinto fome, eu sinto falta, eu sou mortal, e ainda assim, eu permaneço de pé e consciente disso".
3. O "Verão Invencível" no Meio do Deserto
Temos em Camus tem uma frase célebre: "No meio do inverno, aprendi finalmente que havia em mim um verão invencível". Assim, percebemos o deserto da Quaresma (o inverno da alma) serve para testar essa força interior. A privação não serve para te diminuir ou te tornar um "pecador miserável", mas para revelar a beleza da resistência. Desta forma para Camus, a austeridade quaresmal seria uma forma de limpar a visão para enxergar melhor a luz do mundo. É o despojamento que permite apreciar a existência sem adornos.
4. Solidariedade sem Dogma
Em sua obra “A Peste”, a personagem Dr. Rieux trabalha incansavelmente para aliviar o sofrimento, mesmo sem acreditar em Deus ou em um sentido final para a dor. A "caridade" quaresmal, sob esta ótica, torna-se uma fraternidade no absurdo. Ajudamos o outro não por um mandamento, mas porque compartilhamos a mesma condição frágil e finita. É uma solidariedade horizontal, de Sísifo para Sísifo.
Isto é incrível para pensarmos e vivermos a Quaresma com Camus, ou seja, abraçar o rito como um exercício de lucidez. A repetição da quaresma não é fútil; ela é a afirmação de que, mesmo em um mundo sem instruções externas, o ser humano é capaz de criar sua própria disciplina e sua própria honra. Ou seja, A pedra de Sísifo é o seu jejum; o topo da montanha é a sua consciência.
Faz sentido para você essa troca do "sacrifício por recompensa" pelo "sacrifício como afirmação da dignidade"? Deixe seu comentário no site. Compartilhe o texto de forma vibrante e debata com seus pares, com quem você considere importante a proposta aqui postada.
IMAGEM: Escola Kids - UOL

Visitando essa ideia, vejo a Quaresma menos como troca e mais como afirmação: o sacrifício não como moeda, mas como escolha consciente. Pela lente de Camus, o valor está na lucidez, em sustentar o gesto sem promessa, apenas como exercício de liberdade e dignidade diante do absurdo.
Gosto da ideia de quaresma como exercício do ser, quase um mergulho em autoconhecimento. Se estamos perdidos em meio a uma cultura que nos impõe cada vez mais o que devemos fazer, comer, vestir... o que mais poderia nos resgatar deste ciclo a não ser nos privar um pouco dele? Se reconectar com o que, para heiddeger, é o nosso "dasein" se torna essencial para sobreviver em meio a indústria cultural.
O texto é muito interessante pois ele mostra a quaresma além da visão tradicional do religioso, e deixa claro que é algo além disso, é como um momento pessoal de reflexão de quem nós somos e de como nossas escolhas são influenciadas.
Gostei da forma como o texto tira a Quaresma do automático e transforma em um momento de confronto real consigo mesmo. A ideia de abrir mão não por obrigação, mas como afirmação de consciência e liberdade, faz muito sentido. No fim, o rito deixa de ser só tradição e vira um espaço de construção de sentido e responsabilidade no presente.
Gostei muito desse texto. No mundo de hoje cada vez mais somos impelidos a consumir, a buscar por prazer, a estar fazendo sempre algo, em uma rotina frenética "lutando pelos nossos objetivos" isso é admirado. Esses comportamentos de consumo nos levam quase sempre a um excesso e são como diz o texto "fugas que usamos para evitar encarar a nossa própria existência". Muitas vezes por escolha própia o indivíduo decide estar sempre ouvindo músicas, vendo vídeos curtos em plataformas e outras coisas semelhantes, tudo porque não quer encarar o silêncio. O silêncio, a abstinência, o jejum nos confronta, nos leva a refletir comportamentos, pausar ciclos, a lutar contra nós mesmos, a tentar retomar o controle, nos leva a pensar e…