“VAMOS PRECISAR DE TODO MUNDO”: O Escudo Verde-Amarelo e O Beijo da Vitória.

Quando tudo parecida perdido, um vento democrático latino-americano ganhou todo o planeta. Nas ruas, o contra-ataque ao nazismo bolsonarista – esse nazismo à brasileira – fez a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva ganhar tração, rumo à virada heroica. Compreendendo a ameaça ao Estado Democrático de Direito, na figura de Flávio Bolsonaro (FB), a sociedade civil ergueu o braço e saiu às ruas para abraçar um governo com alto índice de reprovação. Nascia ali um pacto pela continuidade da democracia brasileira, reconhecendo em Lula o único e legítimo sinônimo para defender a Constituição de 1989 e seguir avançando nos direitos civis, nas políticas sociais e na proteção às populações minorizadas. Dos povos originários, passando pelas pessoas LGBTQIAPN+ até chegar a mulheres, negros, quilombolas e outros segmentos, o Brasil ressignificou os traumas e tomou uma decisão: dar ao torneiro mecânico, pernambucano de Garanhuns, retirante da seca, vencedor ante a miséria e sobrevivente das enchentes, um quarto – e inédito – mandato. Durante três semanas, construímos um escudo verde-amarelo, como resposta ao punhal verde e amarelo, ação golpista orquestrada por Jair Bolsonaro (JB), após ser derrotado em 2022. Finalizada a apuração, o alívio e a certeza: de virada é mais gostoso!
Ainda que oficialmente comece em janeiro de 2027, na prática, Lula 4.0 já iniciou. Tendo sido “recepcionado” pelo mercado financeiro, primeiro com um circuit breaker, paralisando os investimentos por meia hora, para, em seguida, esticar o dólar em 8% e levar a bolsa a um despenhadeiro de 17%, Lula age com a serenidade de quem, em todos os mandatos, sempre cumpriu as metas fiscais. Acenando ao mercado, ele pretende escalar seu vice, Geraldo Alckmin, para o Ministério da Fazenda, ao mesmo tempo em que une a federação PT-PC do B-PV ao centrão, encolhido ante o avanço da extrema direita na Câmara e no Senado. Essa aparente contradição, é, na verdade uma solução pragmática capaz de formar um bloco em condições de garantir a governabilidade do Executivo e neutralizar eventuais pautas-bomba, lançadas pelos nazistas da extrema direita. Além disso, distancia a direita democrática do bolsonarismo nazista.
Após a vitória, veio o discurso moderado, responsável, contudo, repleto de gratidão pelo apoio do povo, nas ruas e nas redes. Trazendo novidades para o governo, Lula prometeu priorizar a comunicação, mobilizando a sociedade civil organizada para ir às ruas, além da necessária integração do “Exército do Lula”, capitaneado pelo deputado federal reeleito André Janones (Rede–MG). Enquanto escrevo, neste domingo ensolarado, a União Nacional dos Estudantes (UNE) vai a nove cidades – Maceió (AL), Manaus (AM), Goiânia (GO), Cuiabá (MT), Belém (PA), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Porto Alegre (RS) e São Paulo (SP), celebrando a vitória, sob o lema “Brasil com S”, em uma referência direta à primeira carta do golpista FB – mau perdedor e fujão – quando ele, afrontando a democracia, proclamou a si mesmo, presidente eleito. O campo democrático parece ter rapidamente compreendido a urgência de neutralizar os nazistas do bolsonarismo no parlamento, nas ruas e nas redes, assegurando o retorno do jogo democrático, pautado pela presença de candidatos que vão da esquerda a direita, passando pelo centro. Neste sentido, Janones demonstrou estrondosa habilidade em manusear o Instagram, o X e outras redes, transformando-as em um verdadeiro labirinto, no qual uma ratoeira esperava, furtiva, para exterminar a política mentirosa do bolsonarismo nazista. Resultado: se no 1º turno o placar marcou 80 de FB contra 70,7 de Lula, no 2º momento, a vantagem passou a ser do presidente: 83,3 contra 76,2. Essa liderança no meio virtual, também se traduziu nas urnas: redução drástica de votos brancos, nulos e abstenções, ampliação dos votos em quase todos os municípios, totalizando 10,4 milhões e a vitória incontestável, com cerca de 4,4 milhões de votos. Para Janones, o capital político é estupendo: na Argentina, os peronistas criaram uma versão do “Exército do Lula”; na Colômbia, ao ser citado por Gustavo Petro, ele ofereceu ajuda a oposição daquele país; na França, a esquerda, denominada França Insubmissa, publicou orientações fundamentadas nas ações de guerrilha digital janonista.
