VERDADE E CONHECIMENTO

Muitas vezes, confundimos os conceitos de verdade absoluta e conhecimento absoluto. A verdade absoluta diz respeito a uma realidade que existe de forma objetiva, independente da nossa percepção ou compreensão. Já o conhecimento absoluto refere-se à capacidade de entender completamente e com exatidão essa realidade.
A compreensão de nosso conhecimento estar em constante transformação não significa que a verdade absoluta deixe de existir. Entendemos que o desenvolvimento do conhecimento pode ser interpretado como uma jornada de aproximação a essa verdade.
À medida que acumulamos descobertas e aperfeiçoamos nossas interpretações do mundo, nossa compreensão da realidade se torna cada vez mais próxima de algo mais completo e preciso. Essa distinção é fundamental e aparece com frequência em situações do dia a dia, ainda que muitas vezes de forma implícita. Por exemplo, pense na medicina: durante séculos acreditava-se que doenças eram causadas por desequilíbrios de "humores" no corpo, uma visão que hoje nos parece arcaica. Com o avanço da ciência, descobrimos os microrganismos e, mais tarde, os vírus e o DNA. A realidade, ou seja, o fato de que a gripe é causada por um vírus, sempre existiu. Mas o nosso conhecimento sobre ela foi mudando até se aproximar dessa verdade.
Outro exemplo cotidiano está na educação: uma criança pode achar, por sua experiência limitada, que o sol "nasce" e"se põe", ou que a Terra é plana porque assim lhe parece. Com o tempo, a aprendizagem e o acesso a outras fontes de conhecimento permitem corrigir essa percepção, mostrando que o sol não nasce nem se põe, mas sim a Terra gira em torno de si mesma, sendo este um exemplo de como nosso saber vai se ajustando à
verdade.
Até nas relações humanas isso se aplica. Alguém pode ter uma impressão distorcida sobre uma pessoa, baseando-se em rumores ou julgamentos precipitados. Mas à medida que conhece essa pessoa de forma mais profunda e larga, sua percepção pode mudar, revelando aspectos que antes estavam ocultos. Pois a verdade da pessoa sempre esteve lá, mas o conhecimento sobre ela era parcial, incompleto.
Esses exemplos revelam que o entendimento de ainda não sabermos tudo não significa que não haja algo a ser sabido. O conhecimento absoluto pode estar fora do nosso alcance por ora, mas isso não invalida a existência de uma realidade objetiva, qual seja, a verdade absoluta, esta que buscamos entender melhor a cada passo.
Além disso, essa distinção entre verdade absoluta e conhecimento absoluto é fundamental para mantermos a humildade epistêmica, ou seja, a consciência de que nosso saber é sempre provisório, por mais avançado que pareça. Em tempos marcados por fake news, pós-verdades e opiniões travestidas de fatos, lembrar que a verdade não muda, pois somos nós que mudamos em direção a ela, é um exercício de maturidade intelectual. Isso nos permite dialogar com diferentes visões, revisar convicções e buscar a realidade com mais responsabilidade e menos arrogância.
O que se apresenta nessa compreensão é que a verdade é como o horizonte: sempre esteve lá, imóvel e serena; somos nós que, aos poucos, aprendemos a percebê-la além da névoa dos nossos próprios limites. A verdade, nesse sentido mais profundo, não é uma construção humana, sendo, pois presença silenciosa, como o mar que existe mesmo antes do olhar do pescador. Ela não se curva às modas do pensamento nem se dilui nas versões que contamos para aplacar a nossa ignorância. É o que pulsa por trás do véu das aparências, esperando que nossos olhos se acostumem à luz. O conhecimento, por sua vez, é a travessia: cheio de desvios, tropeços, miragens, mas é ele que nos move, passo a passo, em direção a algo maior do que nós. No fundo, saber não é possuir a verdade, mas se deixar tocar por ela, tal como quem caminha em direção ao horizonte, mesmo sabendo que ele nunca se alcança.
Um xêro no coração!
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Imagem retirada do banco de imagens gratuito Pexels.com


Excelente texto! A distinção entre a verdade ( que é a realidade) e o conhecimento (que é a nossa busca) é essencial para o tempo em que vivemos. Mostrar que a verdade é o horizonte e o saber é o caminho, reforça que a maturidade intelectual exige reconhecer a provisoriedade do que sabemos .
Reflexão perfeita para os tempos de redes sociais! Em meio a tantas verdades inventadas e algoritmos que alimentam nossas (in) certezas, seu texto lembra que a busca pela verdade exige humildade e caminhada (e haja caminhada), e não apenas um (rápido) clique. Parabéns, professor...
Excelente .
Como estudante de Pedagogia, considero essa reflexão muito importante, o texto mostra que aprender é uma caminhada continua em busca de uma compreensão cada vez maior da realidade. Precisamos ter humildade para reconhecer que não sabemos tudo e estar sempre abertos ao diálogo, à pesquisa e a novos aprendizados.
Sou seu fã meu professor!!