A mobilização nas redes – essas novas ruas, pela qual a democracia desfilou no 2º turno – demonstrou a necessidade de continuar a militância. Através desse dispositivo, será possível entrar nas favelas e periferias, levando o conhecimento sobre os nossos adversários e o antídoto contra o ódio destilado por eles. Mais ainda, essa movimentação pode significar o início de uma ação governamental de letramento político, racial, tecnológico, de gênero e sexualidade, para a população mais pobre. Isso significa dizer que termos como mercado financeiro, bolsa de valores, terras raras, tecnofeudalismo e neoliberalismo podem ser ensinados a partir de grupos de WhatsApp progressistas, esclarecendo como funcionam os ataques aos direitos do povo e a soberania nacional. As consequências possíveis implicam desde a formação de massas esclarecidas, até uma profunda transformação social e política, capaz de esfacelar a extrema direita nas eleições municipais de 2028, abrindo caminho para o surgimento de quem irá sustentar o legado e o capital político de Lula, em 2030.
Devemos ainda lembrar das conquistas dos trabalhadores, lideradas por atores políticos advindos das camadas populares e de grupos historicamente estigmatizados. O fim da escala 6x1 contribuiu para o aumento do voto em Lula nas pequenas e grandes cidades. Longe de ser coincidência, isso revela a intensidade da conexão entre Rick Azevedo, Erika Hilton e os trabalhadores brasileiros. Estamos falando de uma travesti preta e de um homem cis gay preto, prestando um serviço histórico ao Brasil, mesmo a favor daqueles que direcionam ódio contra a população LGBTQIAPN+. Profundos simbolismos estão presentes nesse movimento. Hilton e Azevedo provaram que a luta pelos direitos de pessoas LGBTQIAPN+ e trabalhistas fazem parte do mesmo espectro político. Marginalizados por discursos trans-homofóbicos, Erika e Rick provaram a conexão entre gênero, sexualidade, raça e trabalho, se posicionando na vanguarda da principal vitória dos trabalhadores brasileiros no século XXI. A cereja do bolo na construção do escudo verde-amarelo vem exatamente desse movimento.

Após a confirmação da épica vitória, Lula beija a bochecha de Erika Hilton. A cena, rápida, expressou ao mundo a viabilidade do afeto genuíno e dessexualizado entre homens heterossexuais e cisgêneros e travestis. No País líder em assassinatos contra pessoas trans e travestis, beijar o rosto uma mulher, que, diariamente, tem a sua mulheridade atacada é um ato revolucionário. Ademais, este ato posicionou o azul, rosa e branco da bandeira trans e travesti, por entre o verde-amarelo do escudo construído por cada voto de uma população que vem ocupando espaços de poder, inclusive o Congresso Nacional. Seguem lutando as travestis e mulheres trans. Seguem lutando negros, quilombolas e povos originários. A democracia segue apontando trincheiras de luta e novos caminhos que nos fazem abrir um sorriso de esperança.
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Armando Januário dos Santos é Psicólogo (CRP-03/20912), Mestre em Psicologia e Especialista em Gênero e Sexualidade. Instagram: @januario.psicologo | WhatsApp: (71) 98108-4943
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Endereço de Imagem - Beijo de Lula em Erika Hilton:


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